Episódio 1

Quint

Enquanto Quint caminhava entre planos de um corredor de pedra mal iluminado para a luz do sol salpicada de folhas, o calor o atingiu como uma toalha úmida. Isso o lembrava do Pântano da Detenção, mas o chão aqui não chapinhava, e as flores em forma de sino nas trepadeiras que se enrolavam nas árvores cheiravam agradavelmente, em vez de parecerem cadáveres. Ele girou em um círculo lento, examinando os arredores com interesse até pisar em uma nuvem de insetos minúsculos. Então ele cuspiu muito e balançou sua tromba por todo lado, tropeçando em uma rocha e caindo de joelhos.

Desajeitado como sempre, ele se repreendeu. Pelo menos ninguém estava lá para ver.

Exceto que, infelizmente, algo estava. Ele olhou para cima e se viu perigosamente perto de uma boca aberta cheia de dentes curvos e pontiagudos. Eles pertenciam a uma criatura de duas pernas coberta de penas brilhantes, com suas garras afiadas esculpindo sulcos no chão. Seu coração acelerou de medo e admiração. Principalmente medo. Este, presumivelmente, era um dos infames dinossauros de Ixalan.

Arte de: Néstor Ossandón Leal

Com um som entre um rosnado e um guincho, saltou em sua direção.

Quint esquivou-se para o lado, aterrissando na frente de outro dinossauro. Eles eram espertos o suficiente para flanquear. Isso era ruim.

Uma terceira criatura, maior, juntou-se às outras. Eles circularam, olhos miúdos rastreando cada movimento de sua tromba. Talvez ele pudesse usar sua magia para derrubar um galho sobre eles, ou fazê-los colidirem um com o outro? Ele começou a traçar um sigilo no ar para afastá-los. Antes de completar o feitiço, os dinossauros congelaram e olharam para a esquerda dele.

Alguém emergiu de uma estrutura de pedra em ruínas. Pele bronzeada, cabelo escuro puxado para trás de um rosto que ele via de perfil. Seus braços musculosos, braçadeiras e a espada presa ao cinto sugeriam que ela era uma guerreira, enquanto a suavidade de sua pele a marcava como uma jovem — não mais velha que o final da adolescência, talvez início dos vinte anos.

"Pantlaza, venha", disse ela. O terceiro dinossauro trotou obedientemente para o lado dela, embora fosse alto o suficiente para que sua cabeça estivesse no nível dos olhos dela. Com o aceno de uma mão, ela dispensou os outros como se fossem animais de estimação treinados, e eles desapareceram na selva.

A garota o encarou, um de seus olhos castanhos coberto por um disco de metal, como um tapa-olho. "Você é Quintorius Kand?", perguntou ela.

"Sou eu", Quint respondeu, observando as ruínas cobertas de trepadeiras. Uma pirâmide? Isso era calcário? Com esforço, ele desviou sua atenção de volta para sua salvadora. "Pode me chamar de Quint. Obrigado pela ajuda. E você é?"

"Eu me chamo Wayta", disse ela. "A guerreira-poeta nos disse para esperar por você."

"Mal posso esperar para conhecê-la", disse Quint, abanando o rosto com as orelhas. Ixalan era uma sauna em comparação com o calor seco de Pillardrop. "Todos os recém-chegados recebem uma festa de boas-vindas com dinossauros?"

"Não", disse ela. "Temos tido estranhos aparecendo em locais estranhos, então as patrulhas aumentaram. Todo cuidado é pouco depois da guerra."

"Compreensível." Quint caminhou em direção às ruínas. "Isto é Orazca? Pelas descrições de Saheeli, eu esperava mais ouro."

Wayta seguiu o olhar dele. "Isso não é Orazca. Venha por aqui."

Quint a seguiu. Através de uma fresta nas árvores, a luz do sol brilhava no metal. Ele moveu-se em direção à luz, protegendo os olhos ao passar pela barreira de folhagem e viu o brilho total e ofuscante da cidade dourada no vale abaixo. Pináculos como agulhas erguiam-se alto no céu azul, estradas e edifícios polidos estendiam-se ao longe e, no centro, um templo enorme erguia-se como uma montanha resplandecente.

"Ah", disse Quint. "Sim. Isso é mais ouro." Ele esfregou as imagens residuais de seus olhos. "Suponho que você não poderia me guiar? Você está ocupada? Conhece bem a cidade?"

"O suficiente", Wayta respondeu, cruzando os braços sobre o peito.

"Melhor do que eu, com certeza", disse Quint.

"Verdade." Wayta abriu um sorriso. "Você confia facilmente."

"Você não deixou os dinossauros comerem loxodonte no almoço", disse Quint. "Isso é bom o suficiente para mim."

Eles desceram a encosta até o arco que se erguia sobre os portões da cidade. Pessoas, carroças e dinossauros disputavam espaço, observados por guardas que usavam capacetes prateados com cristas em forma de asa e empunhavam lanças adornadas com penas laranja brilhantes. A larga avenida central os conduziu a um mercado, barracas e mantas dispostas em círculos concêntricos que se espalhavam a partir de uma fonte no centro, alimentada por aquedutos. Alguns olhares seguiram Quint, mas ele os ignorou enquanto seguia Wayta, examinando frutas rosadas espinhosas aqui, colares cravejados de gemas ali. Era difícil acreditar que este lugar havia sido castigado pela guerra, mas as feridas ainda apareciam, em prédios caídos, paredes esburacadas e manchas de cores desiguais nas ruas sob suas botas.

Eles chegaram à entrada do palácio, onde Wayta consultou um guarda enquanto Quint inspecionava os desenhos nas paredes, a tinta vermelha e branca desbotada com a idade. Ele ficou surpreso ao encontrar representações de uma esfinge; ele não sabia que a influência delas se estendia a este plano também. Esta parecia estar dando algo a uma figura menor, ou talvez recebendo um presente? Antes que ele pudesse continuar seu exame, outro guarda apareceu e os conduziu, não para a vasta pirâmide, mas ao redor dela, para um edifício sem adornos parcialmente danificado por magia perto da borda da cidade. Buracos corroídos por ácido marcavam a porta, enquanto marcas de queimadura nas paredes traçavam contornos horríveis dos humanos presumivelmente mortos que uma vez estiveram ali.

"Por aqui", disse Wayta, gesticulando para que ele a precedesse.

Arte de: Magali Villeneuve

Quint entrou em uma sala vazia com escadas ao fundo. Vozes flutuavam enquanto ele descia, encontrando-se em uma sala muito maior coberta de murais pintados e relevos de guerreiros emergindo de uma caverna para adorar uma figura com um glifo solar atrás da cabeça. No chão, uma série de tabletes de cobre estavam dispostos, esculpidos com glifos e incrustados com jade, cinábrio e gemas — âmbar, turquesa e quartzo rosa, se não estivesse enganado. Ao longo de outra parede, esta decorada com guerreiros lutando contra alguma criatura bípede impossivelmente alta, uma porta feita de ouro, prata e cobre estendia-se do chão ao teto. Nichos retangulares na porta sugeriam que os tabletes havia sido encaixados neles.

Duas mulheres interromperam a conversa quando ele entrou. Ambas tinham pele morena, cabelos e olhos escuros, mas as semelhanças terminavam aí. Saheeli era mais alta, com traços mais acentuados, e usava um vestido vermelho escuro e joias de ouro elaboradamente trabalhadas, enquanto a outra — presumivelmente Huatli — portava-se como Wayta, como uma guerreira, sua armadura prateada confirmando essa avaliação. Ela estava sentada no chão, cercada pelos tabletes, até que o dinossauro Pantlaza correu e a derrubou como um filhote enorme e ansioso.

"Quint, você conseguiu!", exclamou Saheeli, correndo para o lado dele. "Bem-vindo a Ixalan. Desculpe por não estar lá para recebê-lo, mas os Caminhos do Agoiro são menos... flexíveis do que caminhar entre planos. Esta é minha parceira, Huatli."

"Um prazer", disse Huatli, tentando vê-lo por trás da cabeça do dinossauro. "Eu esperava que Pantlaza estivesse menos enérgico depois de alguns exercícios ao ar livre, mas claramente eu estava enganada."

"Ele se divertiu rastejando até mim, pelo menos", disse Quint. "Obrigado por me convidar para cá, a propósito. Quando Saheeli me disse que vocês haviam encontrado evidências do Império da Moeda aqui, eu soube que tinha que ver."

"Você já descobriu quem são seus amigos mortos há muito tempo?", perguntou Saheeli, tocando levemente seu braço.

"Ainda não", disse Quint. "Eu os rastreei através de vários planos, mas eles ainda são um enigma. Império da Moeda nem é o nome deles, apenas algo que eu os chamo..." Ele parou de falar, examinando os tabletes. "Este é o projeto com o qual você precisava de ajuda?"

"É sim", disse Huatli, sorrindo para Saheeli. "Acredito que eles sejam a chave para abrir isto." Ela apontou para a porta enorme. "Os glifos formam um poema, e as partes que traduzi sugerem que encontraremos o berço da humanidade e o lar dos deuses em algum lugar além."

"Essa é uma afirmação e tanto", disse Quint, apertando os olhos. Um barrito de excitação escapou dele enquanto apontava para um dos tabletes com sua tromba. "Essas são as moedas! São exatamente como as que—"

"Huatli, você ainda está aí embaixo? O sol esquecerá seu rosto se você não sair ocasionalmente." Um homem desceu as escadas, musculoso e blindado, irradiando calma e diversão.

Huatli sorriu para o recém-chegado. "Inti, bem-vindo", disse ela. "Uma de suas irmãs enviou você porque perdi outra refeição?"

Inti sorriu maliciosamente enquanto coçava a crista da cabeça de Pantlaza. "Ouvi dizer que nosso convidado havia chegado e, sim, vim dar uma olhada em você e Saheeli. Você não pode comer rochas antigas, não importa quão dura seja sua cabeça."

"Quint, este é Inti", disse Huatli. "Senescal do sol, cavaleiro de dinossauro, herói da guerra contra os Phyrexianos."

"E primo dela", acrescentou Saheeli.

Quint inclinou a cabeça educadamente, seu olhar voltando furtivamente para as moedas nos tabletes.

"Antes que você pergunte", disse Huatli, levantando a mão, "não encontrei nada sobre armas ou magia que possamos usar contra a Legião do Crepúsculo."

Quint abanou uma de suas orelhas na direção dela. Armas? Legião do Crepúsculo?

"O imperador está ficando mais impaciente", disse Inti, sua voz agora cuidadosamente neutra, como se estivesse recitando as palavras de outra pessoa. "Ele pergunta mais uma vez se a porta poderia ser aberta usando outros métodos."

"Ele quer derrubá-la", explicou Saheeli.

Quint fez uma careta. Quebrar um artefato inestimável? Como alguém poderia sequer sugerir isso?

"A árvore com raízes rasas não resistirá à tempestade", respondeu Huatli, balançando a cabeça. "Diga a ele que estou quase terminando."

"Continuaremos os preparativos então", disse Inti. "Você tem certeza de que isso não será apenas um armário? Se estiver cheio de bolas de borracha, vou provocar você sobre isso para sempre."

"Tenho certeza", disse Huatli. "Esteja pronto para uma longa jornada, não um jogo."

Inti saiu, Pantlaza enroscou-se em um canto e Saheeli começou a massagear os ombros de Huatli. Huatli suspirou e inclinou a cabeça para frente.

"Você está fazendo o seu melhor", disse Saheeli.

"Você também", respondeu Huatli. "Como estão indo suas criações?"

Saheeli riu. "Cometi o erro de me perguntar em voz alta se eu poderia fazê-los cuspir fogo. O imperador ficou extremamente interessado."

Assim como Quint, honestamente. As habilidades de artífice de Saheeli eram lendárias. Strixhaven poderia cobrar o dobro da mensalidade por qualquer aula que ela desse, e ainda estaria cheia até as vigas.

Huatli envolveu a perna de Saheeli com um braço. "Eu só não quero mais guerra", disse Huatli suavemente. "Um belo sentimento para a guerreira-poeta do império, hein?"

"E eu quero que você esteja segura", disse Saheeli, abaixando-se para abraçar Huatli com mais força. "Difícil imaginar segurança com todos os planos dedicados a descobrir novas formas de perigo, mas é para isso que servem os constructos de dinossauros que cuspiam fogo."

"Acho que você deveria voltar para sua oficina", murmurou Huatli.

"Acho que deveria", concordou Saheeli.

Quint desviou os olhos para lhes dar uma aparência de privacidade. Saheeli acenou para Quint enquanto subia os degraus, soprando um último beijo para Huatli antes de partir.

Huatli limpou a garganta, a pele corada. "Pronto para começar?"

"Sempre", disse Quint, preparando-se para invocar a magia que o ajudaria a traduzir. "O que você tem até agora?"

Em poucos momentos, eles estavam concentrados em sua tarefa, e Quint não poderia estar mais feliz.

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Malcolm

O corpo estava caído em uma pilha de folhas semipodres na selva, perto o suficiente da Baía do Raio Solar para que Malcolm pudesse ter caminhado em vez de voar. Casacos-Azuis circulavam ao seu redor, tirando medidas e fazendo desenhos, falando em vozes baixas que irritavam sua audição de sereia — e seus nervos.

"Um dos seus, Lee?", perguntou o homem encarregado da cena.

Era difícil dizer. Estranhos aglomerados de cogumelos obscureciam as feições do cadáver como feridas vermelhas, surgindo de sua boca e de uma de suas órbitas oculares. Veias pretas traçavam sua pele cinzenta, com mais fungos crescendo ao longo de seu pescoço e braços. Ele parecia estar se deteriorando rapidamente e, no entanto, estava vivo apenas algumas horas antes, de acordo com o habitante local que o encontrou.

"Acho que este é Lank", disse Malcolm finalmente. "Ele era um mineiro na Cidade Baixa." Ele levantou os olhos para o Casaco-Azul. "A Capitã Vance disse que ele tinha um bilhete?"

O homem estendeu um pedaço de papel dobrado para Malcolm, que o pegou entre dois dedos e o abriu sacudindo.

Cidade Baixa sob ataque, dizia. Enviem ajuda. Estava assinado pelo prefeito, Xavier Sal, a tinta respingada e irregular sugerindo que ele o escrevera com uma pressa enorme.

Isso explicava por que as entregas da mina haviam diminuído e parado alguns dias antes, levando o resto da economia da Baía do Raio Solar — e, por extensão, de toda a Coalizão Brônzea — a uma paralisia total. A Capitã Vance já havia ordenado que Malcolm, o emissário oficial da Cidade Baixa, voltasse para investigar, e Malcolm estava ansioso para obedecer. Ele possuía ações na lucrativa mina e, mais importante, tinha amigos lá.

Agora ele sabia que devia esperar o pior.

"O que você acha?", perguntou o Casaco-Azul. "Magia nefasta?"

"Parece que sim", disse Malcolm. Mas quem? E por quê?

A Coalizão Brônzea tinha muitos inimigos. O Império do Sol estava ansioso para expulsar os chamados invasores de seu território. Os Arautos do Rio faziam incursões ocasionais, tentando parar os terremotos e o escoamento causados pelas minas, embora estivessem mais quietos ultimamente — quietos demais. A frota Quilha Sinistra irritava-se com os editos da Governadora Brasa e poderia ver isso como uma forma de retomar Porto Seco para si mesmos, minando sua fonte de riqueza. Até os vampiros da Legião do Crepúsculo estavam tentando se estabelecer, querendo riquezas para levar de volta a Torrezon: eles preferiam se mudar como caranguejos-eremitas e administrar o lugar eles mesmos. Qualquer um de seus rivais ficaria feliz em causar problemas na Cidade Baixa, mas ninguém ainda havia se apresentado para assumir a responsabilidade.

Infelizmente, o cadáver não tinha respostas. Malcolm teria que fazer sua própria investigação e esperar encontrar ouro.

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Amalia

Venha até mim, a voz sussurrou.

Um vasto mar de areia estendia-se diante de Amalia, pontilhado por ilhas de pedra, com a margem distante perdida em sombras.

Venha até mim.

Cachoeiras de fogo derramavam-se como metal fundido pelas paredes de uma vasta caverna, brilhantes e escaldantes.

Venha até mim.

Uma porta dourada e redonda surgiu, gravada com sigilos em uma língua semelhante ao Itzocan do Império do Sol, porém diferente.

Venha...

Amalia endireitou-se abruptamente em sua sela, seu braço doendo como se tivesse sido empurrada. Ela piscou atordoada para Clavileño, comandante dos soldados que protegiam a expedição. Ele franziu a testa, mostrando as presas.

"Você estava prestes a cair", disse ele em tom de acusação, com a voz áspera.

"Obrigada", respondeu ela, ainda recuperando o fôlego. Ele se afastou cavalgando, com o olhar frio de sempre.

Acima dela, os galhos das árvores da selva se entrelaçavam como um teto de folhas e trepadeiras, o ar mofado com o cheiro de terra úmida das chuvas recentes. Amalia sentiu uma pontada de saudade da biblioteca na propriedade de sua família. Era fácil sonhar com aventura cercada por livros e paz. Muito mais difícil saboreá-la quando vermes minúsculos pendurados em fios invisíveis caíam em seu colarinho, e dinossauros saltavam sobre ela do meio do verde, e tempestades tentavam encharcar todos os seus mapas todas as tardes com a regularidade do badalar de um relógio.

Ainda assim, depois da guerra, ela queria fazer algo que valesse a pena com sua vida, algo mais do que debruçar-se sobre tomos empoeirados. O cargo de cartógrafa da Companhia da Baía da Rainha prometia exatamente isso, e agora aqui estava ela, mapeando as selvas de Ixalan.

"Como você está se sentindo?", Bartolomé del Presidio, um dos altos oficiais da Companhia, sorriu gentilmente à sua esquerda.

Amalia não podia contar a ele sobre suas visões estranhas ou a voz que sussurrava para ela. Se estivesse nos estertores de um jejum de sangue, seria compreensível. Mas ela se alimentara recentemente e, no entanto, continuava caindo em transe, vendo e ouvindo coisas que não estavam lá.

"Estou bem, obrigada", respondeu Amalia. "Ainda estou me acostumando com os... preparativos de viagem."

"Difícil, não é?", disse Bartolomé. "Faça o seu melhor. Tenho um bálsamo que ajuda com o cansaço. Vou lhe dar um pouco quando pararmos."

"Estou muito agradecida", disse Amalia.

Bartolomé chicoteou as rédeas e avançou na procissão. Eles eram cerca de trinta ao todo, entre soldados, servos e penitentes que buscavam absolvição por crimes cometidos em Torrezon. À frente, de costas rígidas em sua montaria enorme, Vito Quijano de Pasamonte liderava a expedição. Ele mal a reconhecera quando se conheceram, aparentemente absorto em seus próprios pensamentos e prioridades, e isso não mudou durante a longa viagem marítima, nem nos dias desde que deixaram a Baía da Rainha. Quando não estava gritando ordens ou olhando melancolicamente para o nada, ele lia e relia um livro surrado que ninguém mais tinha permissão para ver. Bartolomé tentou pegá-lo emprestado uma vez; Vito o agarrou pela garganta e o prensou contra uma árvore.

Ela teve a sensação de que os dois vampiros não compartilhavam os mesmos objetivos, apesar de alegarem ter um propósito comum.

Um Templo de Aclazotz supostamente os aguardava nas profundezas deste continente. Dentro desse templo, uma porta. E atrás dessa porta, esperançosamente, uma solução para o cisma crescente que ameaçava dividir a Igreja do Crepúsculo em um espasmo de violência pior do que as Guerras Apostasinas.

Seria a porta em suas visões? Amalia não saberia até que a encontrassem. Até lá, ela tinha trabalho a fazer.

Ela voltou sua atenção para sua cartomancia, puxando o mapa cada vez mais detalhado de sua jornada. O caminho deles a partir da Baía da Rainha era uma trilha vermelha que brilhava fracamente em sua localização atual. Ela furou seu dedo mindinho com uma de suas presas e, em seguida, molhou o dedo ensanguentado em um pequeno poço de cinzas, misturando-os. Assim combinada, ela espalhou a solução pela superfície do mapa, imbuindo-a com sua intenção. Lentamente, como tinta espalhando-se por papel úmido, a mistura de sangue e cinzas estendeu-se para preencher as partes em branco de seu pergaminho em detalhes precisos.

Venha até mim...

Amalia estremeceu, desejando saber de quem era a voz que a chamava. Esperando — temendo — que logo descobriria.

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Huatli

A tradução estava terminada.

Huatli espreguiçou-se e olhou para Quint, que estudava suas notas. Wayta estava parada em um canto, observando-os com interesse. Huatli repetiu a tradução para si mesma, saboreando os ritmos do poema.

Nós somos os Komon, do Quinto Povo, gravetos e pás do bom lugarconcedido a nós pelos Deuses das Profundezas, exilados na superfície por nossos fracassos.

Nós derrotamos o Grande Traidor, lutamos contra os traidores, invasores, aprisionadores de Chimil, a Estrela Partida, a glória de sua luz tripla oculta.

A Era do Sol terminou em trevas por dezesseis contagens completas de seu giro, até que as Mil Luas estilhaçaram a casca circular de sua prisão …

"O que é uma contagem completa?" Quint perguntou.

"Vinte," Huatli respondeu absorta. "Um giro provavelmente é um ano. Se o sistema deles for como o nosso, isso significaria 320 anos."

"Três séculos de escuridão?" Quint exclamou. "Incrível."

"Horrível," Huatli murmurou. "Como alguém poderia aprisionar um deus?"

"Este é o deus que você acredita ser como o seu?" Quint perguntou.

"Sim," disse Huatli. "O nosso é o Sol Triplo, embora nunca os tenhamos chamado de Chimil." Ela fechou os olhos. "Pode ser herético pensar que são o mesmo."

Quint fez um gesto semelhante a um dar de ombros com sua tromba. "Os mistérios dos planos são infinitos. Novas descobertas frequentemente reescrevem velhas histórias."

Huatli inclinou a cabeça para ele. "Você soa como se tivesse tido experiência com isso."

"Eu certamente tive. Lembre-me de te contar sobre meu mentor algum dia." Quint tocou uma linha em suas notas. "E quanto a esta parte?"

Huatli escaneou aquela tabuleta.

Deixamos esta memória e chave e mapa, para que as sementes de nosso fruto possam se espalhar pelos caminhos sinuosos de Topizielo, até Matzalantli, porta dourada dos deuses, e encontrar as raízes perdidas de nossa árvore.

"Eu não acho que signifique esta porta," disse Huatli. "Deve haver outra além dela."

"Muito além, se 'caminhos sinuosos' forem uma indicação," disse Quint. "Não que algum dia a encontraremos a menos que consigamos abrir esta."

Huatli examinou a porta. As tabuletas contendo o poema haviam sido incrustadas no metal quando foram encontradas, mas ela rapidamente descobriu que eram removíveis. Atrás das tabuletas havia glifos tênues, um por recesso de tabuleta, cada um uma única palavra.

"Você substituiu as tabuletas na ordem em que as encontrou?" Quint perguntou.

"Sim, isso não funcionou," disse Huatli.

"Talvez um comando verbal?" Quint sugeriu. "Eu abri uma porta semelhante recitando parte do Cântico de Jed."

"O quê?"

"É uma importante história loxodonte. Esqueça, foi apenas uma ideia."

"O que eu poderia recitar?" Huatli ponderou.

"O poema?" Quint perguntou.

Huatli franziu a testa pensativa. "É bastante longo, e minhas pronúncias da língua antiga podem não estar corretas."

"Você tem razão," Quint concordou. Ele virou uma das tabuletas. "Interessante que existam símbolos na porta, mas não nestas."

Huatli examinou os glifos da porta novamente. Guerreiro, folha, fazendeiro, sombra … palavras simples, comuns. Nenhuma delas correspondia aos glifos nas várias tabuletas. Ela leu o poema mais uma vez, procurando por padrões que pudesse ter perdido.

"Oh!" ela exclamou. "Eu tenho uma ideia."

Ela buscou a tabuleta com a linha, "nós lutamos contra os traidores", e a deslizou para o buraco com o símbolo do guerreiro.

Nada aconteceu.

"Você pode precisar colocar todas nos lugares certos primeiro," Quint disse encorajadoramente.

Huatli colocou a tabuleta com "galhos perdidos de nossa árvore" com o símbolo da folha, então "gravetos e pás do lugar bom" com o símbolo do fazendeiro, depois "A Era do Sol terminou em trevas" com o glifo da sombra. E assim ela continuou, até que todas as tabuletas estivessem encaixadas de volta na porta.

Um sussurro de magia tocou seus dedos, e o espaço ao redor de cada tabuleta brilhou suavemente. O brilho se espalhou para as bordas da porta e, com uma nota grave profunda, ela se abriu.

"Como você—" Quint começou.

"Os glifos na porta correspondiam às tabuletas," disse Huatli. "Apenas não diretamente. Motivos simbólicos."

"Ah, claro." Quint gesticulou com sua tromba. "Gostaria de fazer as honras?"

Huatli segurou a borda da porta e puxou. Ela fez um som de rangido onde se arrastava pelo chão, ar estagnado correndo pela fresta. Além, um túnel inclinado aguardava, frio, seco e empoeirado, largo o suficiente para caber os dinossauros de carga menores.

Arte por: Cristi Balanescu

"Pegue uma tocha," ela disse a Wayta, que obedeceu rapidamente.

Eles desceram, Huatli liderando o caminho com Quint atrás dela, Wayta e outro guerreiro na retaguarda. No fundo do túnel, encontraram uma sala grande o suficiente para caber uma pirâmide dentro. Uma fileira de cadáveres agachados no chão em frente à entrada do túnel, envoltos em pano de linho. Cordões de contas de jade e cinábrio pendiam de seus pescoços, e tiras de casca de árvore estavam enfiadas nas faixas enroladas em seus olhos. Pareciam ser guerreiros, suas armas descansando perto de suas mãos ossudas, embora suas armaduras fossem diferentes das que ela e Wayta usavam. Sob seus linhos funerários, seus ossos brilhavam em um roxo rosado tênue, em padrões estranhos que pulsavam com magia.

"O que é aquilo?" Quint perguntou, apontando.

Os restos de uma criatura humanoide massiva dominavam o canto oposto da sala, seu capacete — não, seus chifres — roçando o teto. Dezenas de lanças eriçavam de seu corpo, parecendo pequenas como flechas, algumas de suas hastes quebradas apesar de serem feitas de metal. Uma armadura cor de ferrugem envolvia seu corpo, com curvas e lacunas como algo entre um esqueleto e uma gaiola. Pele cinza ressecada era visível por baixo, e mãos do tamanho de uma pessoa terminavam em garras curvas.

"Eu nunca vi nada parecido," murmurou Huatli. "É maior que os maiores dinossauros — exceto Zacama."

"É seguro assumir que matou estas pessoas," disse Quint. "Mas estava usando armadura. Nenhuma besta comum, então. Por que eles estavam lutando, eu me pergunto?"

"Talvez as respostas aguardem mais adiante," respondeu Huatli. Para o guarda, ela disse: "Encontre o senescal e o campeão Imperial. Diga a eles que partiremos assim que os dinossauros de carga estiverem prontos."

O guarda saudou e apressou-se a entregar a mensagem a Inti e Caparocti. Huatli recuou mais lentamente, deixando Quint inspecionando os restos com Wayta, a chama da tocha projetando sombras estranhas nas paredes.

Ela lançou um último olhar para os guerreiros ajoelhados e o cadáver monstruoso no canto antes de subir as escadas de volta. Seria ela capaz de encontrar um caminho para a paz nas profundezas, como esperava, ou seria esta batalha de muito tempo atrás um presságio de que sua missão estava condenada desde o início?

Saheeli esperava na sala acima, e Huatli suspirou de prazer ao enterrar o rosto no pescoço de sua parceira.

"Eu não fiquei fora tanto tempo," disse Saheeli, seus dedos calosos entrando em uma fresta na armadura de Huatli para acariciar sua pele.

"E ainda assim sempre parece uma eternidade," respondeu Huatli. "Vamos tomar um café, só nós duas. Agora que a porta está aberta, partiremos em breve."

"Para onde?" Os olhos de Saheeli, delineados com kohl, se arregalaram. "O que você encontrou?"

"Morte e escuridão," murmurou Huatli. "Venha, meu coração. Preciso me fartar de você antes de nos separarmos." Ela puxou Saheeli para a luz do sol, entrelaçando suas mãos enquanto caminhavam pelas ruas douradas juntas em um silêncio companheiro.

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Malcolm

O nome "Downtown" começou como uma piada e pegou. O acampamento de mineração estava dividido entre um posto avançado na superfície e a vila principal subterrânea em uma caverna enorme. A mina real era um cenote antigo e seco que se aprofundava na terra, com túneis se estendendo na rocha em vários níveis como raios em uma máquina com centenas de rodas. Edifícios de madeira estavam espalhados ao redor da borda do vasto buraco, sem nenhuma razão ou lógica particular para sua colocação além dos caprichos de seus construtores. Guindastes e passarelas se estendiam sobre o vazio, suportando elevadores operados por polias, enquanto elevadores hidráulicos e escadas em zigue-zague abraçavam as paredes. Mais polias içavam baldes de minério que eram empilhados em carrinhos em trilhos que cruzavam o chão. Refinarias cuidavam das conversões químicas e mágicas, outras áreas de processamento gerenciavam a limpeza manual, e silos eram preenchidos com o produto pronto para entrega na superfície. Tudo era geralmente iluminado por lâmpadas de luz do dia gigantes, mágicas e mundanas, bem como tochas pessoais, velas e lanternas.

Arte por: Cristi Balanescu

As lâmpadas estavam escuras e, pelo que Malcolm podia dizer, Downtown estava inteiramente vazia, exceto por ele mesmo e pelas pessoas que trouxera da Baía do Raio de Sol para ajudar na investigação.

Breeches ajustou seu tricórnio com uma mão de pelos azuis, seus olhos dourados estreitados. "TODOS SE FORAM?" o goblin gritou.

"Todos se foram," concordou Malcolm, franzindo a testa.

Minério bruto estava em carrinhos de mina deixados no meio do trilho, e em barris e caixotes, alguns tombados. Mesas de triagem estavam empilhadas com metais ou cristais parcialmente limpos, pincéis e cinzeis descansando por perto como se seus usuários estivessem prestes a retornar de uma pausa. As portas dos dormitórios estavam abertas, camas desarrumadas como se tivessem sido abandonadas às pressas. Comida apodrecia nas cozinhas e áreas de refeição, e o cheiro de mofo permeava tudo.

Os únicos sinais de violência eram marcas de queimadura em alguns edifícios e algumas armas caídas. Malcolm examinou uma picareta com uma substância estranha e pegajosa — sangue? Ele não ia tocá-la para descobrir.

Todos os elevadores de polia de Downtown estavam presos no topo de seus guindastes, como se tivessem sido puxados para cima para se defender contra um cerco vindo de baixo. Todos, exceto um.

Malcolm ergueu sua lanterna ao se aproximar daquele elevador. Estava tão escuro que ele quase pisou nas linhas de ichor pintadas no chão próximo. Ele se ajoelhou para examiná-las mais de perto. Uma palavra, as letras grossas e em blocos.

ABAIXO.

As penas em seus braços se eriçaram. Se isso fosse uma armadilha, eles estariam caminhando direto para ela. Mas de que outra forma ele poderia descobrir o que aconteceu com uma cidade inteira desaparecida? Como a chama tremeluzente em sua lanterna, ele alimentava uma esperança tênue de que sobreviventes pudessem ser encontrados e resgatados.

"Você," disse ele, apontando para um de seus companheiros. "Volte para a Baía do Raio de Sol e conte a eles o que encontramos. Você," disse ele, apontando para outro. "Fique aqui em cima e espere por nós."

Breeches estava na borda do vazio, uma expressão inescrutável em seu rosto de goblin. "ABAIXO?" ele perguntou.

"Sim," disse Malcolm, encarando a mensagem. "Abaixo."

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Amalia

As ruínas desmoronadas do templo de Aclazotz foram parcialmente retomadas pela selva, trepadeiras sufocando as paredes, raízes de árvores rachando os pisos de pedra, galhos perfurando o teto caído. Enquanto a tinta vermelho-sangue do feitiço de Amalia preenchia outra área de seu mapa, os soldados e servos se moviam pelo acampamento avançado estabelecido por aqueles que haviam chegado dias antes.

Um silêncio recaiu sobre a reunião enquanto Vito caminhava entre eles, irradiando determinação e ameaça. Em uma mão, ele carregava uma lança, sua ponta alguns palmos acima de sua cabeça. Na outra, ele segurava o livro que nunca saía de sua vista. Seus olhos azuis pareciam arder com uma luz interior, e os vampiros se aproximaram como se ele fosse um ímã e eles fossem todos limalhas de metal.

"Esta lança," começou Vito, erguendo a arma, "foi empunhada pelo Venerável Tarrian, em cujos passos seguimos. Este é o seu diário." Ele ergueu o livro. "Ele contém um registro de suas viagens com Santa Elenda e suas revelações, suprimidas pela igreja e recentemente recuperadas por verdadeiros crentes."

Arte por: Nereida

Verdadeiros crentes? Amalia ficou tensa. Certamente, ele não queria dizer apoiadores do Antífice. Ela ouvira algumas das histórias—

"Dentro deste templo," continuou Vito, "há uma porta que leva ao local de repouso de nosso antigo deus e progenitor, Aclazotz, criador dos primeiros vampiros. Embora ele durma, ele pode ser despertado novamente por seus servos mais fiéis."

Despertar um deus? Tal coisa era possível? Amalia mordeu o lábio, estremecendo quando suas presas perfuraram sua carne. Talvez ela não estivesse sozinha em seus pensamentos, porque um murmúrio baixo surgiu entre a multidão.

Vito ergueu a lança e o silêncio recaiu novamente. "Se devolvermos Aclazotz a Torrezon, como esta escritura promete, ele curará os fiéis e trará paz à terra. O cisma terminará, e seremos mais uma vez livres para espalhar nosso catecismo por este continente selvagem."

Algo em seu tom fez Amalia estremecer, apesar do calor. Cura e paz soavam como uma causa justa, mas a que custo? Alguém mais estava tão perturbada quanto ela? Bartolomé observava Vito com uma expressão cuidadosamente neutra, então ela escondeu seus sentimentos também. Quem sabia o que Vito poderia fazer se fosse desafiado?

"Em frente, então," disse Vito, gesticulando com a lança. "Rumo ao nosso destino."

Vito entrou no templo em ruínas e, com um calafrio presciente, Amalia juntou-se à procissão que o seguia.

Lá dentro havia um cenote, largo e profundo, as escadas curvas esculpidas na lateral escorregadias de umidade. Alguns vampiros carregavam lanternas, outros iluminavam seu caminho com velas flutuantes presas às suas mochilas ou cintos por longas correntes. No fundo da escadaria, um portal levava a uma sala com vários recessos nas paredes. Amalia espiou um deles, encontrando uma pilha de ossos mofados. Ela recuou, esbarrando em Clavileño, que sibilou para ela e a empurrou para frente.

As catacumbas continuavam, sala após sala cheia de ossos dos mortos. Padres? Antigos sacrifícios? Ela realmente queria saber? As chamas às suas costas tremeluziam enquanto ela caminhava, projetando sombras em cada parede.

Finalmente, chegaram a uma grande sala circular cheia de candelabros vazios, com um altar de obsidiana ranhurado em frente a uma porta dourada. Dizia-se que Santa Elenda havia emergido de uma porta como aquela.

Para surpresa de Amalia, esta não era a porta em suas visões.

Um dos soldados tentou abri-la, mas ela permaneceu teimosamente fechada. Mais dois soldados juntaram-se ao primeiro, sem efeito.

"Talvez ela não possa ser aberta," ponderou Bartolomé. "Viemos tão longe para nada?"

"Aclazotz me guia," disse Vito, sua voz ecoando no espaço fechado. "Clavileño, traga-me um dos carregadores."

Clavileño fez como ordenado e logo um dos servos humanos de rosto pálido do acampamento entrou, mãos cerradas nervosamente.

"Não tenha medo," disse Vito. "O Venerável Tarrian escreveu: 'O sangue do cordeiro abrirá a porta para o paraíso'. Estamos sendo testados e devemos ser fortes. Venha até mim."

O carregador aproximou-se dele hesitantemente. Vito pousou a mão na cabeça do homem, fitando-o nos olhos com um sorriso benevolente.

"Coloque-o no altar," disse Vito.

Clavileño obedeceu, levantando o homem do chão com força vampírica. O carregador lutou, lamentando enquanto o soldado tentava deitá-lo na placa de obsidiana. Clavileño não se moveu.

O olhar de Vito caiu sobre Amalia, e ela estremeceu. "Você," disse ele. "Ajude a segurá-lo."

Amalia recuou, braço erguido como se para se proteger.

"Seu sacrifício significará sua salvação," disse Vito. "Faça o que eu digo."

"Você corrompe os ritos de sangue sagrados," protestou Bartolomé.

"Os ritos da igreja são uma imitação pálida dos verdadeiros sacramentos de Aclazotz," disse Vito com desdém. "O diário nos ajudará a desbloquear seu poder, e você entenderá."

Amalia olhou para Bartolomé, horrorizada, esperando que ele parasse com essa farsa. Em vez disso, ele recuou, seu rosto mais uma vez uma máscara.

Vito gesticulou para outro soldado. "Ajude Clavileño." Suas ordens foram obedecidas e logo o carregador estava deitado de bruços no altar, membros estendidos, gemendo piedosamente.

Vito enfiou o diário sob um braço e desembainhou a faca em seu quadril. "Oferecemos sua vida a Aclazotz. Este sangue é o nosso pacto, eterno como a vida que nos foi prometida. Em sua escuridão somos santificados."

Com um único golpe, Vito cortou a garganta da vítima. O altar ganhou vida, sua negridão parecendo brilhar. Em vez de espirrar no ar, o sangue escorreu pelas ranhuras do altar, para o chão e atravessou até a porta, que brilhou com a mesma escuridão luminescente.

A porta gemeu ao abrir. Uma lufada de ar estagnado emergiu do túnel adiante como o hálito de algum comedor de carniça imundo, as chamas na sala tremeluzindo descontroladamente.

Arte por: Raluca Marinescu

"Louvem Aclazotz," entoou Vito.

Bartolomé permaneceu em silêncio enquanto Vito dava ordens aos soldados para se prepararem para a partida.

Venha até mim …

Amalia respirou trêmula, dizendo a si mesma que a voz sussurrante não estava mais forte do que da última vez que falara com ela. Uma das velas que pairavam às suas costas apagou-se abruptamente, aprofundando as sombras ao seu redor, e ela esperou que não fosse um presságio do que estava por vir.

Episódio 2

Wayta

Sala após sala, túnel após túnel, Wayta seguiu a guerreira-poeta e seu assistente loxodonte para as profundezas da terra. Ela e dezenove de seus companheiros guerreiros reportavam-se a Inti e Caparocti, oficiais imperiais enviados pelo imperador para ajudar Huatli em sua missão. Todos estavam armados e prontos para enfrentar quaisquer inimigos que pudessem encontrar, mas até agora seu inimigo mais perigoso era a poeira.

Wayta coçou a pele cicatrizada sob seu tapa-olho, a ferida uma lembrança tangível de tudo o que perdera na guerra contra os phyrexianos. Quando mentira sobre sua idade para se juntar às fileiras de defensores de Ixalan, seu caminho escolhido parecera tão claro e simples. Ela fora para onde lhe mandaram, comera e dormira quando lhe mandaram. Lutara quando lhe mandaram. Após a invasão, ela se afastou das selvas outrora confortáveis de seu lar, agora repletas dos fantasmas de seus camaradas caídos. Mas não importava o quanto navegasse com a Coalizão de Latão, não importava a frequência com que pisasse nas tábuas do High and Dry ou raspasse cracas das laterais dos navios, o Sol Tríplice a seguia. Vigiava-a. Aquecia-a quando tremia com velhos medos. Gradualmente, as piores sombras em seu coração foram afugentadas pela luz. Ela deixara os piratas e retornara ao Império do Sol um ano mais velha, ouvira sobre esta expedição em Pachatupa e soube que era precisamente o desafio — e a distração — que estivera procurando.

Agora, aqui estava ela, de volta à sua antiga armadura, nas trevas, procurando pelos fantasmas de outras pessoas. Pelo menos os dela permaneciam na superfície.

Quint e Huatli examinaram mais uma pintura em mais uma sala, iluminada por um globo afixado à placa peitoral de Huatli, carregando a luz do Sol Tríplice. Seus dinossauros de carga batiam as patas inquietos, e até o normalmente bem-comportado Pantlaza trinado e rosnava seu desagrado. Wayta simpatizava.

"Mais sinais de luta", Huatli murmurou, passando a mão por um sulco que estragava a imagem, que retratava uma batalha.

"E mais daquele pigmento roxo-rosado", disse Quint. "Você tem certeza de que nunca o encontrou antes?"

"Tenho certeza", respondeu Huatli.

Um da meia dúzia de dinossauros de carga empinou. Wayta enviou-lhe um pensamento calmante enquanto seu condutor envergonhado puxava a arreata, as luzes penduradas no couro balançando e projetando sombras estranhas.

"Cuidado", disse Inti. "Não queremos quebrar mais nenhuma cerâmica."

"Cerâmica?" Quint perguntou, as orelhas se erguendo. Ele seguiu o gesto de Inti e ajoelhou-se para vasculhar uma pilha de cerâmicas quebradas e outros objetos. Ele pegou algo com sua tromba e encostou-o na língua. Wayta estremeceu.

"Osso", Quint disse solenemente.

"Nojento", disse Caparocti. "Huatli, podemos continuar?"

Relutantemente, Huatli deixou o mural para trás.

Prosseguiram, descendo por túneis e caminhando por cavernas escuras e frias. Em quase todos os lugares onde o caminho se estreitava, encontravam barricadas e corpos, alguns preparados para o descanso como os da primeira sala, outros caídos onde tombaram, com armas agarradas em dedos ossudos.

Wayta tentou não se perder em memórias de suas próprias batalhas; escorregando em sangue, camaradas gritando, o cheiro de magia, suor e morte. Ela se perguntava se o conflito era inevitável, se a paz era transitória e frágil como tanto osso e argila.

"Olá, o que é isto?" disse Quint. Ele e Huatli pararam novamente, e logo Wayta viu o que os detivera.

Esta câmara continha um abismo cheio de uma névoa verde brilhante, o teto esculpido com glifos gigantes cujo significado lhe escapava. Enormes blocos de pedra, cada um ostentando seu próprio glifo, estendiam-se pelo abismo como uma ponte. Espaços entre as pedras tornariam a travessia difícil.

Caparocti deixou cair uma pedra na névoa. Nenhum som sinalizou sua queda.

"Isso é ruim", observou Inti secamente. Wayta concordou.

"O poema fala disto", disse Huatli, franzindo a testa, e recitou os versos.

Atravesse as névoas do tempo Pedra por pedra, pé e mão, Olhos aguçados, coração forte, respiração calma. Comece de novo para chegar ao fim.

Huatli passou o dedo por um painel incrustado na parede, que também ostentava os mesmos glifos. "Eu me pergunto o que isso deveria ser." Vários símbolos estavam faltando ou quebrados, pedaços da pedra espalhados pelo chão abaixo.

Wayta rolou as palavras do enigma pela língua como carne temperada. Ela não estudara as línguas antigas da maneira que Huatli fizera; a guerra roubara essa possibilidade dela. Mas se isso fosse como a porta …

"Os glifos na ponte correspondem às palavras no poema?" Wayta perguntou.

Huatli assentiu. "Como antes, não diretamente. Há sandália, e há palma." Ela apontou para cada pedra enquanto falava, um caminho se formando na mente de Wayta.

"E 'comece de novo' sugere que o padrão se repete", acrescentou Quint. "Muito bem."

Wayta deu um passo à frente. "Deixe-me tentar, Guerreira-Poeta."

Huatli assentiu, sua expressão suavizando-se. "Boa sorte."

Entregando sua mochila a outro guerreiro, Wayta recuou da borda do abismo e fez uma oração rápida a Tilonalli, o sol ardente, pedindo força. Ela correu e saltou sobre a primeira pedra.

Ela permaneceu firme sob suas botas. Ela expirou em alívio, então saltou para a próxima.

Continuou, uma após a outra, tornando-se mais ousada à medida que o lado oposto do abismo se aproximava. Sua ousadia a tornou descuidada e, após um pouso desajeitado, ela tropeçou em uma pedra adjacente.

Sem aviso, ela caiu na névoa.

Wayta saltou e agarrou a pedra correta antes que a névoa a engolisse. Enquanto se puxava para cima, as plataformas começaram a se rearranjar com um som de trituração, e ela quase perdeu o equilíbrio. Ela olhou para a esquerda, vendo sua morte em uma pedra correndo em sua direção para derrubá-la ou esmagá-la.

Mãos fortes agarraram seus braços e a puxaram para cima. Caparocti a soltou uma vez que ela estava segura, e ela lutou para acalmar as batidas de seu coração.

"Obrigada", disse Wayta.

"Não foi nada", respondeu Caparocti. "Vamos terminar isso."

Wayta assentiu e se recompôs, procedendo com mais cuidado. Juntos, chegaram ao fim, encontrando um painel de glifos na parede que correspondia aos que flutuavam atrás deles e aos quebrados do outro lado.

"O que isso fará?" Caparocti perguntou.

"Eu acho …" Wayta tocou os glifos na ordem mencionada no poema, e eles brilharam brevemente. As plataformas deslizaram juntas, formando uma ponte sólida, muito mais fácil de atravessar. Caparocti assobiou e gesticulou para que o resto do grupo atravessasse enquanto Wayta se mantinha imóvel.

"Onde você serviu?" Caparocti perguntou, o olhar afiado como uma lâmina.

"Tocatli", respondeu Wayta.

"Qualquer um que sobreviveu lá seria um recurso valioso na próxima guerra com a Legião do Crepúsculo", disse ele.

Wayta olhou respeitosamente além do ombro dele. "Você tem certeza de que a guerra está chegando?"

"Tão certo quanto o dia segue a noite", respondeu ele. "Os colonizadores devem ser eliminados, ou nunca deixarão de tentar nos governar. O poder protege nosso império."

Wayta pensou novamente nos corpos que haviam passado nas cavernas, e nos que preenchiam seus sonhos, imaginando qual seria o preço dessa força.

Arte de: Donato Giancola

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Malcolm

Elevadores, Malcolm decidiu, eram uma forma especial de punição criada apenas para sereias. Cavernas também.

Ele e sua tripulação estavam em seu décimo — décimo primeiro? — elevador, suas lanternas de cabeça e luzes de ombro mal cortando a escuridão do cenote. Embora pudesse facilmente usar suas habilidades de radiestesia para encontrar minério, encontrar pessoas desaparecidas estava além do escopo de sua magia. Cada vez que chegavam ao fim de um elevador, procuravam por um sinal dos residentes de Downtown, encontrando uma confusão de rastros na poeira de minério que sugeria muitas pessoas se movendo em uma direção. Cada nível tinha seus próprios recortes e cavernas ramificadas escavadas nas paredes, e cada um mostrava sinais de seus trabalhadores se juntando ao êxodo em massa, cada vez mais para baixo.

Sua descida parou com um solavanco e um baque. Malcolm desceu e esticou as asas, olhando ao redor.

"SEM OURO, SEM GEMAS", gritou Bragas.

"Cale-se", disse Malcolm. "Não precisamos que nosso inimigo saiba que estamos chegando."

Bragas sacudiu a cauda e caminhou até a entrada de um túnel.

O próximo elevador os esperava do outro lado do cenote. Malcolm estava prestes a iniciar o longo processo de montar contrapesos e verificar as linhas quando Bragas gritou novamente.

"Eu disse para calar a boca", sibilou Malcolm. Ainda assim, ele correu para ver o que deixara Bragas animado.

Uma trilha desordenada de ferramentas parecia levar para dentro de um dos túneis em vez de para fora, embora fosse difícil dizer a diferença. A maneira como os cabos caíram, as marcas de arrastão no chão. Mais reveladoras eram as marcas borradas nas paredes e no chão, como sangue, mas de um verde-escuro. O ar cheirava levemente a mofo e podridão, revirando o estômago de Malcolm.

"Venham", disse Malcolm, gesticulando para que duas de suas pessoas o seguissem. "O resto de vocês preparem aquele elevador." Ele ajustou a luz em seu ombro e desembainhou sua espada.

Quanto mais fundo no túnel ele ia, mais forte o cheiro fétido se tornava. Os fungos brotando das paredes tornavam-se mais espessos e prevalentes, seu brilho esverdeado fraco demais para ser ignorado. Era bonito, de certa forma, mas fazia sua carne formigar e suas penas se eriçarem.

Ao final do túnel, uma caverna se abria, seu teto desconfortavelmente baixo e cravejado de estalactites. Suas contrapartes estalagmites erguiam-se do chão para encontrá-las. Fungos cobriam o teto como um tapete espesso, seu brilho projetando sombras sinistras pela sala.

"Um sinal!" Bragas sussurrou. Ele cutucou algo com sua lâmina. Uma pilha de ossos limpos de carne e meio cobertos por mofo preto.

"Essas não podem ser as nossas pessoas", murmurou Malcolm. "Não houve tempo suficiente para—" Ele parou, pensando no cadáver do pobre Lank, cogumelos irrompendo de seus olhos e boca, decompondo-se mais rápido do que deveria.

"Chefe", um dos piratas disse urgentemente, apontando.

Nas sombras do lado oposto da caverna, algo se moveu. Vários algos.

O outro pirata virou sua lanterna de cabeça para aquela área. Com um sibilo como o de uma barata, algo se inclinou para o lado, para fora da luz. Flanco malhado, escamas, crescimentos fúngicos irrompendo da carne viva, um brilho de olho em uma cabeça que era mais crânio do que pele.

"Precisamos ir", murmurou Malcolm. "Agora."

Um grito vindo à esquerda de Malcolm recuou para um túnel lateral, terminando abruptamente em um estalo úmido.

"Tempestade e mar, o que foi aquilo?" o primeiro pirata perguntou.

Um rugido respondeu, como o de um dinossauro, mas errado, úmido, da maneira que um marinheiro respirava quando acabara de ser pescado na bebida. Como um só, os piratas apontaram suas lanternas em direção ao som, seus batimentos cardíacos em staccato altos para os sentidos de sereia de Malcolm.

Um horror emergiu da passagem ao lado deles. O cadáver vivo de um raptor, metade de seu focinho apodrecido, o resto eriçado com dentes e tentáculos fúngicos que ondulavam como anêmonas. Mais revoltante do que Lank fora, porque pelo menos ele estava morto; nada tão decomposto deveria estar espreitando por aí. Movia-se rigidamente, desajeitadamente, garras quebradas alternadamente batendo e raspando no chão de pedra. Guelras semelhantes a cogumelos agitavam-se em seu pescoço, sibilando nuvens suaves e pálidas de poeira.

Arte de: Dibujante Nocturno

Não poeira. Esporos.

"Cubram as bocas!" gritou Malcolm, tateando pelo lenço em seu pescoço. "De volta ao elevador!"

O raptor saltou sobre a pirata mais próxima, que o afastou com seu cutelo. Sua lanterna balançando descontroladamente iluminou mais das feras saindo furtivamente do túnel, fios fúngicos presos aos seus membros parecendo se mover como se puxados por algum marionetista invisível. Suas cabeças giraram em uníssono sinistro para encarar Malcolm.

Qualquer coragem que ele pudesse ter fingido sentir murchou sob seus olhares mortos. Malcolm agarrou Bragas pelo colarinho de seu colete e correu.

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Vito

Um mosaico lascado adornava a parede, retratando uma forma com asas de morcego pairando sobre servos prostrados. Aclazotz. Mais um sinal de que a peregrinação de Vito prosseguia de acordo com a vontade divina.

Bartolomé estudou a imagem a uma distância discreta, iluminado pelo candelabro encantado preso ao seu cinto. Vito não nutria ilusões sobre o diretor da Companhia da Baía da Rainha ou suas lealdades. Bartolomé sem dúvida esperava encontrar riquezas em suas viagens para enviar de volta à Rainha Miralda e seus bajuladores. Eles eram dedicados demais a Santa Elenda e às velhas escrituras — e à sua própria ganância — para abraçar as verdades reprimidas de Aclazotz.

Depois, havia a cartomante, Amalia Benavides Aguirre. Ela parecia estar mapeando estudosamente o progresso deles com sua magia, mas às vezes ele a pegava caindo em silêncios, olhando para o nada, seus lábios se movendo como se estivesse falando. Estaria ela, também, ouvindo Aclazotz chamando-a?

Não. Vito fora escolhido para esta tarefa, e somente ele servia como o instrumento do divino. Ele provaria ser digno trazendo Aclazotz para Alta Torrezon, encerrando os cansativos debates teológicos que assolavam seu povo. Eles abraçariam sua força vampírica e rejeitariam a humildade e a contenção santimoniosas pregadas por Santa Elenda. Nunca mais Torrezon seria acorrentada, física ou espiritualmente.

Ele acariciou a capa do diário do Venerável Tarrian. Aqui, pelo menos, havia um espírito afim. Se o que o diário dizia fosse verdade, não era de admirar que a igreja não quisesse que ninguém soubesse disso.

"Hierofante", disse Clavileño, interrompendo seu devaneio. "Encontramos outra porta."

Como a primeira, esta porta também era precedida por um altar e sulcos semelhantes no chão. Mais uma vez, Aclazotz pedia um sacrifício. Vito sentiu-se honrado demais em oferecê-lo.

Desta vez, ele não chamou Amalia para ajudá-lo. Ela era suave, como tantos eram entre a nobreza. A guerra penetrara algumas de suas camadas de panos quentes, mas não todas.

Clavileño e outro soldado seguraram o servo enquanto Vito cortava sua garganta, o sangue jorrando pelo altar de obsidiana e em direção à porta. A magia sombria e brilhante abriu o portal, que pesadamente se abriu, raspando sulcos no chão. Vito limpou sua faca enquanto olhava para dentro, retesando-se em surpresa.

Onde antes encontrara túneis estreitos que levavam mais fundo na terra, agora, em vez disso, Vito encarava um imenso deserto subterrâneo, uma luz sobrenatural filtrando-se por túneis no teto. Pilares de pedra bruta e sumidouros como redemoinhos rompiam a superfície lisa do oceano de areia. Um monumento desmoronado para algo que não era Aclazotz fora derrubado e parcialmente engolido pela borda distante da caverna, como se até a terra desprezasse sua blasfêmia. Enormes passagens do outro lado do mar de areia, perfuradas suavemente como poços de minas, levavam para cima e para a direita.

Arte de: Josu Solano

"Envie um batedor", disse Vito a Clavileño. "Encontre o túnel com sinais de Aclazotz." O diário não mencionara um lugar como este, mas Tarrian estivera fora por tanto tempo. A mudança era inevitável.

Clavileño passou as ordens a um batedor, que se aproximou da borda da areia, lança na mão. Ele deu meia dúzia de passos, usando sua arma para equilibrar-se. Sem aviso, rápido demais para emitir um som, ele desapareceu. Uma depressão na superfície marcou onde ele estivera, mas nenhum outro sinal restou.

"Isso é areia movediça?" perguntou um dos soldados. "Já ouvi falar disso."

"Não deveria ser tão rápida", respondeu Bartolomé. "Como podemos atravessar tanto disso?"

Vito não se deixaria dissuadir. "Clavileño", disse ele. "Verifique de cima. Encontre lugares estáveis para atravessar este mar traiçoeiro." Ele não considerou o que poderia acontecer se nenhum fosse encontrado. Eles seriam encontrados. Ele tinha fé.

As pernas de Clavileño dissolveram-se em fumaça enquanto ele subia no ar. Ele voou de um lado para o outro pelo deserto, mergulhando para testar diferentes áreas com sua lança, marcando solo sólido desenhando um grande X em cada ponto. Quando ele retornou ao lado de Vito, soldados traziam tábuas de madeira das salas por onde haviam passado, portas e restos de móveis e qualquer outra coisa longa e larga o suficiente para se ficar de pé. Eles formaram uma ponte improvisada até o primeiro lugar marcado por Clavileño, que o considerou robusto o suficiente para suportar várias pessoas.

Vito liderou o caminho, carregando a lança do Venerável Tarrian como um estandarte. Atrás dele, passos cuidadosos e o relincho inquieto dos cavalos seguiam. Eles tinham madeira suficiente para alcançar o primeiro solo firme, mas os soldados no final da coluna tinham que trazer a madeira com eles, movendo-a para a frente da linha para ser assentada. O progresso era tedioso, e a areia sugava as bordas de seu caminho instável, agarrando-se às botas e tingindo o ar com o gosto e o cheiro de sal.

Algo se moveu por perto. Vito olhou feio, sem certeza do que estava vendo.

Cinco formas pálidas deslizaram pela areia em um movimento estranho e rastejante. Pernas longas e finas, corpos insectoides estreitos e segmentados, braços dobrados junto ao peito. Como um cruzamento entre um louva-a-deus e uma aranha.

"Devemos—" começou Clavileño.

Mais rápido que o pensamento, dois dos louva-a-deus-aranhas deslizaram até a coluna de peregrinos. Seus braços dispararam, agarrando um carregador e um prisioneiro, arrastando-os enquanto gritavam e se debatiam. Com movimentos rápidos e eficientes, as criaturas usaram antebraços afiados como navalhas para desmembrar suas presas, as mandíbulas empurrando os pedaços para bocas denteadas.

O caos irrompeu. Os cavalos empinaram e tentaram fugir. Humanos se encolheram juntos enquanto vampiros se moviam para proteger a si mesmos e a seus servos.

"Expurguem essas abominações!" gritou Vito. "Pelo sangue e pela glória!"

Clavileño repetiu o grito de guerra enquanto brandia sua lança, lançando-se no ar, deixando um rastro de névoa negra onde suas pernas estiveram. Vários de seus soldados seguiram o exemplo e atacaram o inimigo mais próximo como uma unidade, dois soldados flanqueando enquanto um voava acima para golpear por trás. Vito admirou sua eficiência brutal enquanto observava o resto dos combatentes.

Amalia murmurou um feitiço que Vito não reconheceu, erguendo sua espada defensivamente contra as criaturas. Uma delas congelou, aparentemente detida por sua magia. Bartolomé desenrolou um chicote e desferiu um golpe, envolvendo-o no pescoço do monstro. O encantamento do chicote transformou a extremidade em uma lâmina curva cruel, que decapitou perfeitamente o louva-a-deus-aranha com um movimento de pulso.

Vito agarrou a lança de Tarrian como um estandarte enquanto seu olhar voltava para os vampiros voadores, que rasgavam feridas abertas nos louva-a-deus-aranhas com lâmina e lança. Logo todos os quatro foram derrotados, afundando na areia, e nenhum outro parecia estar se aproximando. A vitória era deles.

"Quantos perdemos?" Vito perguntou a Bartolomé.

"Difícil de contar aqui", respondeu Bartolomé. "Talvez seja melhor fazer isso quando chegarmos ao outro lado."

Vito acenou em concordância. "Continuem se movendo", disse ele. Seu povo obedeceu, e até alguns dos humanos correram para ajudar aqueles que tremiam de medo ou haviam passado para um reino interior que os deixava com o olhar vazio.

Eventualmente, chegaram ao final da caverna, onde um caminho sutilmente marcado com asas de morcego esculpidas os atraiu adiante. Bartolomé organizou os carregadores e prisioneiros, enquanto Clavileño formou seus soldados em fileiras. Eles relataram que, além dos dois levados pelos monstros, um carregador, um soldado, dois prisioneiros e um cavalo haviam caído na areia.

"Honramos seu sacrifício", disse Vito solenemente, observando seu povo. "O derramamento de sangue é inevitável para garantir que a glória de Aclazotz seja restaurada. Não hesitem em suas convicções, e sua recompensa será imensurável."

Ele passou por Bartolomé ao entrar no novo túnel e, por um momento, a expressão do diretor mudou de uma neutralidade cuidadosa para algo menos otimista. Não importa. Se Bartolomé tentasse atrapalhar a missão, ele seria eliminado.

Aclazotz se ergueria, e os inimigos de Torrezon cairiam.

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Quint

Explorar novos lugares nunca ficaria velho, Quint tinha certeza.

Diante dele estendia-se uma caverna de muitos quilômetros de largura, preenchida de ponta a ponta com edifícios de pedra e ruas estreitas. Uma cidade, Quint maravilhou-se, construída dentro desta cavidade profunda. Ele sorriu, lembrando-se de uma cidade diferente abaixo da terra. Pelo menos ele não correra o risco de cair para a morte ao encontrar esta.

"Ó peregrino", sussurrou Quint. "Que andarilho te construiu?"

A cidade fora construída com blocos de pedra cobertos por um fungo luminescente, suas superfícies esburacadas como um recife de coral. O brilho azul e verde dos estranhos crescimentos era sinistramente regular, quase matemático, como alguns dos complexos círculos de magia ritual que Quint estudara em Sapientia. Mais interessantes eram as linhas roxo-rosadas gravadas na pirâmide central da cidade, aparentemente do mesmo pigmento que encontraram repetidamente desde aquela primeira sala, já há tanto tempo.

"O que você acha?" Wayta perguntou-lhe, apontando para a cidade com o queixo.

"É incrível", respondeu Quint. "Faz-me lembrar de Zantafar." Ele gostaria que Asterion pudesse ver este lugar. Seu antigo mentor teria ficado emocionado.

"Não teste os ossos com a língua aqui", aconselhou Wayta. "Não gosto da aparência desse mofo."

Quint estava inclinado a concordar.

Eles continuaram nas profundezas da cidade, Inti e Caparocti enviando guerreiros para procurar por quaisquer armas ou armaduras interessantes, enquanto Huatli e Quint continuavam a examinar quaisquer glifos e pinturas que encontrassem.

Havia mais corpos aqui também, mas, ao contrário de outras salas, nenhum parecia ter recebido ritos funerários. Em vez disso, esqueletos petrificados jaziam onde haviam caído, alguns com os braços estendidos, outros encolhidos com os joelhos no peito, todos eles despojados até o osso. Piores eram os engolidos pelos crescimentos fúngicos, cogumelos brotando de seus orifícios como buquês macabros.

Um fraco brilho rosado à distância atraiu a atenção de Quint. Ele piscou e o brilho desapareceu, e por um momento pensou ter imaginado. Então aconteceu de novo. Ele o rastreou pacientemente pelas ruas, vagamente consciente de que deixara todos, exceto Wayta, para trás.

No centro de uma praça, em frente a uma fonte seca, Quint finalmente encontrou uma pilha de panos e contas, surpreendentemente bem preservada. Ele examinou o tecido, preocupado que ele se desfizesse sob seu toque. Em vez disso, a magia emanava das gemas e fios feitos daquele onipresente mineral roxo-rosado, uma magia ao mesmo tempo familiar e distinta.

Ele espalhou o pano cuidadosamente no chão, alisando-o com sua tromba e colocando as contas ao lado dele. Múltiplos fios de contas conectadas e trabalhos de nós, na verdade. O pano fora tecido em tons de roxo, verde, azul e um vermelho-sangue profundo.

"Isso é um poncho?" Wayta perguntou.

"Você saberia melhor do que eu", respondeu Quint. "Vou tentar um feitiço que pode responder a todas as nossas perguntas."

Ele ergueu as mãos e começou a traçar os sigilos de "O Despertar", suas magias arqueomânticas familiares pelo treinamento e uso repetido. O feitiço atingiu seu auge, e o poncho brilhou com uma chama sem calor enquanto uma leve náusea revirava seu estômago. Então, de repente, a cor da chama mudou, brilhando no roxo-rosado das gemas e dos fios tingidos.

O poncho ergueu-se, pairando no ar. Um brilho turquesa de dentro coalesceu na forma de um velho vestindo a vestimenta, com o cabelo preso no topo da cabeça. Ele olhou de soslaio para Quint e Wayta.

"Quem são vocês?" perguntou a figura fantasmagórica.

"Quintorius Kand", respondeu Quint. "E você quem é?"

"Eu sou chamado de …" O fantasma pausou, confuso. "Eu não sei."

"Ele parece o meu abuelo", murmurou Wayta.

O rosto do fantasma iluminou-se com um sorriso. "Abuelo! Sim! Eu conheço esse nome. Alguém me chamou assim." Seu sorriso desapareceu. "Mas onde está …?" Ele olhou ao redor, como se visse os arredores pela primeira vez. Sua boca abriu e fechou, então seu olhar voltou-se para o de Quint. "Devo avisar Oteclan sobre a infestação micóide. É tarde demais. A porta deve ser fechada!"

Sem mais uma palavra, o fantasma saiu correndo pela cidade infestada de fungos.

Oteclan? Micóide? Porta? Quint reconheceu uma daquelas palavras, e era uma importante dado o seu destino. Ele não hesitou; apesar de seu estômago revolto, lançou-se em uma corrida para ver onde o fantasma o levaria.

Arte de: Eelis Kyttanen

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Malcolm

Malcolm já havia lutado contra dinossauros antes. Estes eram diferentes.

Sua espada golpeou um peito coberto de cogumelos, o aço deslizando pela pele com uma facilidade incomum. A criatura não reagiu, não recuou, não gritou de dor. Ela simplesmente tentou mordê-lo novamente. Ele girou para longe, correndo pela encosta de uma agulha rochosa, saltando entre várias outras antes de lançar-se em direção a um espaço livre no chão.

Os outros membros da coalizão não estavam se saindo melhor. Esquivavam-se entre as estalagmites, evitando garras e dentes. Se a batalha durasse muito mais, eles cansariam e ficariam descuidados, e então—

"GRANDE ESTRONDO?" perguntou Bragas, posicionando-se de modo que ele e Malcolm ficassem de costas um para o outro. Ele abandonara seus blasters por uma faca em cada mão e uma agarrada pela cauda.

"Aqui não", disse Malcolm, olhando para as pontas afiadas das estalactites. Ele não queria arriscar ser empalado. Havia algo mais que ele podia fazer, embora não tivesse certeza se funcionaria.

Malcolm começou a cantar.

Sua voz infundida de magia ecoou sinistramente na caverna, como uma canção de ninar há muito esquecida ou uma melodia lembrada pela metade de um sonho agradável. Todos que a ouviram, pirata e dinossauro, pararam para escutar. Até Bragas deixou suas facas caírem frouxamente ao seu lado.

Malcolm metodicamente abriu caminho através do inimigo enquanto cantava, esperando que eles não fossem capazes de atacar se estivessem em pedaços. Logo, os dinossauros foram reduzidos a pilhas trêmulas de partes. Ele parou de cantar, caminhou até um canto da caverna e vomitou suas duas últimas refeições.

"Afunde-me, isso foi vil", murmurou ele. Mas pelo menos estavam vivos.

Os outros piratas emergiram de seus devaneios, ainda atordoados como se estivessem bêbados. Bragas foi o primeiro a se recuperar totalmente, tirando o chapéu para coçar a cabeça, depois recolocando-o e caminhando para o lado de Malcolm.

"Sem gemas, sem ouro", disse Bragas melancolicamente.

"E sem pessoas", disse Malcolm. Ele examinou seus aliados em busca de ferimentos, estremecendo com as marcas de garras e mordidas visíveis em braços nus ou através de roupas rasgadas. Bragas parecia bem, e ele também tivera sorte.

"Vamos voltar para os outros", disse Malcolm. "A união faz a força. Depois vamos nos limpar e nos enfaixar antes de seguirmos adiante."

Ele liderou o caminho de volta pelo túnel iluminado por fungos, até o cenote e os piratas terminando os preparativos para continuar descendo. Nada estava errado ali, para seu alívio.

"Pois bem", começou ele, voltando-se para seus companheiros feridos. Ele engoliu o que estava prestes a dizer, franzindo a testa.

Suas feridas sangrentas … não haviam sumido, mas mudado. Marcas pretas como crostas haviam substituído os cortes e sulcos, embora nenhum deles tivesse lançado qualquer magia de cura ou usado poções ou unguentos. Mais alarmante, a escuridão parecia estar se espalhando em padrões rendados, como círculos conectados por veias pretas luminescentes.

"Vocês estão bem?" Malcolm perguntou.

"Sinto-me bem", disseram cada um deles, não exatamente em uníssono.

Os olhos de Malcolm se estreitaram. Ele não gostava nada daquilo. Poderia deixá-los aqui, ou enviá-los de volta para cima, mas ele ainda tinha que resolver o mistério de para onde os residentes de Downtown haviam ido. Poderia usar as mãos extras se encontrassem mais daqueles dinossauros, e talvez eles estivessem realmente bem, como diziam.

Talvez estar tão longe debaixo da terra estivesse começando a afetá-lo. Quando isso terminasse, ele teria um descanso longo e agradável em uma praia ensolarada em algum lugar. Vance lhe devia isso, assumindo que ele tivesse sucesso.

Malcolm caminhou até o próximo elevador, seus passos desconfortavelmente pesados para uma criatura do ar. As profundezas do cenote o chamavam, frias e sem consolo.

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Amalia

Este era o terceiro marcador de pedra que encontravam desde que deixaram o deserto para trás. Mais alto que Amalia, coberto de glifos e encimado por uma escultura como as mandíbulas rosnantes de algum felino gigante. Seria um monumento? Uma proclamação?

Ou seria um aviso?

Um som sinistro aumentava e diminuía ao redor deles, ecoando nas paredes e depois diminuindo para um sussurro. Lembrava Amalia de óleo bento sendo derramado em uma fonte batismal, mas em uma escala insondavelmente grande. Seu sangue fresco preenchia mais de seu mapa destes espaços subterrâneos. Era difícil mapear a topografia adequadamente, dado quantos níveis diferentes existiam, nenhum uniforme. Ela olhou de relance para algumas das novas linhas e cores; o que era aquilo lá na frente? Fogo?

Amalia lembrou-se de suas visões e estremeceu.

"Você não está com frio, está?" perguntou Bartolomé. Ela balançou a cabeça.

Se eu estivesse, pensou Amalia, não estaria por muito tempo.

Precisamente no lugar que seu mapa indicava, encontraram a fonte do ruído misterioso. Em uma enorme caverna entrecortada por pontes naturais em arco, uma queda estrondosa de lava caía em cascata pela lateral de uma parede, brilhante o suficiente para iluminar todo o espaço. Em alguns dos afloramentos rochosos, edifícios de pedra erguiam-se, enquanto outros haviam sido esculpidos diretamente em grandes estalactites. Como alguém poderia alcançar aquilo sem o poder de voar, ela não conseguia imaginar. Como todas as áreas que encontraram, estas pareciam desertas, embora em melhor estado de conservação.

Talvez não tão desertas. Alguém emergiu de um edifício próximo, perseguido por meia dúzia de figuras menores. Ele correu por uma das pontes em direção aos vampiros, empunhando estranhas espadas brilhantes que deixavam rastros de fagulhas de luz. Suas roupas eram incomuns, uma túnica vermelha e branca com uma meia-capa, e o que pareciam ser galhos cobrindo a parte superior de seu peito.

"Ei, com licença!" gritou ele para a Legião, seu sotaque desconhecido. "Ajuda seria muito apreciada!" Seus perseguidores surgiram: criaturas como goblins, mas sem pelos e pálidos. Um deles lançou uma lança contra o homem, que girou graciosamente e cortou o pedaço de osso afiado em três pedaços.

Amalia deu um passo à frente, com a mão caindo sobre sua própria arma. Bartolomé apertou seu ombro, segurando-a. Vito ignorou os dois com um olhar imperioso, continuando pelo caminho original.

Certamente ele não pretendia abandonar essa pessoa à sua sorte?

Mesmo que ele pretendesse, ela não o faria. Amalia pegou sua pena encantada e desenrolou o mapa das cavernas, focando em sua localização atual. Sua ponta traçou a linha da ponte que o homem atravessava. Se não fosse cuidadosa, este feitiço poderia matá-lo. Ela murmurou o encantamento e canalizou sua vontade para o seu instrumento, a ponta brilhando como uma noite estrelada.

Com um delicado arranhão de sua pena, Amalia mudou o mapa e mudou o mundo.

Arte de: Alix Branwyn

A ponte de pedra desapareceu parcialmente. Dois dos goblins pálidos caíram gritando pelo vão súbito sob seus pés. Um terceiro tentou e falhou em parar de correr e seguiu-os pela borda.

Amalia errara o cálculo apenas o suficiente para que o homem quase caísse também. Ele aterrissou com a parte superior do corpo quase toda no afloramento recém-criado e, com esforço, puxou-se pelo resto do caminho.

"Muito bem", murmurou Bartolomé, surpreendendo Amalia. Ela sorriu para ele, aliviada por ter ajudado.

Até ver a expressão irritada de Vito.

Enquanto tentava descobrir como se desculpar, o homem estranho aproximou-se trotando, respirando pesadamente. Agora que ele estava mais perto, ela notou que sua pele era bronzeada como as pessoas do Império do Sol. Ao contrário delas, no entanto, suas orelhas terminavam em pontas delicadas.

"Estou em dívida com você", disse ele, curvando-se educadamente.

"E quem é você?" Vito perguntou friamente.

"Sou Kellan", disse o homem. "Não tenho certeza do que fiz para provocar aqueles … seja lá o que fossem, mas estou imensamente feliz que vocês tenham aparecido." Suas lâminas desapareceram, deixando-o segurando punhos que pareciam galhos elaboradamente tecidos. Ele os prendeu em seu cinto.

"De onde você veio?" Bartolomé perguntou.

"Eldraine", respondeu Kellan. "Eu estava—"

"Não importa", interrompeu Vito, olhando feio para Bartolomé. "Ele não é de nossa conta."

"Ele morrerá se o deixarmos aqui", protestou Bartolomé.

"Estamos em uma busca sagrada e não podemos permitir distrações."

Amalia limpou a garganta. "Eu assumirei a responsabilidade por ele. Perdemos muitos — talvez ele possa ajudar."

Vito e Bartolomé olharam para ela em silêncio, até que finalmente Vito mostrou os dentes.

"Relate qualquer coisa suspeita para mim imediatamente", disparou Vito. Ele voltou para o seu lugar à frente da expedição, sua lança erguida como um farol.

Bartolomé inclinou-se perto do ouvido de Amalia. "Não o desafie abertamente de novo", sussurrou ele.

Amalia assentiu, sem ousar imaginar as consequências de ser percebida como inimiga de Vito.

"Obrigado", disse Kellan para Amalia. "Eu acho."

Amalia sorriu desanimada e vasculhou sua mochila em busca de bandagens. Ela podia sentir o cheiro do sangue dele — estranho e potente, como vinho temperado. "Você consegue enfaixar suas próprias feridas", perguntou ela, "ou precisa de assistência?"

"Eu consigo fazer", respondeu ele. "Seria rude perguntar quem são todos vocês?"

"Explicarei enquanto nos movemos", disse Amalia. E, no entanto, essa promessa teve gosto de sangue estagnado em sua boca, porque ela não tinha certeza do que poderia contar a esse estranho. Não sem colocar ambos em perigo no processo.

Eles entraram em outro túnel, a luz e o rugido da lava desaparecendo atrás deles, a escuridão sendo sua própria e terrível promessa.

Episódio 3

Wayta

Se alguém tivesse dito a Wayta alguns dias antes que ela e um arqueólogo loxodonte estariam perseguindo um fantasma por ruínas subterrâneas, ela lhes diria para procurar um curandeiro. Além disso, ela teria perguntado o que era um loxodonte.

O fantasma — Abuelo, como ele se chamava — flutuava em vez de correr, seu poncho agitando-se em uma brisa invisível enquanto ele dardjava entre os edifícios. Quint corria atrás dele, com a tromba enrolada para não atrapalhar, e Wayta o seguia, esquadrinhando os arredores em busca de perigos potenciais.

Infelizmente, estar na retaguarda significava que ela era a última a ver o que os esperava ao dobrar uma esquina, ao lado de um rio subterrâneo.

"Titã!" gritou Abuelo, e então desapareceu em um redemoinho de energia rosa-arroxeada. Wayta derrapou até parar, quase colidindo com as costas de Quint.

À frente, uma figura colossal surgiu, com facilmente o dobro de sua altura. Ela poderia tê-la confundido com parte do fungo que crescia nas paredes, até que ela se moveu. Sua cabeça era um cogumelo enorme e em camadas, como os que cresciam nas árvores da selva, enquanto seus ombros e peito eram aglomerados de cogumelos menores de topo redondo. Espinhos quitinosos e denteados projetavam-se das costas de suas mãos maciças e subiam por seus antebraços.

Arte de: Domenico Cava

Um zumbido baixo e discordante, mais visto do que ouvido, arrepiou os pelos nos braços de Wayta. Antes que ela ou Quint pudessem fazer mais do que encarar, a criatura avançou contra eles.

"Afaste-se", disse Wayta a Quint. Ela brandiu sua espada para atrair a atenção da criatura, circulando em direção ao rio caudaloso e para longe de Quint. _Tilonalli, fustigue meus inimigos_, ela orou.

O titã agarrou metade de uma parede em ruínas e a arremessou em Wayta. Ela dançou para o lado, o enorme bloco de pedra passando raspando e aterrissando com um estrondo atrás dela. O impacto lançou pedregulhos e estilhaços voando, cortando sua pele nua e chocalhando em sua armadura.

Com um rugido, o titã trovejou em sua direção e se ergueu para golpear. Wayta se esquivou, mergulhando sob um golpe de um braço grande como um tronco de árvore. Ela rolou para uma posição agachada e golpeou a parte de trás da perna dele, depois saltou de volta para cima. Um humano teria ficado incapacitado; o titã não foi afetado. Ele se virou e golpeou novamente, e novamente Wayta escorregou entre suas pernas, dardjando em direção às suas costas. Ela golpeou com sua espada, arrancando um pedaço de material fibroso sem nenhum efeito. Ela poderia muito bem estar lutando contra um ahuehuete.

A ponta de uma lança atravessou o peito do titã. Huatli, Inti, Caparocti e os outros guerreiros haviam chegado enquanto Wayta lutava e, como um só, eles gritaram e atacaram. Eles cercaram a criatura, provocaram-na, esfaquearam-na, esculpiram pedaços até que cogumelos e casca quitinosa cobrissem o chão. Os dinossauros de carga foram mantidos afastados para sua própria segurança, mas Pantlaza saltou e golpeou com as garras afiadas de seus pés, deixando longas marcas de arranhões em suas costas.

Quanto mais lutavam, mais os músculos de Wayta cantavam de fadiga, seu fôlego queimando irregularmente em seus pulmões. Nenhum de seus golpes retardava o titã, e ele não dava sinais de sentir dor. Ele afastava suas lanças, agarrava suas espadas em suas mãos maciças e as lançava nas ruínas. Suas feridas vertiam um fluido negro que formava fios viscosos, tecendo-se até se solidificarem e explodirem em novos crescimentos fúngicos. Ele arrancou a lança de seu próprio peito e a brandiu contra um dos guerreiros. A arma errou, mas o braço espinhoso do titã atingiu-a como uma cauda de estegossauro e a lançou para trás contra uma parede. Ela desmoronou e ficou imóvel. Mais escuridão derramou da boca da criatura, e ela cuspiu em um guerreiro próximo, que gritou enquanto a substância alcatroada corroía sua armadura. Wayta correu para o lado dele para ajudar, mas a visão do osso ensanguentado através dos restos da carne do homem disse-lhe que era tarde demais.

Wayta oraria pelos espíritos dos mortos mais tarde. Por enquanto, ela lutava.

"Mais vindo aí!" gritou Quint, apontando para as profundezas da cidade.

Uma dúzia de novas criaturas os cercou, cruzando a ponte em ruínas sobre o rio próximo, rastejando pelas estradas desertas e escalando paredes semi-caídas. Versões menores do titã, formadas por diferentes formas e tamanhos de cogumelos. Alguns estavam armados com armas rudimentares, provavelmente retiradas dos muitos cadáveres neste lugar vazio.

Os guerreiros do Império do Sol estavam agora em menor número e flanqueados. Uma das criaturas desarmadas arrancou um cogumelo de seu próprio corpo e o lançou aos pés de outro guerreiro. O cogumelo brilhou em um verde fantasmagórico, explodindo em um mofo negro espesso que envolveu as botas do homem e subiu por suas pernas. Ele tropeçou, e o mofo jorrou em sua boca.

O coração de Wayta se apertou com a súbita certeza de que ela cairia naquele lugar, para nunca mais ver a luz do Sol Triplo novamente.

Então, a maré virou.

Uma onda chicoteou do rio subterrâneo, lançando duas das criaturas para longe. Um momento depois, meia dúzia de Arautos do Rio saltou para a margem, juntando-se à batalha com lanças e lâminas de jade e magia.

"Esta batalha está perdida", disse um dos Arautos. "Venham conosco para a segurança."

Wayta hesitou. Depois do que aconteceu em Orazca antes da guerra, as relações entre o Império do Sol e os Arautos do Rio haviam sido tensas, até hostis. Poderiam confiar nessas pessoas?

A confiança tinha que começar em algum lugar. Que fosse aqui.

Wayta procurou por Quint, encontrando-o tecendo um feitiço atrás de uma parede próxima. Uma arma antiga ergueu-se do chão como se empunhada por um espírito, girando pelo ar e cravando-se no pescoço de uma criatura-cogumelo.

"Quint, vamos!" gritou Wayta. Ele obedeceu imediatamente, e ela abriu um caminho para eles até o rio.

Um dos Arautos os notou e agarrou sua mão livre. Eles murmuraram um encantamento, girando o dedo ao redor do rosto dela. De repente, o ar parecia diferente, denso de umidade. Um brilho de arco-íris cobriu Wayta como se ela tivesse sido envolta em uma bolha moldada à sua forma, e ela cutucou seu próprio braço, não sentindo nada incomum.

"Viagem rápida, irmãzinha", disse o tritão, e a empurrou no rio.

Arte de: David Astruga

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Malcolm

O elevador descia cada vez mais fundo no cenote, os cabos rangendo e os suportes de madeira balançando. Malcolm observava seus companheiros feridos pelo canto do olho, um nó frio de pavor no estômago. Calça parecia bem, assim como aqueles que não haviam explorado a caverna com aqueles dinossauros horríveis, mas os outros… Eles não estavam normais.

As marcas pretas em suas feridas haviam se espalhado, uma delicada filigrana de círculos e linhas ao longo de qualquer pele exposta. Pior, elas haviam começado a brilhar em um tom doentio de verde. Os piratas não reclamavam de dor ou desconforto, quando normalmente estariam resmungando e pedindo para descansar. Em vez disso, eles alternavam entre um distanciamento nebuloso e o exame de seus arredores com um interesse estranhamente aguçado.

À luz de sua lanterna de ombro, as paredes do cenote brilhavam úmidas, cobertas por crescimentos fúngicos escorregadios que se espalhavam a um ritmo alarmante. As cavernas nunca foram inteiramente secas, mas isso era excessivo. À medida que o cheiro de podridão e mofo se fortalecia, Malcolm tirou um pano de sua mochila e o amarrou ao redor do rosto, cobrindo o nariz e a boca. Calça o imitou, e Malcolm quase riu de como eles deviam parecer cômicos. Como ladrões ou bandidos comuns em vez de piratas.

Não que ele tivesse se envolvido em muita pirataria ultimamente. A Coalizão de Bronze o mantinha ocupado demais.

O elevador deu um solavanco ao atingir algo. Uma das piratas inclinou-se sobre a borda do guarda-corpo para verificar.

"Parece um cogumelo grande", disse ela.

"Você consegue cortá-lo?" Malcolm perguntou.

Ela assentiu, desembainhando sua espada. Após golpeá-lo algumas vezes, o elevador se moveu. A pirata espirrou e tropeçou para trás.

"Nojento", disse ela. "Ele estourou como um saco de farinha." Ela tossiu e esfregou os olhos enquanto outro pirata lhe dava tapinhas nas costas.

Onde ela estivera, uma nuvem de esporos verdes cintilantes subiu no ar parado, adensando-se como fumaça. Malcolm recuou, com os olhos estreitados. Ele olhou para os piratas feridos, parados impassivelmente no centro do elevador, suas feridas brilhando com a mesma cor. Haveria alguma conexão?

Como em resposta, aqueles piratas avançaram contra dois dos não feridos e os empurraram para dentro da nuvem de esporos brilhantes. Gritos de surpresa transformaram-se em tosses úmidas, depois em engasgos e ânsias de vômito, com fluido negro salpicando o chão.

Arte de: Izzy

Tão rápido quanto havia começado, o súbito ataque de doença parou. Os piratas afetados ergueram-se aos solavancos e encararam os outros. Seus olhos estavam vítreos e verdes, e veias negras estendiam-se por seus rostos. O ar sibilava de suas bocas como bexigas de borracha vazando. Malcolm desembainhou sua espada e recuou, ajustando o lenço que ainda cobria seu nariz e boca. Os piratas sobreviventes tiveram apenas o tempo de sacar suas próprias armas antes que seus aliados infectados atacassem. Os limites apertados do espaço tornavam a esquiva quase impossível; cada corte ou estocada poderia atingir um amigo em vez de um inimigo.

"GRANDE ESTRONDO?" Calça perguntou.

"Não! Você mataria todos nós", gritou Malcolm.

Ele saltou sobre o guarda-corpo, a falta de correntes de ar forçando-o a confiar em sua magia para voar. Ele deu a volta e agarrou-se às cordas do elevador, que o puxaram para cima e para longe. Abaixo dele, os piratas lutavam desesperadamente, mas assim como os dinossauros na caverna, os infectados pareciam imunes à dor ou ferimentos.

Calça juntou-se a Malcolm nas cordas enquanto o elevador continuava a descer. "ESCAPE?" Calça gritou.

Ao som de sua voz, os infectados olharam para cima em uníssono com seus vis olhos verdes.

"Corte as cordas", disse Malcolm, com o sangue frio. "Depressa."

Calça agarrou a corda com os dois pés e a cauda. Ele cortou um cabo com sua faca, enquanto Malcolm serrava o outro. As cordas eram grossas, destinadas a suportar um peso substancial, e estavam menos da metade cortadas quando os infectados começaram a escalar a lateral do elevador.

Embora os músculos de Malcolm queimassem, ele cerrava mais rápido. O cabo em suas mãos se desfiou e afinou, então se partiu com uma força que o soltou. O elevador deu um solavanco, e os piratas infectados lá dentro tropeçaram. Calça segurou-se firmemente enquanto seu cabo se rompia e, com um silêncio terrível, o elevador caiu na escuridão.

Fechando os olhos, Malcolm tentou acalmar o bater de beija-flor de seu coração. "Vamos", disse ele finalmente. "Não podemos ficar aqui."

Ele alternava entre voar para cima e escalar, com Calça acompanhando-o nas cordas. Ele evitava diligentemente uma gavinha de fungo na parede próxima, estremecendo quando um cogumelo estranhamente parecido com um olho pareceu rastrear seus movimentos. Malcolm anteriormente teria assumido que era um fruto de sua imaginação.

Agora, ele se perguntava que criatura terrível poderia transformar piratas e dinossauros em fantoches sem mente — e por quê.

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Bartolomé

Por mais desagradável que uma cachoeira de rocha fundida ardente pudesse ser, múltiplas bicas e até rios dessa substância eram infinitamente piores. Se o caminho para Aclazotz continuasse através de tal terreno inóspito e mortal, Bartolomé se perguntava se, apesar das afirmações de Vito, um deus tão poderoso quanto o deles deveria ser encontrado.

As criaturas semelhantes a goblins que haviam perseguido o estranho recém-chegado, Kellan, não reapareceram. Mesmo assim, quanto mais sua peregrinação os levava para o subterrâneo, mais sinais de habitação eles descobriam: edifícios esculpidos em encostas de penhascos e estalactites, marcadores brilhantes cobertos por glifos desconhecidos, jardins de plantas pálidas e sem folhas em solo arenoso. Eles nunca encontraram nenhum habitante, mas sons de passos apressados e vislumbres de movimento sugeriam que não estavam sozinhos.

Amalia conversava com Kellan, que examinava os arredores com espanto e inquietação. Bartolomé via sua própria filha no jovem cartógrafo, ainda tão inocente apesar de sobreviver às privações da recente invasão. Para proteger essa inocência, para guardar o futuro daqueles como ela, ele faria qualquer sacrifício necessário.

Até agora, isso significava capitular às ordens de Vito. Quando a Rainha Miralda designou Bartolomé para se juntar a esta expedição, foi-lhe dito para fingir cooperação e descobrir as verdadeiras intenções e lealdades de Vito. Ele não tinha percebido o quão heréticas as ideias do hierofante haviam se tornado, o quanto ele havia se afastado da igreja. Ele também não tinha conseguido descobrir quem deu a Vito a lança e o diário do Venerável Tarrian, mas isso sugeria que a oposição à rainha, a facção que apoiava Vona de Iedo e outros chamados profetas, era maior e mais unificada do que esperavam.

E se o próprio Aclazotz se alinhasse com o Antifex? Bartolomé estremeceu ao considerar isso.

A Legião entrou em um planalto maior e mais plano, com vista para um par de quedas de lava. De um momento para o outro, o silêncio deu lugar a gritos e a um estrépito de movimento. Os soldados de Clavileño cercaram os outros protetoramente, com as armas em punho.

Duas dúzias de guerreiros os cercaram, mais altos que os vampiros, mais largos, com rostos como grandes felinos e pelagem manchada a condizer. Eles usavam elmos e armaduras elaboradamente decorados e empunhavam arcos e lâminas de obsidiana serrilhadas de aparência cruel, além de armas de haste. Presas expostas prometiam violência, e Bartolomé não estava ansioso para testar suas habilidades com as armas. Eles tinham a vantagem numérica do seu lado, a menos que se contassem os carregadores e prisioneiros da Legião.

Arte de: Marie Magny

"Vocês virão conosco", disse um dos homens-gato, brandindo uma arma de haste coberta de glifos.

"Quem são vocês?" perguntou Vito, com a voz fria de autoridade.

"Eu sou Kutzil, campeã dos Malamet", foi a resposta. "Vocês virão conosco, ou morrerão."

Bartolomé limpou a garganta. "Estamos em uma peregrinação sagrada", disse ele. "Buscamos apenas passagem segura por estas terras. Não queremos lhes fazer mal."

O olhar de Vito sugeria que ele se ressentia da intrusão de Bartolomé ou de suas mentiras.

Kutzil desviou o olhar, com a cabeça inclinada. "Sua missão não é nossa preocupação. O Soberano Okinec Ahau decidirá seus destinos."

Clavileño olhou para Vito. "Ordens?"

"Já lutamos demais", disse Bartolomé a Vito baixinho. "O moral e os suprimentos estão baixos. A diplomacia pode servir melhor à nossa causa do que fazer inimigos."

Vito voltou sua atenção para Kutzil. "Eu me encontraria com seu soberano", disse ele. "Guie-nos."

Os guerreiros Malamet mantiveram suas armas apontadas para a Legião. Com sua arma de haste, Kutzil gesticulou para que o seguissem.

Vito inclinou-se mais perto de Bartolomé. "Não me desautorize novamente", disse ele baixinho, com a voz carregada de ameaça.

Bartolomé inclinou a cabeça em sinal de reconhecimento.

Eles seguiram Kutzil através de mais pontes de pedra, penetrando em uma cidade daquele povo, os Malamet. Agora que estavam escoltados, os habitantes das casas apareceram, assim como alguns dos estranhos goblins pálidos. Bartolomé maravilhou-se com o fato de uma cultura inteira existir nessas cavernas e túneis e nunca ter viajado para a superfície e feito contato.

Talvez deslacrar as portas como fizeram levasse a algo frutífero. Ou, dado o quão desconfiadas essas pessoas eram, talvez não.

Kutzil parou a companhia. "Vejam", disse ela. "Vocês são os primeiros estrangeiros a ver Ban Koj desde o tempo dos Oltecas."

Arte de: Steven Belledin

Bartolomé recuou, levando uma mão à boca em sinal de espanto. As poucas cabanas pelas quais o grupo passara nas horas anteriores não eram nada comparadas a esta visão. Uma cidade inteira — facilmente do tamanho de Alta Torrezón — fora construída em um aglomerado de estalactites tão grandes que poderiam ser montanhas invertidas. Alguns edifícios pareciam talhados diretamente da rocha bruta, enquanto outros apresentavam paredes pintadas de branco como cerâmica. Pontes de corda e redes estendiam-se entre os edifícios, assim como cabos grossos de onde pendiam carruagens estranhas, com as rodas no topo para permitir que se movessem de um lado para o outro. Os passageiros viajavam dentro delas, saindo para se juntar a outros Malamet enquanto caminhavam pelas ruas suspensas e inquietantes.

Bartolomé escondeu seu nervosismo por trás de um exterior plácido enquanto o povo-gato dividia a Legião em dois grupos para o transporte até a cidade. Escapar deste lugar seria quase impossível se a diplomacia falhasse. Alguns dos soldados podiam voar, sendo marchantes dos céus, mas todos os outros… Seu olhar deslizou para Amalia, que estava perto de Kellan, o tremor de seus dedos perto de sua espada mostrando sua ansiedade.

Os guerreiros Malamet continuaram a guardá-los enquanto marchavam por uma ampla ponte de pedra até a maior das estalactites. Ao contrário das outras, esta não tinha edifícios esculpidos no exterior, nem mesmo janelas. Em vez disso, centenas de glifos enormes cobriam cada superfície visível, brilhando intermitentemente.

Eles passaram por uma abertura enorme no final da ponte com uma porta giratória no centro. Mais guardas armados ficaram em posição de sentido enquanto passavam, silenciosos como os predadores de emboscada que se assemelhavam. Um dos carregadores da Legião desviou-se para muito perto, e o guarda mais próximo rosnou.

O interior da estalactite estava preenchido por uma pirâmide enorme esculpida na rocha, com centenas de degraus levando a uma pequena sala em seu pico. Um sussurro estranho ecoava no espaço cavernoso, sua fonte invisível.

Felizmente, eles não foram forçados a subir a escadaria e foram conduzidos para dentro da pirâmide, para uma sala longa ladeada por pilares esculpidos, entre os quais Malamet se agachavam em esteiras tecidas. Seus elaborados toucados e colares sugeriam alguma forma de nobreza ou sacerdócio, e todos encaravam os membros da Legião enquanto passavam, alguns exibindo presas que faziam os dentes vampíricos parecerem mansos em comparação.

Sentado em um trono em um estrado elevado no final da sala, um Malamet grande e blindado brincava distraidamente com uma espada enorme e serrilhada. Este, presumivelmente, era o Soberano Okinec Ahau.

"O que nos trouxe, Kutzil?" perguntou ele.

Kutzil expôs sua garganta de forma deferente enquanto falava. "Invasores da superfície, Soberano", respondeu ela.

"Estamos apenas de passagem", disse Vito, curvando-se educadamente.

"Você falará quando for interpelado", rosnou Kutzil, apontando sua arma de haste para Vito. Com um esgar, Vito o ignorou.

O Soberano Okinec Ahau observou Vito com curiosidade. "Qual é o seu propósito em meu reino?"

"Somos peregrinos", respondeu Vito. "Estamos em uma jornada para a terra de Aclazotz, nosso deus."

"Não há deuses aqui além de mim", disse Okinec Ahau, segurando sua espada. "Poq", disse ele, olhando para um grupo de conselheiros vestidos com mantos à sua direita. Um Malamet corpulento e de pelagem fulva deu um passo à frente, com os braços cruzados atrás das costas. Eles usavam um arnês de prata simples, ricamente gravado com glifos e pictogramas. Seu cabelo caía em tranças, pesadas na ponta com pequenos medalhões de prata brilhantes.

"Poq é meu tecelão de mitos", disse Okinec Ahau, apresentando o Malamet. "Ele falará. Com nossas palavras, ele verá através das suas."

Poq assentiu. Ele ergueu os braços à frente do peito e proferiu uma palavra pequena e suave. O cheiro de chuva, raios purificadores e o calor de um dia seco de verão encheram o ar. Uma névoa verde rodopiante apareceu entre suas garras, coalescendo em formas que se construíam sobre si mesmas, revelando uma imagem nublada, mas discernível:

Um rosto rosnando, com as presas expostas e crescendo. O rosto se contorceu, ondulando, ao notar os Malamet ao seu redor. Com um guincho, ele avançou brusco, mordendo o Tecelão de Mitos Poq como uma fera avançando contra a comida.

O Tecelão de Mitos Poq baixou as mãos, dispensando a imagem. Ele olhou para Okinec Ahau, balançou a cabeça e voltou para o seu lugar entre os conselheiros reunidos.

Okinec Ahau levantou-se e dirigiu-se aos Malamet reunidos, falando acima dos soldados da Legião. "Uma invasão gera outra", disse Okinec Ahau. "Não permitiremos isso."

Os soldados da Legião mudaram para posturas defensivas. Bartolomé pousou uma mão no braço de Amalia, e eles trocaram um olhar preocupado.

O Soberano Okinec Ahau gesticulou para as figuras sentadas. "Sentencio esses invasores a serem entregues à areia. Que minha justiça seja feita."

Alguns dos vampiros desembainharam suas espadas, e Vito apontou sua lança para o soberano. Antes que pudessem atacar ou se defender, porém, os Malamet que os flanqueavam rosnaram e ergueram os braços.

Glifos brilhantes queimaram o ar, imitando as manchas na pelagem dos Malamet. A magia chicoteou e envolveu os membros da Legião como correntes, forçando-os a se ajoelhar. Vito lutou, mas sua lança foi pressionada inutilmente contra seu peito. Ele olhou para Bartolomé de forma tão venenosa que, se olhares pudessem matar, Bartolomé já estaria morto.

"Isso não é justo!" gritou Kellan da retaguarda do grupo. "Não fizemos nada!"

O Soberano Okinec Ahau expôs suas presas. "O fogo não se preocupa com a justiça. Ele simplesmente queima."

Arte de: Adame Minguez

Um por um, os guerreiros carregaram a Legião até uma grande fonte, com uma cabeça de jaguar no topo. Mas, em vez de água, areia fluía da boca esculpida, acumulando-se abaixo e escoando para um grande buraco. Vito foi o primeiro de seu grupo a chegar à estrutura, com os olhos brilhando de ira.

"Embora eu esteja cercado por inimigos", entoou Vito, "meu deus me concederá força e vingança. Que a vontade dele seja feita."

Bartolomé observou enquanto os Malamet jogavam seus camaradas na bacia de areia, alguns sucumbindo silenciosamente enquanto outros gritavam ou lutavam. Vito entrou de cabeça, com a lança ainda presa a ele pelas correntes mágicas que o mantinham atado. Clavileño seguiu-o, sibilando e expondo as presas. Amalia permaneceu imóvel e estranhamente calma enquanto afundava, primeiro suas pernas e depois seus braços desaparecendo sob a superfície. Ela murmurou algo para si mesma que ele não conseguiu ler em seus lábios, com os olhos arregalados e sem ver. Kellan, à frente dela, lutava e debatia-se contra a areia, com o pânico óbvio em seu rosto enquanto deslizava para mais perto do dreno escancarado.

Pouco antes de Amalia desaparecer, ela disse a Kellan: "Segure o fôlego."

Teria ela recebido uma visão? Bartolomé esperava que sim, porque, caso contrário, sua missão estava no fim, e a culpa era dele. Ele seguiu o exemplo dela e deixou os Malamet o erguerem em seus grandes braços de pelagem grossa, lutando contra seu próprio medo enquanto era jogado sem cerimônia na bacia da fonte. Seu único consolo enquanto as areias o reclamavam era que Vito não teria a chance de fazer mais travessuras em Torrezón. Ele apenas desejava que esse objetivo não tivesse custado um preço tão alto.

Arte de: L.A draws

#v(0.35em) #line(length: 100%, stroke: rgb(90%, 90%, 90%)) #v(0.35em)

Wayta

Wayta caiu pela escuridão fria do rio. Uma corrente impossivelmente rápida a puxava para frente, com a luz do Sol Triplo fixada em seu cinto lançando sombras selvagens ao seu redor. Ela percebeu que podia respirar, sem dúvida graças ao feitiço que o tritão lançara. Mesmo assim, ela tinha pouco controle sobre para onde ia e só podia fazer o seu melhor para não ser arremessada contra as paredes ou o leito do rio.

Às vezes, ela vislumbrava uma caverna mais ampla acima dela, ou o chão se abria abaixo como um lago ou cenote. Às vezes, flashes de verde brilhante provocavam as bordas de sua visão, ou o túnel se bifurcava e ela vislumbrava algum caminho alternativo inacessível.

Apesar de tudo, a corrente a levava em direção ao seu destino desconhecido. Finalmente, após uma eternidade, uma nova luz apareceu à distância.

Com um breve aumento na pressão, ela emergiu em águas abertas, frias e límpidas. Wayta nadou até a superfície, procurando pelos outros, encontrando alguns deles já nadando em direção à margem mais próxima, incluindo a exploradora que a empurrara. Guardas tritões pairavam por perto, com suas nadadeiras ondulando enquanto boiavam no lugar, observando seu progresso, mas sem se mover para ajudá-la ou impedi-la. Ela logo se jogou na terra, feliz por ver Quint ao seu lado já sentado e observando os arredores com um assombro indisfarçável.

Uma cidade de pedra maciça erguia-se de um oceano subterrâneo — de água doce, não salgada — e estendia-se até as profundezas ainda mais longe, em degraus como templos ao Sol Triplo. Lâmpadas brilhantes queimavam acima de edifícios baixos, enquanto longos fios de bugigangas bioluminescentes e cestos segurando insetos de fogo iluminavam as ruas e becos visíveis. Para onde quer que olhasse, Arautos do Rio caminhavam, nadavam ou descansavam, observando os recém-chegados cautelosamente e conversando entre si.

Huatli torceu suas roupas, examinando a área. "Deve haver milhares de Arautos aqui", disse ela, estremecendo quando Pantlaza se sacudiu e lançou água para todos os lados.

A jovem exploradora tritã abriu suas guelras. "Minha mãe diz que é a maior assembleia de bandos de tritões que Ixalan já conheceu." Ela estendeu a mão para Wayta, que a aceitou e se levantou. "Eu sou Nicanzil", disse ela. "Sejam bem-vindos."

Arte de: Fariba Khamseh

Huatli franziu a testa. "Por que vocês estão aqui, se não for muita ousadia perguntar?"

"Aguardamos a abertura do portão final para a fonte", disse Nicanzil, apontando para a porta corroída no topo da escadaria do templo. "Minha mãe, a Grande Moldadora Pashona, pode lhes contar mais. Ela encontrou este lugar após a morte da Árvore das Raízes Profundas."

Huatli encarou a porta, apertando os olhos como se para vê-la melhor à distância. "Poderia ser Matzalantli?" murmurou ela. "Teremos realmente descoberto a porta que leva ao local de nascimento da humanidade, o lar dos deuses, como afirmava o poema?"

"Se for", disse Quint, "eu me pergunto o que mais eles encontraram aqui. O Império da Moeda chegou tão longe ou permaneceu mais perto da superfície? E imagine que artefatos historicamente significativos podem estar à espreita em algum armário antigo." Ele verificou os selos em seus pergaminhos, aparentemente satisfeito por tudo estar intacto.

Wayta observou-o com curiosidade e uma leve inquietação. "O que você faria com os artefatos se os encontrasse?"

"Eu adoraria estabelecer um local de escavação adequado", disse ele. "Para garantir que tudo seja tratado com o maior cuidado possível."

"E então o quê?" perguntou Wayta. "Você desenterra as coisas e as deixa lá?"

"Não necessariamente as deixaria lá", disse Quint. "Suponho que dependa do que todos vocês queiram fazer. Se querem manter tudo aqui, ou levar alguns itens de volta para Orazca, talvez até montar um museu."

"Então, as pessoas viriam aqui para… cobiçar as coisas?" Wayta franziu a testa. "Que estranho."

Quint riu. "Suponho que pareça estranho. É uma forma de garantir que as histórias do passado não sejam esquecidas."

"Ah, como o guerreiro-poeta", disse Wayta, olhando para Huatli.

"Exato, sim!" exclamou Quint. "Eu faria anotações ao longo da escavação e depois escreveria um relato detalhado para meus colegas em Arcavios, para compartilhar o que encontramos." Seu olhar tornou-se distante. "Talvez eu pudesse publicá-lo em todo o Multiverso de alguma forma…"

O cenho de Wayta se fechou. "Mas não é a sua história."

As orelhas de Quint abriram-se ligeiramente. "Bem, não, eu seria apenas quem a conta."

"Por que você?" pressionou Wayta. "Você não é de Ixalan. Você não é do Império do Sol, nem dos Arautos do Rio. Você não deveria estar contando nossas histórias por nós."

"Talvez não contando, então", disse Quint, desviando o olhar sobre a água. "Registrando. Disseminando. Eu sou treinado nisso, sabe", acrescentou ele com uma ponta de irritação. "Eu não vou atropelar toda a sua história." Ele puxou seus óculos de proteção da cabeça com a tromba e começou a limpá-los com um pano. Wayta bufou um suspiro, perguntando-se por que se importava tanto. Por que isso a incomodava. Com certeza, ela já sonhara em seguir o exemplo de Huatli e conquistar o manto de guerreira-poeta para si mesma algum dia. Mas a guerra estilhaçara esses sonhos como a cerâmica que encontraram nessas cavernas. Ela fora uma soldada e uma pirata, às vezes ajudando a Coalizão de Bronze a roubar e vender não apenas artefatos de Torrezón, mas de seu próprio povo também. Aqueles roubos pagaram sua passagem e a mantiveram alimentada, nunca lhe dando mais do que uma pontada ocasional de culpa. Ela merecia mais do que recebera do exército, não merecia? Mas ela deixara tudo isso para trás. E agora ela era — o quê? Uma exploradora? Poderia ela também ser uma colecionadora de histórias? As de sua terra natal e de seu povo?

Huatli, que estivera sentada em silêncio por perto enquanto a conversa prosseguia, ofereceu agora a Wayta um sorriso suave. "Nem todos entendem o poder das palavras", disse ela. "O controle que elas podem dar sobre os outros." Ela começou a recitar parte de um poema que Wayta não reconheceu.

Quando meus ossos dormirem na terra, Quem compartilhará memórias de mim? Amigos podem erguer monumentos enquanto inimigos profanam minha tumba. Quando eles, também, tiverem partido, do que seus filhos se lembrarão?

"Triste, pensar em como tanto se perde", murmurou Wayta, olhando para a porta estranha no topo da pirâmide à distância.

Huatli apertou o ombro de Wayta de forma companheira. "E, no entanto, que alegria quando algo perdido é encontrado, e quando o que é encontrado é compartilhado."

Wayta olhou para Quint, depois para Inti e Caparocti, organizando os outros soldados e dando ordens silenciosas. Talvez fosse melhor que algumas coisas permanecessem enterradas, dependendo do que as pessoas pretendessem fazer com elas. Talvez alguns monumentos merecessem ser derrubados.

Ela esperava que o que quer que estivesse atrás daquela misteriosa porta dourada para o chamado lar dos deuses fosse uma bênção e não uma maldição.

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Malcolm

O túnel onde Malcolm e Calça se estabeleceram para recuperar o fôlego cheirava a seco e desuso, possivelmente abandonado após as veias terem sido exauridas, ou porque nada foi encontrado para justificar uma exploração posterior. Ele e os criadores do túnel tinham isso em comum: ele não tinha desejo de se aprofundar mais. Seus músculos doíam e sua cabeça latejava por usar magia demais.

O mistério dos desaparecimentos em massa em Downtown quase certamente estava relacionado a todo aquele mofo e fungo. Ele não entendia completamente como funcionava, mas vira o suficiente do que ele podia fazer para ficar com medo. Seus suprimentos estavam no fundo do poço do elevador e, das oito pessoas que ele trouxera aqui com ele, apenas ele e Calça haviam sobrevivido.

"Tudo morto, nada de ouro", murmurou Calça melancolicamente.

"Verdade demais", concordou Malcolm.

Deveriam continuar ou voltar? Se partissem agora, Malcolm teria que relatar a Vance que encontrara poucas respostas e ainda mais perguntas. Se houvesse sobreviventes de Downtown ou de seu esquadrão da Baía do Raio de Sol em algum lugar na escuridão, ele os estaria abandonando aos seus destinos — e algumas daquelas pessoas eram seus amigos, e nenhum deles merecia ser deixado para trás. Além disso, Downtown permaneceria vazia, e recrutar novos mineradores seria difícil, se não impossível; quem queria trabalhar em um lugar onde todos os habitantes anteriores haviam desaparecido? E se ninguém estivesse minerando, então nenhum dinheiro estava fluindo para a Coalizão de Bronze, e era apenas uma questão de tempo até que a economia frágil se fragmentasse nas antigas frotas piratas rivais.

Malcolm amara seu tempo velejando, navegando, voando livre sobre as ondas ondulantes através do sol e da tempestade. Sentindo a emoção de despojar mercadores mimados de seus bens e piratas rivais de suas vidas. Mas depois da guerra, ele ficara quase aliviado por se estabelecer em uma existência mais estável. Perder isso agora… Não era algo a ser considerado levianamente, não quando ele ainda poderia resolver o problema. Não quando ele poderia salvar pessoas se escolhesse não desistir ainda.

"O que você acha, Calça?" perguntou Malcolm, encostando-se na parede do túnel. "Voltamos para cima e vivemos para falhar outro dia? Ou continuamos descendo rumo ao desconhecido?"

Calça tirou o chapéu e coçou a cabeça, depois deu de ombros. "SEM MINA, SEM OURO."

"Existem outras minas", disse Malcolm. Mas nenhuma tão grande ou produtiva quanto Downtown, se ele fosse honesto. "E de qualquer forma, os mortos não podem gastar moedas, podem?"

Era isso, então. Ele quase se convencera a partir. Vance poderia enviar outra pessoa — muitas outras pessoas, Malcolm recomendaria. Embora isso pudesse terminar com muito mais pessoas transformadas em… o que quer que seus companheiros tivessem se tornado.

Um brilho fraco no poço chamou sua atenção. Malcolm esforçou-se para se levantar e espiou pela borda do túnel, com a mão no punho da espada.

O fungo escalava a parede, crescendo a uma velocidade impossível. Gavinhas negras formavam redes de círculos que floresciam em vários cogumelos, alguns pequenos e plumosos, outros em degraus como escadas, outros ainda nervurados como coral. O efeito era caótico e estranhamente belo, mesmo enquanto revirava seu estômago.

Algumas das gavinhas moviam-se como tinta em uma página. Enquanto Malcolm observava, ele percebeu que o fungo estava formando palavras, escuras demais para serem distinguidas. Lentamente, aquelas palavras começaram a emitir o mesmo brilho verde doentio que havia dominado seu povo perdido.

SEGURO, dizia a primeira palavra. Depois, ABAIXO.

Era uma trégua ou uma armadilha? Malcolm não podia ter certeza. Mas agora ele sabia que o que quer que tivesse feito tudo aquilo era senciente. Se fosse esse o caso, talvez a diplomacia não estivesse fora de questão. Talvez os residentes de Downtown realmente estivessem vivos em algum lugar abaixo, e ele pudesse tirá-los de lá com segurança.

A esperança era a arma mais perigosa de todas, e Malcolm sentiu-a deslizar entre suas costelas até o coração, afiada como uma lâmina.

Arte de: Daarken

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Amalia

A areia pressionava contra o corpo de Amalia, densa e pesada, pior que a água. O granito infiltrava-se em suas roupas, em seu nariz, até em sua boca e olhos, embora ela os fechasse o mais firmemente que podia. Distantemente, ela se lembrava de dizer a Kellan para segurar o fôlego, e ela fizera o mesmo. Quanto mais tempo o segurava, mais se perguntava se suas habilidades vampíricas a protegeriam do sufocamento, se passaria a eternidade presa naquele rio de areia, incapaz de morrer, incapaz de beber o sangue que dá a vida.

Como se convocadas por seu medo, as visões mais uma vez a consumiram.

A porta misteriosa, redonda e coberta de glifos, mais nítida do que antes. Estava incrustada na pedra de uma parede de caverna, sua superfície acobreada tingida com corrosão verde.

Um céu cheio de nuvens levemente arroxeadas, só que além do céu havia… terra? Como se alguém segurasse um mapa vasto em algum lugar acima dela, pintado com todas as cores da terra que deveria representar, verdes e marrons e azuis e branco como a neve.

Uma esfera queimando brilhantemente como o sol — seria o sol? Não poderia ser. Estranhos pedaços de metal flutuavam ao seu redor, lembrando Amalia de armaduras de placas quebradas. Mais pedaços seguiam atrás como destroços de um naufrágio, brilhando em rosa-arroxeado.

Venha para mim…

A pressão ao redor de Amalia diminuiu de repente, tornando-se uma sensação de queda. Sem aviso, ela atingiu a água, seus olhos abrindo-se bruscamente. Como haviam chegado ao oceano? Não, isso era água doce. A desorientação fez com que ela nadasse na direção errada, em direção ao que parecia uma cidade, antes de perceber que os edifícios estavam submersos. Ela se virou e chutou para o outro lado, finalmente emergindo na superfície com um suspiro. Ao seu redor, outros faziam o mesmo, incluindo Kellan, para seu alívio.

Eles não estavam mortos. Ela tivera tanta certeza de que os Malamet iriam matar a todos, depois que a areia movediça faria esse trabalho, no entanto, mais uma vez eles haviam sobrevivido. Simples sorte? Ou a vontade de Aclazotz?

Antes que ela pudesse sentir mais do que uma pontada momentânea de alívio, uma enxurrada de movimento na água os cercou. Arautos do Rio, dezenas, todos armados com suas estranhas armas de jade e magias elementais.

"Não nos provoquem", disse um dos tritões. "Venham pacificamente ou serão subjugados pela força."

Vito rosnou e Bartolomé lançou-lhe um olhar preocupado. Certamente, tentar lutar contra os Arautos em seu elemento parecia uma tarefa tola.

Kellan tossiu e nadou para mais perto de Amalia. "Não acredito que esta é a terceira vez que sou emboscado em um único dia", disse ele melancolicamente.

Amalia soltou uma risada. "Cuidado para não transformar isso em um hábito. Eles podem ser difíceis de quebrar." Kellan sorriu e brincou jogando água nela, então eles seguiram os outros vampiros enquanto os tritões os conduziam em direção à margem rumo a um destino desconhecido.

Episódio 4

Quint

Os exploradores do Império do Sol esperavam pela Grande Moldadora Pashona em uma sala grande o suficiente para acomodá-los e aos dinossauros que haviam sobrevivido à jornada. Huatli alimentava Pantlaza com tiras de carne seca, que o grande raptor engolia avidamente, enquanto Inti supervisionava a limpeza de armaduras e armas. Caparocti e Wayta se envolveram em uma dança de treinamento com passos complicados, grunhindo e golpeando um ao outro com bastões.

Quint examinou o poncho que continha o espírito de Abuelo enquanto contemplava o que ele e Wayta haviam discutido anteriormente. Ele nunca havia trabalhado em um sítio arqueológico tão fora de sua própria experiência e se sentia despreparado, apesar de seu treinamento. Quantos textos de história em Strixhaven foram escritos por membros da cultura que descreviam? Ele mesmo não havia ficado irritado com algumas representações de loxodontes? Quando encontrou a cidade perdida de Zantafar, alguns arqueólogos argumentaram que ele não deveria ter permissão para trabalhar no local porque não era suficientemente neutro. Felizmente eles foram votos vencidos, mas foi um período tenso.

Agora, diante de uma descoberta surpreendente após outra, ele se perguntava se Wayta estava certa: nada disso era sua história para contar. Embora talvez se ele encontrasse mais evidências do Império da Moeda—

Nicanzil retornou à sala e toda a atividade cessou.

"A convocação começa", disse Nicanzil. "Sigam-me."

As mochilas foram colocadas nos ombros, as armas embainhadas e logo o contingente do Império do Sol subiu escadas intermináveis até o topo do edifício. Eles surgiram em frente à enorme porta dourada que fora visível da margem quando chegaram pela primeira vez. Quint quis examiná-la, mas uma tensão repentina entre seus aliados o deteve.

"Vampiros", cuspiu Wayta. Os outros guerreiros espelharam seu nojo, alguns alcançando as armas.

Vampiros? Esta deve ser a Legião do Crepúsculo, de Torrezon. Saheeli os havia mencionado.

Uma tritã ressequida entrou pelo lado oposto da sala, sua pele verde manchada com pontos marrom-rosados, barbatanas rosa abrindo-se atrás dela como uma capa. Ela usava armadura de jade como muitos dos Arautos do Rio, mas não carregava armas visíveis — uma usuária de magia, talvez.

"Grande Moldadora Pashona", disse Huatli, curvando-se profundamente. "Você nos honra."

"Guerreira-Poeta", respondeu a Moldadora Pashona, inclinando a cabeça. Para surpresa de Quint, ela então olhou fixamente para ele. "Quem é você, estranho?"

"Quintorius Kand", respondeu Quint, tocando a testa educadamente com a tromba. "Arqueólogo loxodonte. Estou visitando de Arcavios — isto é, um lugar longe de Ixalan."

"Por que você está aqui?", perguntou a moldadora.

"Para ajudar o Império do Sol com algumas pesquisas", respondeu Quint, "mas também estou em minha própria busca por conhecimento."

"O que você pretende fazer com esse conhecimento?"

Quint se perguntou se a moldadora podia ler mentes. He olhou para Wayta e disse: "Não tenho certeza ainda. Nada de ruim."

A Moldadora Pashona voltou sua atenção para Huatli. "E você, Guerreira-Poeta, e seu povo? Quais são suas intenções?"

Huatli apontou para a porta enorme. "Viemos em busca deste portal. Acreditamos que ele leva a" — ela lançou um olhar suspeito aos vampiros — "um lugar de importância histórica para o Império do Sol."

A Moldadora Pashona seguiu o olhar de Huatli. "Quem os lidera?", ela perguntou aos membros da Legião.

Um dos vampiros de armadura carregando uma lança deu um passo à frente. "Nossos assuntos não são de sua conta. Vocês nos libertarão imediatamente."

Inti, já alto, empertigou-se e jogou os ombros para trás, parecendo duas vezes maior. "Esses invasores deveriam ser aprisionados", disse ele.

"Ou mortos", acrescentou Caparocti.

Huatli, para surpresa de Quint, assentiu em concordância. Ele nunca a vira parecer tão sanguinária.

"Vocês são todos invasores", disse a Moldadora Pashona. "Nós os ajudamos para que pudéssemos aprender seu propósito, mas podemos jogá-los de volta ao mar e deixar os espíritos decidirem seus destinos."

"Vocês não podem impedir nossa missão sagrada", insistiu o líder vampiro.

"Se vocês nos matarem", disse Inti, "estarão declarando guerra a todo o Império do Sol."

Outro vampiro deu um passo à frente, elegantemente vestido, com um chicote pendurado no cinto. "Torrezon também. A Rainha Miralda ficaria muito descontente."

As barbatanas de Nicanzil ondularam. "Você assume que seu povo algum dia nos encontraria."

Mãos alcançaram armas, e o aroma agudo de magia preencheu o ar. Quint fixou a imagem de um sigilo defensivo em sua mente.

"Basta!", exclamou Huatli. "Moldadora, o seu povo e o meu buscam abrir esta porta. Proponho que trabalhemos juntos."

A Moldadora Pashona inclinou a cabeça. "Que ajuda você oferece?"

Huatli sorriu. "Podemos traduzir a escrita na porta. Se for como o que encontramos em Orazca, a abriremos rapidamente."

"Obrigado pela lembrança da traição de seu povo ao tomar a cidade dourada", murmurou Nicanzil.

"Se estamos lembrando coisas uns aos outros", disse Inti, "lembre-se que foi um Arauto do Rio quem primeiro reivindicou o Sol Imortal."

"Aquele que morre sem ter cometido erros nunca viveu", disse Huatli diplomaticamente. "Todos nós lutamos contra os phyrexianos para defender nossos lares. Podemos lutar uns contra os outros agora que nosso inimigo coletivo foi vencido, ou podemos usar esta chance para construir uma paz mais duradoura entre nossos povos."

Para surpresa de Quint, o segundo vampiro falou novamente. "A Rainha Miralda pode estar aberta a tais negociações, dependendo do que encontrarmos."

"Cale a boca, Bartolomé", retrucou o outro vampiro. "Eu o avisei —"

"Muito bem", disse a Moldadora Pashona, e o vampiro ficou em silêncio. "Guerreira-Poeta, você pode prosseguir."

Huatli fez um gesto para que Quint a acompanhasse e, juntos, examinaram a porta. Ela não continha nenhuma placa removível e os glifos pareciam ligeiramente diferentes. Ao lado da porta, uma caixa em camadas com compartimentos de vários tamanhos estava embutida na parede, para que propósito ele não conseguia imaginar.

"Este dialeto não é o mesmo da outra porta", disse Huatli, com a testa franzida. "Isso pode demorar mais do que eu esperava". Ela percorreu os glifos, seus lábios movendo-se ligeiramente, enquanto os membros das várias facções se mexiam inquietos. Pantlaza soltou um trinado suave e sentou-se para limpar suas penas.

Quint estava prestes a procurar em seus pergaminhos por um feitiço que pudesse ajudar, quando percebeu que tinha algo potencialmente melhor. Ou melhor, alguém.

"Vou invocar um fantasma", disse Quint. "Ninguém entre em pânico, por favor."

Wayta bufou, e Quint sorriu para ela.

Ele tirou o poncho da mochila e mais uma vez lançou o feitiço para invocar Abuelo. Ele temeu brevemente que o espírito tivesse se perdido na luta contra o enorme cogumelo andante, mas para seu alívio, o brilho rosado familiar de magia no tecido se resolveu na mesma forma azul-petróleo de antes.

Huatli deu um passo para trás. "Quem é este?"

"Abuelo", respondeu Quint. "Espero que ele saiba como abrir esta porta."

Abuelo olhou para a multidão, depois para o portal. "Oh, vocês chegaram a Matzalantli!", exclamou ele. "Que maravilha. Precisamos entrar e avisar os Oltec sobre o Micotirano."

"Como fazemos isso?", perguntou Quint.

"É bem simples", disse Abuelo. Então seu rosto se contraiu em confusão. "Mas não consigo me lembrar."

Huatli apontou para a caixa ao lado da porta. "Envolve isso?"

"Sim, envolve!", exclamou Abuelo, radiante. "Que bom, você descobriu."

Huatli e Quint trocaram um olhar perplexo.

"O que fazemos com isso?", perguntou Huatli gentilmente.

Abuelo franziu a testa. "Há uma chave. Eu sempre esqueço. Abuela a guardava em seu khipu, e eu sempre ficava com ela..."

"Este é o khipu?", perguntou Quint, produzindo o objeto que encontrara com o poncho de Abuelo, um cordão tipo cinto adornado com comprimentos de fios com nós e contas.

"Sim, sim, dê para mim", Abuelo disse. Ele vasculhou os fios com mãos surpreendentemente corpóreas, resmungando consigo mesmo até encontrar o que queria. "Aqui! A porta dourada."

Quint inclinou-se mais perto, prendendo a respiração enquanto os dedos do Eco deslizavam pelos nós e contas.

"Abra a gaveta lateral", disse Abuelo, apontando para a caixa. Huatli o fez, encontrando uma coleção de gemas polidas em cores diferentes.

"Onde elas vão?", perguntou Huatli, segurando-as na palma da mão.

"Verde nos cantos superior direito e inferior esquerdo", respondeu Abuelo. "Amarelo nos outros cantos, e também nos três espaços acima ou abaixo, e um ao lado."

Huatli fez o que lhe foi ordenado, com Abuelo assentindo e sorrindo.

"Por último, o cosmium", disse ele.

"Os cor-de-rosa?", perguntou Quint.

"Sim." Abuelo oscilou como a fumaça de uma vela, então se afastou. "Perdoem-me. Às vezes o cosmium pode afetar Ecos como eu de maneiras estranhas."

Quint guardou aquilo para conhecimento futuro. "Então onde esses vão?"

Abuelo oscilou novamente, sua boca movendo-se, mas nenhuma palavra saiu.

Inti gemeu. "Estávamos tão perto", disse ele. "E agora?"

Huatli examinou la caixa, inclinando a cabeça. "Acho que conheço este padrão."

"Conhece?", perguntou Quint. "O que é?"

Huatli riu suavemente. "É uma chave". Ela colocou o restante das contas de cosmium nas caixas centrais, que formavam uma forma como uma serpente estilizada.

Assim que a última conta foi colocada, a caixa brilhou fracamente, e o brilho rosado espalhou-se para a porta e seus glifos. A luz irrompeu através de uma fresta na junção do portal agora desbloqueado, que se abriu com uma rajada de ar fresco surpreendentemente frio.

Por mais que Quint quisesse correr para dentro e saborear a emoção da descoberta, ele deixou Huatli liderar o caminho, com os outros guerreiros flanqueando-a. Eles entraram em um túnel amplo, perfurado com largura suficiente para caber uma dúzia de pessoas. A passagem inclinava-se acentuadamente para baixo, e ainda assim, enquanto Quint caminhava, ele tinha a sensação vertiginosa de que tudo ao seu redor estava mudando, como acontecia quando ele caminhava entre planos. Ele continuou descendo, o caminho íngreme, mas nunca íngreme o suficiente para ser intransponível — até chegar a um amplo círculo de pedras como um poço, facilmente com o mesmo diâmetro do próprio túnel. Huatli parou na borda do poço e arquejou. Outros rapidamente se amontoaram ao seu redor para ver.

"Isso é impossível", disse Huatli.

"Incrível", acrescentou Inti.

"Inacreditável", murmurou Caparocti.

Wayta simplesmente piscou seu único olho visível.

Eles estavam diante de um círculo de céu pontilhado de nuvens. A porta levava de volta para a superfície? Mas não, eles estavam nas profundezas da terra, e o túnel inclinava-se para baixo.

Sombras apareceram na borda da abertura. Pessoas, esticando os pescoços sobre o lábio do poço, olhando para baixo para Huatli e os outros.

"Encontrem Anim Pakal", disse um deles, seu tom mais preocupado do que chocado. "Alguém abriu o selo."

Arte de: Piotr Dura

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Malcolm

Com as cordas do elevador cortadas, Malcolm teve que voar para baixo em etapas de um nível para o outro. Ele às vezes carregava Breeches, enquanto em outras vezes o goblin descia pelas paredes ásperas, e eles paravam para descansar sempre que se cansavam. O brilho verde doentio de fungos iluminava o caminho junto com suas lâmpadas de ombro, e ambos continuavam a usar suas máscaras rudimentares por medo de respirar quaisquer esporos que tivessem ferido seus companheiros.

Eles acabaram encontrando o elevador, danificado mas quase intacto, empoleirado no topo de uma prateleira de cogumelos estendida pela metade do cenote como um palco macabro. Eles não encontraram nenhum cadáver, nem qualquer sinal dos caídos além da bile negra que os infectados haviam vomitado na plataforma de madeira.

E ainda assim, o fundo do poço permanecia fora de vista.

Malcolm perdeu a noção do tempo, minutos infiltrando-se em horas. Em algum lugar lá no alto, o sol nascia e se punha; lá embaixo no escuro, apenas o cansaço, a fome e a sede marcavam a ausência das rotinas diárias habituais.

Uma luz fraca abaixo deles brilhou gradualmente, até que finalmente alcançaram o fim de sua descida aparentemente interminável. Um túnel à esquerda iluminou-se enquanto o brilho ao redor deles desaparecia, como se estivessem sendo guiados. Ou arrebanhados.

Breeches resmungou: "COGUMELOS RUINS."

"Você disse tudo, parceiro", concordou Malcolm.

Eles seguiram o brilho através de túneis escavados rudemente, regulares e propositais demais para serem naturais. Quanto mais caminhavam, mais o pavor de Malcolm aumentava. Se isso fosse uma armadilha, como escapariam? O céu estava tão longe acima deles, o mar tão distante...

O túnel abria-se em uma caverna grande o suficiente para conter uma cidade inteira, o teto tão alto que Malcolm podia voar confortavelmente sem atingi-lo. Uma floresta fúngica estendia-se diante deles, assustadoramente bela, repleta de ruínas em desintegração. Esporos bioluminescentes flutuavam como minúsculos vaga-lumes entre cogumelos tão altos quanto árvores, seus chapéus e caules em todos os tons de verde, do verde-espuma mais pálido ao quase preto. lamelas vibravam conforme Malcolm e Breeches passavam, como se estivessem sendo farejados.

Ruídos suaves sugeriam que eles não estavam sozinhos. O arrastar de passos, corpos roçando contra o terreno, murmúrios ocasionais. Talvez sobreviventes da Cidade Baixa? Mas e se todos estivessem infectados? As entranhas de Malcolm se contraíram de horror.

Eles chegaram a uma clareira, o chão coberto por círculos concêntricos conectados como as marcas na pele de seus aliados. Malcolm parou, cauteloso para não pisar nas linhas, que lembravam fios de uma teia de aranha. Ele não tinha desejo de ser pego como uma mosca.

Uma coleção heterogênea de pessoas emergiu da floresta. Ele não os reconheceu a princípio, cobertos que estavam por fungos como o cadáver que iniciara esta investigação. Alguns eram flanqueados por cogumelos andantes com braços e pernas, como bonecos de criança de pesadelo.

Um dos humanos deu um passo à frente, seus movimentos rígidos, os olhos substituídos por cogumelos brilhantes. Xavier Sal, le prefeito da Cidade Baixa. A esperança de Malcolm de encontrar sobreviventes desapareceu assim que o homem abriu a boca.

"Sejam bem-vindos a este lugar", disse Xavier monotonamente.

"Quem somos 'nós'?", perguntou Malcolm.

"Nós somos o Micotirano". Xavier apontou para trás dele, e uma figura gigante foi subitamente iluminada por dezenas de fungos brilhantes.

O Micotirano pendia em uma teia circular de fios semelhantes a raízes que se estendiam do chão ao teto. Seu corpo de sapo era largo e verde com manchas arroxeadas, lamelas como um colar em volta do pescoço. Grandes cogumelos brotavam de suas costas, outros menores de sua cabeça e, embora não tivesse pernas, dois braços grossos terminavam em garras cruéis. Acima de uma bocarra aberta e sem lábios, cheia de dentes como espinhos, olhos miúdos brilhavam em verde, olhando para baixo para Malcolm e Breeches com interesse malévolo.

Arte de: Chase Stone

"Você é conhecido por nós, Malcolm Lee", disse Xavier. "Assim como sua busca, graças aos seus antigos companheiros."

"Eles estão aqui?", perguntou Malcolm, temendo a resposta.

"Sim", respondeu Xavier. "Eles foram incorporados à nossa colônia, asism como os que outrora residiam no lugar que você chama de Cidade Baixa."

Malcolm estremeceu. "Incorporados, como em...?"

"Nós somos um", disseram todos os humanos em um uníssono arrepiante.

Malcolm vira árvores derrubadas por fungos, troncos apodrecidos por dentro. Dado o que acontecera com seu povo, os dinossauros que haviam combatido e o que ele agora enfrentava, ele só podia assumir que eles estavam sofrendo um destino semelhante.

Ele olhou além de Xavier para o Micotirano, envolto em luz fúngica. "O que é que você quer?", perguntou Malcolm. "Gemas? Dinheiro? Comida?"

O Micotirano emitiu uma nuvem de esporos como uma risada silenciosa. A boca de Xavier se esticou em um esgar que espelhava o movimento de seu mestre de marionetes.

"Tudo."

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Amalia

A porta dourada cuja imagem atormentara Amalia por semanas estava aberta diante dela. Ela não pôde evitar sentir-se emocionada, porém profundamente perturbada por sua previsão provar-se verdadeira novamente. Com Kellan a tiracolo, ela seguiu a massa de pessoas através de um túnel, surgindo no lugar surpreendente que ela também vira em visões.

Arte de: Piotr Dura

Um panorama vasto estendeu-se diante, acima e ao redor dela enquanto ela atravessava o portal. Campos vibrantes estendiam-se ao longe, estranhas criaturas peludas de pescoço longo vagavam, e pássaros voavam pelo ar, sozinhos ou em bandos. Mas, em vez de a terra desaparecer no horizonte, ela curvava-se para cima. Amalia teve a sensação desconcertante de estar dentro de um enorme globo invertido.

No centro de tudo, um sol estranho pairava, tão perto que Amalia imaginou que poderia alcançá-lo se possuísse o poder de voar. Ele iluminava metade da terra, enquanto outras partes ficavam na sombra causada pelas peças de metal que giravam ao seu redor. Uma cauda de mais fragmentos de metal estendia-se para longe dele, brilhando em um rosa pálido. Isso também ela previra, e estremeceu com o pensamento de quais lugares futuros ela poderia ser mostrada a seguir.

Arte de: Adam Paquette

"Isso é realmente incrível", disse Kellan. "É isso que você estava tentando encontrar?"

Amalia deu de ombros, impotente. "Eu não sei. Nunca estive aqui antes."

À esquerda deles, uma pirâmide erguia-se por vários andares, com um grande disco pontiagudo no topo semelhante aos do Império do Sol. Edifícios mais baixos estavam espalhados ao redor, e pessoas saíam deles. Elas usavam ponchos e khipu como o espírito que o arqueólogo chamara de Abuelo, e empunhavam armas de lâminas cor-de-rosa e cajados com magia que enviava pulsos ondulantes pelo ar. Entre eles, criaturas menores cambaleavam, seus corpos articulados formados por vários tipos de metal. Cada uma tinha um único olho brilhante em cores que variavam do vermelho ao verde, ao roxo e além. Espíritos flutuantes uniam-se a eles, alguns humanoides com características reconheíveis, outros mais como animais ou fiapos semiformados de névoa azul-petróleo.

Amalia apertou os olhos para o sol estranho, pontos pretos flutuando ao redor dele como pássaros. Alguns destes mudaram para uma formação em forma de seta e se aproximaram. Mais guerreiros, montados nas costas de grandes morcegos que também usavam armaduras como os dinossauros voadores do Império do Sol.

Algo nos morcegos a fez estremecer e, como se em resposta, a voz de suas visões retornou.

Venha para mim...

Parecia mais alto agora, mais forte. Amalia olhou para Vito. Seus lábios se esticaram em um sorriso fanático enquanto ele voltava seu olhar para el céu.

Bartolomé tocou o braço dela, e Amalia estremeceu. "Você está bem?", ele perguntou.

"Apenas sobrecarregada", disse ela. Ela nunca havia mentido tanto em sua vida quanto nesta jornada.

Kellan assobiou ao notar os voadores se aproximando. "Suponho que você não tenha ideia do que está acontecendo aqui?"

Amalia sorriu sem jeito. "Receio que não", disse ela. "Espero que descubramos logo."

"Desde que eles não nos joguem em mais areia movediça", disse Kellan, "suponho que devamos considerar isso uma melhora."

Um dos cavaleiros de morcego pousou, e Bartolomé aproximou-se da multidão que se reunia ao redor dela. Amalia seguiu, com Kellan ao seu lado, querendo saber o que estava acontecendo.

O cabelo escuro da mulher era mantido no lugar por uma faixa semelhante a uma coroa, seu khipu e cinto adornados com as mesmas pedras cor-de-rosa usadas nas armas. Uma das estranhas criaturas mecânicas a seguia como uma criança.

"Eu sou chamada de Anim Pakal", disse ela. "Eu comando as Mil Luas. Quem são todos vocês, e como abriram o selo em Matzalantli?"

Arte de: Chris Rahn

O espírito Abuelo flutuou para a frente. "Eu os ajudei", disse ele. "Recebi a chave para entrada quando a porta foi selada, na esperança de que pudéssemos retornar quando o Micotirano fosse derrotado."Anim inclinou a cabeça para ele. "Honrado Eco, nós lhe damos as boas-vindas. Isso significa que Topizielo está segura agora?"

Abuelo balançou a cabeça. "Não está, mas Oteclan e o restante do Núcleo também não estão. O Micotirano cresceu em poder em vez de enfraquecer. O plano para isolá-lo e derrotá-lo falhou."

"Então por que você abriu a porta?" Anim perguntou. "Você trouxe a ruína para nós."

"A ruína teria encontrado vocês dormindo em suas camas", Abuelo respondeu com um gesto ríspido. "Agora vocês podem se preparar."

"As Mil Luas não dormem", disse Anim. "Esta guarnição guardou a porta em Matzalantli desde que ela foi fechada no tempo dos meus ancestrais. Ela teria permanecido fechada, e estaríamos seguros, se você não a tivesse aberto."

A guerreira-poeta deu um passo à frente agora, inclinando a cabeça respeitosamente. "Teríamos encontrado uma entrada eventualmente — se não por esta porta, então por outros meios. Nosso povo tem cavado minas cada vez mais profundas na terra, assim como outros."

"Ela está correta", disse Bartolomé, ignorando um olhar mortal de Vito. "Apenas a Coalizão de Bronze tem uma cidade inteira abaixo da superfície dedicada à exploração."

A Moldadora Pashona acrescentou: "Acreditávamos que encontraríamos a Fonte atrás da porta. Nós também teríamos feito tudo o que estivesse ao nosso alcance para abri-la. A ignorância pode proporcionar uma medida de segurança, mas também pode levar a más escolhas."

Como Amalia sabia bem disso agora. Se ela tivesse percebido o que essa jornada significaria para ela, talvez tivesse ficado em casa. Mas não, esse era um pensamento indigno. Ela havia aprendido tanto, e seus mapas seriam de grande valor para seu povo, se ela algum dia conseguisse retornar a Torrezon.

Anim observou a assembleia com o queixo erguido imperiosamente, então fixou o olhar na guerreira-poeta. "Você é dos Komon?" ela perguntou.

"Somos do Império do Sol", disse a mulher, indicando o restante de seus companheiros e seus dinossauros. "Eu me chamo Huatli. Quem são os Komon?"

"Um didata poderia lhe dizer mais do que eu", disse Anim. "Os Komon são nossos ancestrais que deixaram o Núcleo para explorar Topizielo. Até que as portas fossem seladas, negociávamos regularmente, mas não os vimos desde então."

O loxodonte — Quintorius — pigarreou educadamente. "Talvez os Komon tenham chegado à superfície? Isso explicaria a semelhança nos glifos usados pelo Império do Sol e, bem, vocês, se forem vocês que fizeram a porta."

Essa interrupção levou a uma rodada mais completa de apresentações que incluiu ele e todos os membros do Império do Sol, e depois os Arautos do Rio. Amalia lutava para prestar atenção enquanto considerava as implicações da discussão. Se o Império do Sol descendia desse povo, o que isso tornava este lugar dentro do plano? Talvez seu próprio povo tivesse um dia caminhado por esses campos e colinas, um dia voado pelos céus em morcegos. Isso explicaria por que a busca por seu deus os havia levado até aqui.

Anim olhou para mais cavaleiros de morcego que chegavam. "Enviamos notícias da sua chegada a Oteclan. Em breve, Akal Pakal chegará para dar as boas-vindas aos nossos primos há muito partidos, se é que de fato vocês são isso."

Aquele chamado Inti curvou-se e disse: "Oferecemos a força do nosso povo em troca da sua hospitalidade. Estamos ansiosos para negociar e melhorar os laços entre nós."

Uma certa sombra cruzou a expressão de Huatli, mas antes que ela pudesse falar, Anim se aproximou de Vito, que estava parado rigidamente ao lado de Clavileño.

"Não fomos apresentados", disse Anim. "Minhas desculpas pela omissão."

Vito inclinou a cabeça friamente, mas nada disse.

Bartolomé mais uma vez intercedeu. "Somos exploradores humildes da Companhia da Baía da Rainha", disse ele com uma reverência cortês.

"Eles são vampiros", gritou um soldado do Império do Sol.

A mudança em Anim Pakal foi imediata. Magia arqueou entre seus dedos e dançou por seus braços enquanto ela formava um escudo brilhante entre ela e Vito. Os Oltec cercaram os membros da Legião, com armas em punho e mais magia ondulando no ar.

"Adoradores do Grande Traidor não são bem-vindos aqui", disse Anim friamente. "Prendam-nos."

"De novo?" Kellan resmungou. Amalia ecoou o sentimento, mas se lutar contra os Malamet tinha sido temerário, atacar os Oltec seria suicida.

Vito pareceu prestes a protestar, então seus olhos ficaram vidrados e ele agarrou o braço de Clavileño. "Tudo prossegue de acordo com a vontade dele", disse ele.

Amalia estremeceu, esperando que os sussurros ásperos de Aclazotz ecoassem em sua mente mais uma vez, mas não ouviu nada. Talvez isso fosse uma bênção.

As sombras dos cavaleiros de morcego caíram sobre os vampiros enquanto eles eram levados embora, para as profundezas da guarnição, longe da luz do sol estranho e coberto por conchas.

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Wayta

O contingente do Império do Sol estava sentado em um refeitório dentro da guarnição, saboreando a deliciosa comida local. Depois de dias de rações de trilha, Wayta se permitiu. Nunca se sabia quando seria a próxima refeição; contenção era para tolos.

Um dos Oltec aproximou-se de Huatli. "A intendente chegou. A Milésima Lua me enviou para guiá-la."

"Nós agradecemos", respondeu Huatli, jogando o resto de sua comida para Pantlaza e indo em direção à porta.

Inti e Caparocti flanqueavam-na, enquanto os outros guerreiros os seguiam. Wayta esperou que Quint terminasse de enfiar frutas em um de seus muitos bolsos antes de acompanhá-lo para fora.

Akal Pakal, intendente Oltec, esperava por eles em um edifício vibrantemente pintado e adornado com um emblema solar no telhado. Ela usava camadas de vestes cerimoniais, azuis, verdes e douradas com padrões geométricos intrincados. Grandes discos de ouro pendiam de seu pescoço, e um adorno de cabeça alto gravado com glifos adornava sua cabeça. Wayta não conseguia imaginar carregar tanto peso, mas talvez não fosse mais oneroso do que seu próprio elmo e armadura haviam sido.

Art by: Ryan Pancoast

"Sejam bem-vindos", disse a Intendente Akal, com voz quente e rouca pela idade. "Ouvi um pouco da história de vocês da minha irmã Anim, e estou ansiosa para ouvir mais. Primeiro, porém, devemos discutir a presença de bebedores de sangue em seu meio."

"Eles não são nossos aliados", disse Huatli. "Guerreamos com eles, mas quando Ixalan foi invadida pelos Phyrexianos — povo de outro plano — aquela luta teve precedência. Depois de tanta violência, espero por um caminho pacífico a seguir, e aceitaria qualquer ajuda que vocês pudessem fornecer enquanto tentamos reconstruir."

"Ou", interveio Inti, "vocês poderiam nos ajudar a nos livrarmos dos vampiros agora."

"Inti, nós discutimos isso", disse Huatli, seu tom afetuoso, mas exasperado.

"E o imperador discutiu isso conosco", acrescentou Caparocti. "Torrezon foi enfraquecida pela invasão e pelas lutas internas. Os vivos se opõem aos seus suseranos vampíricos mais do que nunca, a Coalizão de Bronze os fustiga quando é lucrativo, e os orcs da costa oeste nunca foram amigáveis. Agora é o momento perfeito para atacar."

"Melhor trabalharmos juntos para cuidar de nossas terras e reconstruir o que foi perdido", disse Huatli, "em vez de morrer em praias estrangeiras."

"Melhor pressionarmos nossa vantagem antes que a morte venha até nós", rebateu Inti.

Wayta já tinha ouvido o suficiente desse mesmo tipo de conversa quando lutou em Tocatli durante a guerra. Ficar em um lugar e montar bloqueios, ou permanecer móvel e ser mais difícil de atingir? Recuar e entrincheirar-se, ou avançar para expulsar o inimigo? Manter as linhas de suprimento abertas e arriscar uma morte rápida, ou deixá-las colapsar e arriscar a inanição? Alguns comandantes eram mais cuidadosos que outros, alguns mais sedentos por glória e poder. Estes últimos, ela descobriu, estavam ansiosos para gastar a moeda das vidas de outros guerreiros da segurança de seus bunkers bem abastecidos.

Soldados comuns também sofreram no rescaldo da guerra, apesar de seus sacrifícios. Aqueles que ganharam poder através da violência não o abandonavam facilmente, usando-o para explorar os desamparados e aumentar sua própria influência. Sua frustração a levara para a Coalizão de Bronze, e agora de volta para o Império do Sol, mas ela se perguntava se haveria algum lugar em toda Ixalan onde os mesmos problemas não a encontrariam.

Wayta aproximou-se de Quint, que estava um pouco afastado com Abuelo, imerso em uma discussão. As mãos de Abuelo moviam-se enquanto ele falava, enquanto Quint assentia e tomava notas.

"Você deve estar vinculado ao poncho", disse Quint. "Foi o que usei para invocá-lo."

Abuelo olhou para suas roupas. "Não é a coisa mais conveniente, mas estou feliz por aparecer tão claramente. Alguns Ecos são fiapos, outros são monstros mudados pelo seu vínculo."

Talvez aquelas pessoas estivessem mostrando suas formas verdadeiras na morte, pensou Wayta.

"Há um Eco vinculado a isto?" Quint perguntou, produzindo o khipu que os ajudara a abrir a porta dourada.

Abuelo passou os fios por entre seus dedos fantasmagóricos. "Espero que sim", disse ele. "Este era da Abuela."

"Sua esposa?" Wayta perguntou.

"Sim." Abuelo sorriu melancolicamente. "Ela podia fazer qualquer coisa crescer. Flores, frutas... Espinhos quando tinha que ser. Ela era feroz."

A menção a flores lembrou Wayta de um poema que ela compusera, após mais uma batalha como tantas outras:

Não pudemos salvar as flores Pisoteadas na lama por nossas botas Então plantamos sementes alimentadas por sangue Nas bocas abertas de nossas feridas Esperando que flores douradas da morte Crescessem de nossas covas rasas

Nada parecido com o que a guerreira-poeta criava, pensou Wayta. Mas Huatli lhe dissera uma vez que poemas deveriam ser honestos.

Quint usou as mãos e a tromba para estender o khipu enquanto o examinava. "Talvez possamos trazê-la de volta, como ajudei você a voltar."

"Assumindo que ela seja um Eco", disse Abuelo. "Ela pode simplesmente ter partido."

Quint abriu ligeiramente as orelhas. "Vamos descobrir, que tal?"

Wayta afastou-se novamente como uma pétala ao vento, fitando a paisagem pacífica com o peito cheio de pesar. Ela carregava seus próprios fantasmas consigo, tipos diferentes de ecos. Um olhar disse a ela que a intendente e seu povo ainda estavam imersos na discussão. Eles forjariam uma aliança? Isso levaria à guerra que o imperador queria? Se levasse, que sementes Wayta plantaria?

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Malcolm

Os residentes infestados por fungos da Cidade Baixa cercavam Malcolm, sem se mover, nem mesmo respirar. Aqueles que ainda tinham olhos o encaravam, e aqueles que não tinham apontavam órbitas vazias ou cogumelos-de-paris pálidos em sua direção.

Todos mortos. Ele esperara salvá-los, trazer sobreviventes da escuridão profunda, mas tudo o que podia fazer agora era coletar informações e tentar voltar vivo para a Coalizão de Bronze para entregá-las.

"Você fez isso com o nosso povo?" Malcolm perguntou à forma massiva do Micotirano acima dele.

O que restava do prefeito respondeu. "Vocês escavaram através de pedra e minério e veios de cristal brilhante até que um dos seus nos encontrou. Queríamos saber mais de vocês."

"E vocês não podiam simplesmente perguntar?"

"Juntar-se é perguntar, e saber."

As penas de Malcolm se eriçaram. "Matar, você quer dizer."

A cabeça de Xavier inclinou-se em um gesto quase humano. "Nós não matamos. Nós mudamos. Nós nos espalhamos. Onde há um de nós, estão todos nós."

Uma imagem do corpo perto da Baía do Raio de Sol passou pela mente de Malcolm. Ou esta criatura não tinha conceito de morte, ou não entendia que estava matando seus hospedeiros quando ela... o que estava fazendo, precisamente? Controlando suas mentes? Consumindo-os? Assimilando-os a si mesma?

"De onde você veio?" Malcolm perguntou.

"Aqui", respondeu Xavier. "Sempre estivemos. Observamos e crescemos. Vimos os Oltec e seus deuses caminharem pelo Núcleo antes que ele nos fosse negado. Estávamos aqui quando os Komon Winaq construíram cidades e quando seus ossos enriqueceram o solo. Negociamos com os Malamet e os goblins das profundezas, e reunimos conhecimento de toda a carne que nos encontra."

Malcolm não tinha ideia do que nada daquilo significava, mas parecia impressionante. E alarmante. A menção a comércio, no entanto, foi a primeira coisa promissora que ele ouvira até agora.

"Talvez possamos fazer um acordo", disse Malcolm. "Há algo específico que meu povo possa lhe oferecer?"

"OURO?" perguntou Marujo. "GEMAS?"

Os olhos verdes brilhantes da criatura suspensa brilharam mais forte.

"Nós queremos... o sol", disse Xavier.

"O sol", repetiram as pessoas infectadas.

"A luz de Chimil nos foi negada por eras", continuou Xavier. "Vocês têm outro sol acima, e nós o teremos."

Você não pode simplesmente ter um sol, pensou Malcolm, mas guardou isso para si enquanto o potencial total do que o Micotirano dissera lhe ocorria. Se esta criatura chegasse à superfície, dependendo de quão rápido ela se espalhasse, poderia em breve consumir toda a Baía do Raio de Sol. Talvez até mesmo toda Ixalan.

Ouro e gemas perdidos, como Marujo continuava lamentando, eram a menor das suas preocupações. Malcolm olhou ao seu redor para a floresta fúngica, o teto alto da caverna e as estalagmites e estalactites com seu mofo luminescente. Ele pensou de volta nos túneis pelos quais ele e Marujo haviam passado para chegar ali, a distância do fundo da mina de cenote da Cidade Baixa até a superfície.

Como ele e Marujo poderiam escapar deste lugar vivos?

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Amalia

Os Oltec não tinham prisões como as de Torrezon, das quais Amalia ouvira dizer que eram lugares vis e úmidos, cheios de morte e doenças. Eles tinham salas de detenção temporária, de acordo com o guarda que respondeu a contragosto às perguntas de Bartolomé. As pessoas não eram encarceradas como punição — o conceito parecia horrorizar o homem.

Mesmo assim, os vampiros da Legião e seus poucos servos restantes foram trancados em salas vazias, com as armas confiscadas, e deixados para aguardar seus destinos. Bartolomé providenciou para que ele, Amalia e Kellan ficassem juntos; ele andava de um lado para o outro, Amalia sentava-se no chão e Kellan olhava pela pequena janela, ocasionalmente olhando para trás com uma expressão preocupada. O mapa de Amalia não fora levado, então ela usou sua magia de sangue para explorar a área imediata preenchendo-a na página.

Da sala ao lado deles, a voz de Vito elevou-se. "O tempo da nossa salvação está próximo. As palavras do Venerável Tarrian guiaram-me até aqui, o nosso destino, e em breve seremos redimidos."

Sons abafados de aprovação seguiram-se. Bartolomé balançou a cabeça em desânimo e continuou a caminhar, de um lado para o outro, com as mãos entrelaçadas atrás de si.

"Então", disse Kellan baixinho. "Vocês são vampiros?"

Bartolomé parou. "O que você sabe sobre vampiros?" ele perguntou.

Kel deu de ombros. "Eles assassinam pessoas inocentes e bebem seu sangue, não necessariamente nessa ordem."

"Não é isso que nossa igreja prega", disse Amalia, com uma indignação justa crescendo dentro dela. "Nós apenas nos alimentamos de criminosos, pessoas más, e usamos o poder do sangue para ajudar os outros."

"Quem decide quem é criminoso?" Kellan perguntou, gesticulando para a sala. "Neste momento, nós somos criminosos."

"A justiça será feita", disse Amalia, mas sua convicção vacilou. Ela nunca considerara que as pessoas enviadas para a prisão em Torrezon pudessem ser inocentes. A igreja nunca permitiria isso.

Permitiria?

Vito rugiu: "Nossa é a promessa da eternidade, batizada em sangue e santificada por Aclazotz, que espera por nós aqui, além destas portas."

Bartolomé suspirou. "Alguns de nós não estão inteiramente comprometidos com a moral defendida pela igreja."

Amalia sabia que ele não estava se referindo apenas a Vito. Ela ouvira os sussurros de Vona de Iedo e outros heréticos. Mas talvez não fossem eles quem Bartolomé queria dizer?

"Você disse que veio aqui através de um portal mágico", disse Amalia, ansiosa por um novo assunto. "Por que você deixaria sua casa?"

Kellan olhou novamente pela janela. "Estou procurando meu pai", disse ele.

"O que aconteceu com ele?" Bartolomé perguntou.

"Eu não sei", disse Kellan.

"O que você fará quando o encontrar?" Amalia perguntou.

"Depende", refletiu Kellan. "Nunca o conheci, para dizer a verdade."

"Por que você quer encontrá-lo, então?" Bartolomé perguntou, curioso.

Uma faísca dourada brilhou nos olhos castanhos de Kellan. "Preciso saber mais sobre mim mesmo. Sobre quem eu sou."

Amalia entendia aquele sentimento muito bem.

"Eu suspeito", disse Bartolomé, pousando a mão no ombro de Kellan, "que quer você encontre seu pai ou não, conhecerá a si mesmo muito bem ao final de sua busca."

"Você pode estar certo." Kel riu. "Já sei que estou cansado de ser resgatado e aprisionado."

Bartolomé apontou o queixo para Amalia. "A magia dela poderia nos tirar daqui a qualquer momento, mas para onde iríamos? Estamos cercados de inimigos, e a superfície está bem acima de nós."

Ele estava certo. Ela poderia usar sua magia para reescrever o mapa, como fizera antes. Mas então o quê?

"Vejam", disse Vito. "O poder de Aclazotz!"

A luz que entrava pela janela suavizou e desapareceu, substituída por uma gavinha de névoa. Amalia levantou-se e olhou para fora. Um nevoeiro mágico cobria o edifício, tão espesso que sua mão desapareceria se ela a enfiasse pela abertura. Seu povo podia fazer isso, fazia-o frequentemente em batalha, mas por que agora?

Em outra sala, um grito sufocado morreu com um borbulho. Súplicas furtivas encontraram um baque nauseante. Quando o cheiro de sangue chegou até ela, Amalia temeu o pior. Os soldados da Legião não se alimentavam o suficiente desde que a descida começara, e seus servos humanos haviam diminuído entre o deserto e os Malamet. As regras e tradições habituais poderiam não prender aqueles que já estavam preparados para cometer atrocidades em nome de deus.

A voz de Vito preencheu novamente o silêncio. "Sigam-me, filhos da sombra. Agora reivindicamos nosso poder."

O som de madeira estilhaçando pontuou suas palavras. Onde estavam os guardas? Engolidos pela névoa? Amalia posicionou-se na frente de Kel, que protestou e moveu-se para o lado dela. Bartolomé ficou entre os dois e a porta.

"Amalia", disse Bartolomé, "se algo acontecer comigo, você deve retornar à Rainha Miralda. Conte tudo a ela." Ele olhou para ela por cima do ombro. "Prometa-me."

"Eu juro", disse Amalia, com a voz embargada.

A porta foi arrancada de seu lugar e jogada de lado. Clavileño olhou feio para Bartolomé, então se afastou para permitir a entrada de Vito. Uma marca de mão carmesim estava borrada na frente de sua armadura, olhos brilhando — com fervor religioso ou sede, Amalia não sabia.

"Aclazotz exige um sacrifício", disse Vito, seu tom suave em contraste com sua expressão e o sangue manchando sua boca.

"Ele já teve sacrifícios suficientes", retrucou Bartolomé.

"O sangue do forasteiro bastará", continuou Vito, olhando além de Bartolomé para Kellan. "Nós o levaremos a Aclazotz, que nos recompensará com um poder incalculável e trará as trevas a este lugar abrigado mais uma vez."

O olhar de Bartolomé desviou para Kellan, depois fixou-se em Amalia. Sua expressão mudou, um arregalar de olhos, um endurecer do maxilar.

Fuja , ele articulou para ela.

Eles estavam impossivelmente longe de Torrezon, cercados por guerreiros Oltec. Mas talvez, depois disso, ela e os estranhos compartilhassem um inimigo comum.

Amalia pairou sua pena sobre o mapa. Com um traço, ela poderia libertá-los.

Bartolomé saltou sobre Vito, as mãos curvadas em garras, presas à mostra. Eles lutaram, bloqueando a porta para que Clavileño e os outros soldados não pudessem intervir.

Ao lado de Amalia, Kellan puxou seus cabos de madeira do cinto. Luz dourada brotou deles e formou um par de espadas cintilantes.

Vito travou um braço ao redor da cabeça de Bartolomé e girou, o estalo terrível ecoando na pequena sala. Ele deixou o corpo cair e olhou para ele com desprezo indisfarçável.

Art by: Marta Nael

Amalia abafou um soluço enquanto firmava sua mão trêmula. Ela baixou a pena e passou-a delicadamente na borda do edifício no mapa, apagando a linha.

A parede atrás dela desapareceu. A névoa entrou, engolindo todos na sala. Kellan era visível apenas graças às suas espadas.

"Corra", disse Amalia, agarrando o braço de Kellan. A luz de suas armas desapareceu enquanto fugiam, sumindo na escuridão, com o medo em seus calcanhares como o mastim de um paladino.

Episódio 5

Quint

Como seria tocar o sol?

Quint estava em uma colina com vista para o vale que abrigava a guarnição das Mil Luas e a cidade próxima, abanando suavemente o rosto com as orelhas. A terra se curvava para cima à distância em vez de permanecer plana, enquanto abaixo, aquedutos serpenteavam entre aglomerados de pirâmides e edifícios menores, a água que carregavam acumulando-se em reservatórios de pedra. Ele observava os guerreiros do Império do Sol vestirem arreios especiais, supervisionados por membros das Mil Luas. Huatli arrulhava para seu morcego, enquanto Wayta e sua montaria já faziam círculos preguiçosos no ar.

A Regente Akal pareceu perceber a inveja de Quint. "Esta é uma cerimônia de amadurecimento para o nosso povo", disse ela. "Nossos novos primos já são maiores de idade e têm suas próprias tradições, mas estamos felizes em compartilhar isso com eles."

"Sinto-me honrado em observar", disse Quint. "Além disso, alguém tem que ficar com Pantlaza."

Ouvindo seu nome, o raptor olhou para Quint. Assim que percebeu que Quint não tinha comida, voltou para sua soneca.

Os cavaleiros de morcego lançaram-se ao ar, diminuindo gradualmente até se tornarem pontos pretos conforme se aproximavam da cauda rosa brilhante que se estendia da casca quebrada ao redor do sol. O recife de cósmio, eles o chamavam, um lugar perigoso repleto de estilhaços de metal e fragmentos dos cristais usados em suas armaduras, armas e outros dispositivos. Huatli e os outros tentariam reivindicar um pedaço daquele cósmio para si mesmos.

A Regente Akal interrompeu o devaneio de Quint. "Você é de outro plano? Não da superfície?"

"Eu sou", Quint respondeu. "Arcavios. Frequentei uma universidade lá, Strixhaven."

"Um lugar de aprendizado?", perguntou a Regente Akal.

"Sim", disse Quint. "Estudei arqueologia e arqueomancia, entre outras coisas. Quero encontrar histórias perdidas e compartilhá-las. Preservá-las para as futuras gerações."

A Regente Akal deu um zumbido baixo de reconhecimento. "Você é como nossos didatas. Eles exploram, aprendem e ensinam. Histórias são a memória do plano, e esquecer é sucumbir à escuridão. Mesmo durante a Guerra Noturna, nossas histórias foram uma luz guia."

Quint ponderou sobre como perguntar sobre a Guerra Noturna, ou o metal ao redor do sol, ou qualquer uma de um milhão de outras perguntas. Havia tanto para aprender aqui que ele mal sabia por onde começar.

Ele voltou sua atenção para os morcegos. "Isso deveria ser segredo, ou eu poderia compartilhar com meus colegas?"

"Não é segredo", disse a Regente Akal. "Mas seria melhor deixar as explicações para aqueles de nós que entendem as nuances. Eu ficaria feliz em convocar um de nossos didatas para ajudá-lo, talvez em troca de histórias e conhecimentos de sua própria casa?"

"Uma troca seria excelente." Um didata também poderia ajudar em sua pesquisa sobre o Império da Moeda. Dependendo de como as coisas progredissem, ele poderia trazer Saheeli aqui em breve, ou alguns de seus colegas de Arcavios…

Uma brisa refrescou a pele de Quint e fez os campos gramados ondularem. Quint puxou os óculos sobre os olhos para ter uma visão melhor. Dinossauros e outros animais vagavam livremente, roedores do tamanho de cães e ruminantes de pescoço longo com pelos de aparência macia. Tão pacífico.

As figuras distantes que dardejaram entre o recife começaram a retornar. Huatli estava na frente, Inti atrás dela, enquanto Caparocti e Wayta seguiam atrás deles com os outros soldados.

Arte de: Evyn Fong

Huatli pousou primeiro, desmontando e entregando seu morcego a um assistente. Ela praticamente saltitou em direção à Regente Akal, agitando um pedaço de cristal rosa.

"Eu encontrei um fragmento!" Huatli exclamou. "É grande o suficiente para um colar, você acha?"

A Regente Akal assentiu. "Você também pode adornar uma arma com ele. Uma espada, talvez?"

Uma sombra cruzou o rosto de Huatli. "Talvez", disse ela, com o entusiasmo diminuído. Ela coçou a cabeça emplumada de Pantlaza, ganhando um trinado feliz em resposta.

Inti e Caparocti deslizaram até parar, mas Wayta passou voando. Um assobio penetrante fez os cavaleiros Oltec irem atrás dela, incluindo Chara, e Quint se perguntou se ela estaria tendo problemas com sua montaria. Em um piscar de olhos, no entanto, ela deu meia-volta e pousou, mas não desceu. A sobrancelha sobre seu olho visível estava franzida, sua boca firme em uma linha sombria que espelhava a tensão em seus ombros.

"Ali", disse Wayta com calma deliberada, apontando para a extremidade oposta da guarnição através do vale. "Os vampiros convocaram uma nuvem de sua névoa amaldiçoada, maior do que o normal."

Quint não sabia o que aquilo significava, mas o resto da facção do Império do Sol ficou tenso.

"Você tem certeza?", perguntou Caparocti.

Wayta assentiu. Inti praguejou baixinho. Outro assobio agudo com uma cadência diferente anunciou o retorno de Chara. Ela, como Wayta, permaneceu montada.

"A Milésima Lua se aproxima", disse Chara. "Ela tem dois prisioneiros com ela."

A Regente Akal apoiou-se em seu cajado. "Devemos questioná-los."

Os guerreiros murmuraram entre si enquanto Wayta desmontava e parava ao lado de Quint. A forma sombria de Anim Pakal caminhou em direção a eles, com a arma pronta e o autômato gnomo ao seu lado. À frente dela, uma vampira e um homem caminhavam cansados. A vampira tropeçou e o homem a segurou, ajudando-a a recuperar o equilíbrio.

"Encontramos esses dois fugindo da guarnição", disse Anim à sua irmã.

"Não estávamos escapando", disse o homem defensivamente. "Estávamos tentando encontrar ajuda." Quint olhou para ele e percebeu que suas orelhas eram pontudas. Um elfo, ele adivinhou, o primeiro que vira em Ixalan.

"Eu sou Amália, e este é Kellan", disse a vampira. "Os outros vampiros, eles… Eles mataram nossos servos humanos e o emissário da rainha, então escaparam. Eles estão procurando por Aclazotz."

"O Traidor?", Anim perguntou, recuando chocada. "Ele está preso há eras."

"Você sabe onde ele está?", perguntou Amália.

A Regente Akal empalideceu e apertou seu cajado com mais força. "Não, mas alguns entre os Oltec ainda o adoram, e podem ter passado esse conhecimento adiante." Ela olhou para o sol, fechando os olhos. "Se os vampiros encontrarem esses aliados, poderão finalmente ser poderosos o suficiente para libertar o deus morcego de sua prisão. Ninguém no Núcleo estará a salvo de sua sede de sangue interminável."

Exatamente o que precisamos, pensou Quint. Um deus violento tentando matar todos por diversão.

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Malcolm

Uma hoste de criaturas fúngicas se aproximou enquanto o Micotirano olhava para Malcolm e Calças de seu poleiro com teias na caverna, o brilho verde em seus olhos inescrutável.

"Chega de conversa lenta", disse ele, ainda usando Xavier como um fantoche. "Nós os assimilaremos e ascenderemos à superfície e ao seu sol."

Malcolm planejou mentalmente quão rápido poderia voar para longe com Calças, e se isso importaria quando a única saída estava guardada.

Deve haver outra saída. Ele aguçou seus sentidos para sentir as correntes de ar e encontrou um túnel atrás do Micotirano. Uma brisa suave vinda daquela direção trazia o cheiro e a sensação de um grande corpo d'água. Aqui? Debaixo da terra?

"GRANDE ESTRONDO?", perguntou Calças, seu sussurro desajeitadamente alto.

Malcolm olhou para cima e depois ao redor, seu olhar caindo sobre um dinossauro incrustado de cogumelos. Ele se lembrou da luta na caverna e sorriu.

"Deixe-me tentar algo primeiro", disse Malcolm. "Tape seus ouvidos."

Calças obedeceu. Respirando fundo, Malcolm começou a cantar.

Os olhos do Micotirano se fecharam e todos ao redor de Malcolm congelaram, atordoados. Ele continuou a cantar, pegando Calças e puxando-o em direção à saída que levava à água. Eles passaram por mais figuras imóveis, e até mesmo as árvores de cogumelo pareciam quiescentes. Ele se perguntou se sua proximidade com o Micotirano fazia sua magia afetar toda a colônia, como a criatura chamava sua horda de fantoches.

Ele encontrou o túnel, grato pela luz em seu ombro, já que o fungo brilhante havia escurecido. Calças manteve as mãos sobre as orelhas enquanto o seguia. Malcolm não tinha certeza de quanto tempo sua magia funcionaria, mas cantou até estarem profundamente na rocha, esperando que ela ecoasse e mantivesse os monstros sob seu domínio até que ele e Calças estivessem seguros.

Um grito horrível de muitas bocas ecoou atrás deles. Ele realmente precisava parar de ter esperanças.

"Corra", disse Malcolm, e disparou em disparada.

Calças correu, seu andar gingado mantendo o ritmo de Malcolm. Luz verde irrompeu ao redor deles, crescimentos fúngicos retorcendo-se e alcançando-os conforme passavam. Ele não ousou olhar para trás por medo de que isso o atrasasse o suficiente para ser pego.

A sensação e o cheiro da água se fortaleceram. Uma luz surgiu à frente, mais azul do que verde, com leves formigamentos de magia intercalados. Arauto do Rio, mas também algo mais. Algo mais antigo e poderoso.

Sem aviso, o túnel terminou em um pequeno penhasco. Abaixo dele, um oceano se estendia tanto que ele não conseguia sentir o fim, enquanto mais perto de sua posição, uma cidade dourada apinhava as margens e descia para as profundezas. Tritões nadavam com propósito ou demoravam-se na costa, alguns guardas apontando para ele e Calças enquanto outros continuavam seus afazeres sem saber da incursão iminente.

"Chegando!", gritou Malcolm, imbuindo magia em sua voz para fazê-la carregar. Ele agarrou Calças e mergulhou sobre a água, inclinando-se em direção à cidade.

As forças do Micotirano irromperam do túnel. Malcolm finalmente arriscou um olhar para trás. Parecia que cada residente infectado da Cidade Baixa estava em seu encalço, caindo na praia ou espirrando desajeitadamente na água. Seus números eram superados por dinossauros semidecompostos e povo-gato, além daqueles cogumelos ambulantes assustadores, alguns empunhando armas enquanto outros reuniam magia para si mesmos. Pior, buracos no teto da caverna expeliam criaturas voadoras, dinossauros e morcegos gigantes tão incrustados de fungos que lutavam para permanecer no ar.

O caos da batalha destruiu qualquer serenidade que o lugar desfrutasse. Tritões sacaram armas, ativaram os encantamentos em suas armaduras, tiraram totens de jade e convocaram enormes criaturas elementais para repelir a invasão fúngica. Fogueiras ambulantes lançavam jatos de chama, enquanto trombas d'água colossais derrubavam inimigos do ar, enviando-os girando para a perdição.

No topo de uma pirâmide como as do Império do Sol, uma porta se abriu para um espaço que prometia céus impossíveis, se Malcolm e Calças conseguissem alcançá-la…

Arte de: Piotr Dura

Uma guerreira tritã surgiu diante de Malcolm, brandindo um cajado com ponta de jade. Ele parou derrapando.

"Quem são vocês?", perguntou ela.

"Malcolm Lee, ao seu dispor", disse Malcolm, fazendo uma reverência educada. "Este é Calças, meu associado."

Calças tocou seu chapéu.

"Piratas", disse a tritã, a boca se contorcendo com desgosto. "Eu sou Nicanzil. Que mal vocês trouxeram às nossas praias?"

"Chama a si mesmo de Micotirano", disse Malcolm. "Transforma pessoas em cogumelos."

Nicanzil ponderou sobre isso, suas barbatanas movendo-se atrás dela. "Este deve ser o perigo que o Império do Sol mencionou. Nosso povo além da porta dourada deve ser avisado de que ele está mais perto do que sabiam."

Se avisá-los significasse escapar por aquela porta, Malcolm estava pronto para obedecer. "Vamos", disse ele a Calças. "Vamos soar o alarme."

Calças mostrou os dentes em assentimento enquanto desembainhava suas três espadas — uma para cada mão e uma com a cauda — e juntos atravessaram o campo de batalha, esquivando-se de combatentes enquanto Malcolm mirava infalivelmente na promessa de céus abertos.

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Vito

Venha a mim…

A voz de Aclazotz chamava Vito mais claramente do que nunca. Ele liderava os vampiros restantes de sua expedição pelos amplos caminhos da guarnição, envoltos em uma névoa impenetrável. Apesar de Bartolomé ter frustrado seu sacrifício pretendido, ele finalmente tivera sua vingança contra aquele espinho da Rosa Negra. Seu corpo pulsava com o sagrado sacramento que consumira e a antecipação de mais por vir.

Vozes clamavam na névoa, carregadas de confusão, bravata e, mais do que tudo, medo. Clavileño e os outros soldados encontraram e silenciaram alguns, banqueteando-se em um êxtase de sangue. As palavras do Venerável Tarrian ressoavam na mente de Vito como os batimentos cardíacos das pessoas que ele espreitava.

Abençoados são os fracos, pois eles alimentarão os fortes.

Abençoados são os pacíficos, pois eles cederão sem luta.

Abençoados são os implacáveis, pois eles não necessitarão de misericórdia.

Um brilho vermelho apareceu na névoa, caminhando em direção a Vito. Ele abaixou sua lança para atacar.

"Vito Quijano de Pasamonte", sussurrou a figura misteriosa. "Fui enviado para guiá-lo até Aclazotz."

Poderia ser um truque? Certamente ninguém ousaria.

"Estou pronto", disse Vito, erguendo a lança como um estandarte.

Eles deixaram a guarnição e pisotearam campos cuidadosamente cultivados, passando por propriedades isoladas cujos habitantes se encolhiam de medo, finalmente descendo às profundezas de um pântano fétido. A pele dos vampiros estava tão pálida quanto o musgo pendurado como barbas de velhos nos galhos retorcidos ao redor deles. Botas chafurdavam em lama na altura do tornozelo que cheirava a ovos podres e decomposição, e quaisquer sons e cantos de animais que outrora pudessem ter dado vida à terra silenciaram-se como sob um feitiço. Mais pessoas se juntaram a eles, carregando ou vestindo cristais que brilhavam em um vermelho opaco, até que um verdadeiro exército viajava invisível dentro da névoa que serpenteava entre as árvores e transformava o sol em um fantasma debilitado. Alguns deles arrastavam prisioneiros com olhos vítreos pela lama, presumivelmente sacrifícios iminentes para Aclazotz.

"Quem são vocês?", perguntou Vito.

"Somos os servos de Aclazotz", respondeu a figura. "Adoramos nosso mestre desde que ele foi aprisionado, esperando pelo dia de sua salvação."

Vito hesitou com a menção de aprisionamento. Ele assumira que Aclazotz apenas aguardava seu tempo, parte de um plano maior — não que ele tivesse sido preso aqui, neste lugar sem noite. O pai dos vampiros, enjaulado.

Então, uma onda de orgulho superou aquele lampejo de dúvida. Ele era o instrumento de seu deus, um salvador. Ele realizaria a visão do Venerável Tarrian, superando a decepção que fora Santa Elenda. Uma nova e pura era começaria em Torrezon, com ele liderando os fiéis.

Vito não sabia por quanto tempo caminhou pelo pântano. Certa vez, ele poderia ter se surpreendido por seus inimigos não o terem encontrado, cavalgando seus morcegos pelos céus. Certamente a névoa seria visível de longe. Mas Aclazotz trabalhava de maneiras misteriosas, e Vito confiava em seu deus para garantir o sucesso de seu santo escolhido.

Antes que ele pudesse perguntar quanto tempo faltava para chegarem ao destino, a névoa se dissipou, revelando a boca de uma caverna. Nada nela marcava o local como especial; nenhum sinal ou símbolo estava gravado na pedra exposta, nenhum degrau de templo convidava à entrada, nenhum ouro ou prata adornava a entrada ou o túnel adiante. Poderia ter sido qualquer caverna em qualquer lugar de todo o plano, e Vito sabia que seu anonimato fazia parte de seu poder.

Vito havia perdido as velas mágicas que iluminavam seu caminho pelas cavernas do subterrâneo. As luzes vermelhas dos servos de Aclazotz o guiavam, primeiro por um corredor estreito que poderia ter sido formado naturalmente, depois por um túnel lateral que fora claramente aberto por garras de acordo com algum projeto inteligente. O fedor de podridão permeava o espaço, como se aquele fosse um monturo ou necrotério em vez do santuário de uma divindade.

Ele veria Aclazotz devidamente adorado em templos dignos de Sua Majestade, e seus inimigos sofreriam por sua impertinência.

O túnel terminava em uma porta estranha, rodeada de símbolos e gravuras que ele não reconhecia, com um buraco escancarado em seu centro. A figura que o conduzia retirou algo de suas vestes, um pedaço de cristal rosa que brilhava com uma luz interior.

"Esta é a chave", disseram eles, entregando-a a Vito. "Coloque-a dentro e seja marcado como digno… ou seja destruído."

Vito não duvidava de seu valor. Ele pegou o cristal e o colocou na cavidade.

Um anel de pedras prendeu seu braço, tornando-o incapaz de se mover. O brilho rosa do cristal aumentou e, com ele, veio uma dor lancinante, como se seu punho tivesse sido mergulhado no sol. Vito cerrou os dentes até que suas presas perfuraram seu lábio, o sangue escorrendo pelo queixo. A sensação mudou de fogo para gelo enquanto o fluxo de vitalidade de suas alimentações recentes se esvaía dele, despejando-se na cavidade até que ele tremeu, mais exaurido do que se sentira desde seu último Jejum de Sangue. Seus joelhos ameaçaram ceder, mas ele os forçou a se endireitarem e suportarem seu peso. Ele não falharia com Aclazotz, agora ou nunca.

A dor e a pressão desapareceram, e Vito puxou o braço para fora. Luz carmesim espalhou-se pelos glifos ao redor da porta, e ela rolou para o lado com um estrondo profundo.

"Você pode entrar no santuário", disse seu guia.

Uma fachada de templo adequada o aguardava, suas colunas erguendo-se a quatro vezes a altura de Vito. Um fluxo de morcegos irrompeu da entrada, como se para marcar a ocasião de sua chegada. Ele esperou que passassem e então continuou sua procissão, Clavileño e os outros atrás dele como uma guarda de honra.

Arte de: Cristi Balanescu

Uma pequena antecâmara abria-se para um vasto anfiteatro com fileiras de assentos em níveis. Glifos esculpidos nas paredes banhavam a multidão reunida em uma luz vermelho-sangue, e mil rostos pálidos voltaram-se para observar Vito entrar. Ele ergueu a lança de Tarrian mais alto, descendo para encontrar seu destino, para alcançar a figura no centro da sala.

"Venha a mim", disse a voz, tão familiar para Vito agora quanto seu próprio nome.

Aclazotz.

O deus morcego estava agachado no chão, envolto por suas asas e envolvido em voltas de grossas correntes douradas incrustadas com centenas de cristais rosas. Seu corpo tinha o marrom de sangue velho e seco, as asas douradas e esfarrapadas onde roçavam a pedra abaixo dele. Um colar de crânios pendia de seu pescoço, e uma coroa preta e dourada adornava sua cabeça, proclamando sua divindade a qualquer um que olhasse para ele.

Um único olho vermelho perfurou Vito com a força de seu olhar, e ele caiu de joelhos em adoração.

"Meu mestre", murmurou Vito, a voz embargada pela emoção. "Eu vim."

Aclazotz respirou fundo, num som farfalhante. "Meu sono foi perturbado pelos invasores da superfície", disse ele. "E por isso, chamei a todos vocês, meus filhos da noite. O tempo de minha ascensão está próximo."

"Nós nos ergueremos", entoaram os comedores de cósmio reunidos.

"O fim da Quinta Era está sobre nós", continuou Aclazotz. "A luz de Chimil será extinta, e minha escuridão será absoluta. Vocês, meus escolhidos, servirão ao meu lado, gloriando-se na salvação da vida eterna. Tragam os sacrifícios."

Um lamento surgiu de uma caverna à esquerda de Vito. As pessoas que haviam sido arrastadas pelo pântano estavam presas lá dentro, amontoadas como cordeiros no mercado. Vito levantou-se e aproximou-se delas, gesticulando para que seus soldados o servissem.

"Não temam a morte", disse Vito calmamente. "Seu sangue dará origem ao poder, à glória e ao reino eterno de Aclazotz, agora e para sempre."

Um a um, os prisioneiros foram entregues ao deus morcego, que se banqueteou com suas essências enquanto Vito respeitosamente desviava o olhar. Os corpos foram arrastados e jogados em um fosso, leves rastros de sangue marcando sua passagem. Com cada morte, o olho sinistro do deus brilhava mais, um farol na sala sombria.

E então estava feito. Aclazotz encolheu-se sobre si mesmo, então, com um grito lancinante, ergueu-se e forçou suas amarras. Os cristais rosas nas correntes piscaram loucamente e depois perderam o brilho, tornando-se do mesmo vermelho do olho do deus. Uma explosão de magia atingiu todos na sala enquanto os elos de ouro se quebravam em uma dúzia de lugares. Com um poderoso sacudir de ombros, Aclazotz enviou as correntes espalhando-se pelo chão. Ele ergueu-se em toda a sua altura e esticou as asas, e Vito caiu de joelhos novamente em reverência.

"Venham a mim", entoou Aclazotz. "Recebam minha bênção."

Vito alcançou o deus primeiro, prostrando-se. "Eu sou digno", disse ele.

"Então minha aliança eterna será sua."

Aclazotz inclinou-se até que seu hálito embaçou o rosto de Vito, cheirando a sangue e a alguma flor docemente enjoativa em meio à decomposição. As presas do deus alongaram-se e afiaram-se. Em um flash, ele as enterrou profundamente no pescoço e no torso de Vito. Vito gritou. A dor espalhou-se por seu peito, depois por seus membros, um fogo além de qualquer coisa que o sangue já inflamara em suas veias. Músculos espasmados e ossos estalaram e se reformaram, pontos pretos dançando em sua visão enquanto a inconsciência ameaçava tomá-lo. As presas de Aclazotz o soltaram, e ele percebeu vagamente que os outros ao seu redor estavam sendo abençoados também, um após o outro.

Arte de: Antonio José Manzanedo

A magia recuou, e Vito estremeceu com a profusão de sons e aromas que subitamente exigiam sua atenção. As luzes vermelhas opacas dos cristais brilhavam como tochas, mesmo quando todas as outras cores eram eliminadas da sala. Suas vestes outrora imaculadas agora pendiam em farrapos de sua estrutura maior, rasgadas por sua transformação e pelas atenções de Aclazotz. Ele girou novas orelhas em direção a Clavileño, que terminara sua própria transformação e voltava olhos miúdos para Vito.

Onde outrora vampiros se ajoelhavam, novas criaturas estavam de pé, suas formas ecoando as de seu mestre. Mantiveram suas armaduras e armas, mas suas mãos agora terminavam em garras cruéis. Vito flexionou as asas, presas mais longas projetando-se de sua boca aumentada.

"Venham", disse Aclazotz. Ele lançou-se ao ar, saindo da sala através de um amplo buraco no teto.

Vito seguiu sem hesitação, seus camaradas abaixo dele. Passaram por um túnel escuro tornado brilhante pelos ecos de seus gritos coletivos, até que um ponto de luz distante cresceu para revelar o mundo além. Emergiram das cavernas, uma legião preparada para lutar pelo deus que os dotara com seu poder. O primeiro flash do brilho brilhante do sol feriu seus olhos, mas logo se ajustaram, e a terra estendeu-se diante dele em tons de preto absoluto, branco osso e cinza enevoado. Correntes de ar giravam ao redor deles, carregando miríades de aromas, tanto familiares quanto desconhecidos — a rica decomposição do pântano, o almíscar dos animais, nuvens carregadas de umidade e, logo à frente, morcegos e humanos misturando-se. Voaram para cima, cada vez mais alto, até alcançarem a longa trilha de metal tingido de rosa que se arqueava para longe do sol.

Aclazotz pairou, seu olho mais uma vez brilhando enquanto voltava o olhar para a luz. "Chimil", sussurrou ele, dirigindo-se ao sol brilhante do Núcleo. "Assim como fui consignado à minha prisão, você também será. Consumirei seus preciosos Oltec como fiz com seus ancestrais, como consumi sua prole divina medíocre para fechar o véu entre a morte e a vida. Finalmente encerrarei a Quinta Era, e meus filhos trarão a Sexta Era para o plano."

Suas maiores asas abriram-se amplamente, então começaram a se fechar, lentamente, esforçando-se como se estivesse movendo um peso impossivelmente pesado.

O metal ao redor do sol deslocou-se, peças girando e travando-se como um recipiente quebrado sendo remontado. O que era precisamente o que era: Aclazotz usava seu poder para reformar uma esfera despedaçada que em breve aprisionaria Chimil.

Arte de: Campbell White

A sombra daquela prisão caiu sobre a terra, envolvendo-a em uma escuridão mais profunda do que qualquer noite em Torrezon. Os olhos alterados de Vito vibraram com a mudança, a riqueza das texturas da paisagem tanto ouvida quanto vista.

Com um suspiro áspero, Aclazotz fechou as asas e caiu no chão, impactando com um som de trovão. Vito pousou ao seu lado enquanto o deus lutava para ficar de pé, olhando furiosamente para os raios de luz restantes que escapavam das paredes de metal do sol.

"Mais", disse Aclazotz. "Exijo mais sacrifícios. Vocês os trarão para mim."

"Tua vontade será feita", disse Vito. Ele gritou seu comando para a Legião reunida, e a resposta deles ecoou pelas montanhas até sacudir os alicerces do plano.

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Wayta

O sol escureceu, e Wayta lutou contra o impulso de pânico, suor frio acumulando-se na base de suas costas.

Ela cavalgava seu morcego em direção às nuvens de névoa que cobriam a guarnição das Mil Luas e os pântanos e montanhas além. Haviam perdido tempo vasculhando as aldeias e áreas periféricas em busca dos vampiros que escaparam, encontrando Oltec amontoados em suas casas e sinais de violência nas ruas. O destino deles era incerto até que um enxame de criaturas saiu disparado de uma caverna, liderado por um morcego tão grande quanto três ou quatro pessoas em pé, uma após a outra: Aclazotz.

A princípio, Wayta presumiu que os monstros com ele fossem outros morcegos, mas sua luneta contou outra história: eram vampiros, corrompidos de alguma forma, transformados em abominações que se assemelhavam ao seu deus imundo, mas ainda vestindo suas armaduras e carregando suas armas. A Legião seguiu direto para o recife de cósmio, parando em sua borda. Antes que o primeiro entre os Oltec pudesse alcançá-los, a luz começara a desaparecer como se uma cortina estivesse sendo puxada sobre uma lanterna.

A guerra contra os phyrexianos fora assim. O dia subitamente transformando-se em noite enquanto o inimigo obscurecia o sol. Os gritos de seus aliados, de seus amigos, transformando-se em soluços, apelos, orações — e então silenciados. A onda de memórias atingiu o auge, e ela a navegou como um navio em uma tempestade, tentando não virar.

Huatli planou até ela, cavalgando seu próprio morcego, seu fragmento do Sol Triplo iluminando seu rosto como fizera nas cavernas mais escuras.

"Respire, pequena guerreira", gritou Huatli. "A vitória será nossa hoje."

Ainda era dia? Não importava. O sentimento permanecia, mesmo que ela o tivesse ouvido ser proferido por tantos que não viveriam para ver outra hora.

"A prisão de Chimil está sendo refeita", gritou a líder de voo de sua montaria. "Devemos deter o traidor Aclazotz, ou Chimil será selado lá dentro novamente."

Wayta não queria outra guerra. Nem com um suposto deus, nem com os vampiros abandonados pelo sol, nem com ninguém. Mas ela lutaria esta batalha, a que estava diante dela, a que lhe fora imposta. E ela venceria.

Arte de: Raoul Vitale

Os cristais no adereço de cabeça da líder de voo brilhavam como uma constelação rosa, assim como gemas semelhantes nos outros cavaleiros de morcego. Abaixo, por toda a terra, em guarnições e aldeias, cidades e cabanas, as pessoas convocavam luz para si mesmas. Chamas isoladas e fogueiras, brilhos trêmulos e faróis constantes. Wayta ainda não conhecia bem esses Oltec, mas sentia um parentesco com eles, com essa recusa em curvar-se ao peso da sombra.

"Ainda acha que deveríamos deixar Torrezon em paz?", gritou Caparocti para Huatli.

"Isto não é Torrezon", respondeu ela, os olhos escuros frios. "Mesmo assim, esses monstros nunca mais verão sua terra natal assim que os alcançarmos."

"Aí está a guerreira-poeta que todos conhecemos e amamos", brincou Inti. "Dê-nos um poema antes de partirmos para a batalha."

Caparocti revirou os olhos, mas Wayta ouviu o melhor que pôde, não querendo que as palavras se perdessem no vento que assobiava ao passar.

O olhar de Huatli tornou-se distante, então mudou para encontrar o de Wayta. Quando ela falou, foi alto, desafiador.

Nós não tememos a pequena bruma

Nós suportamos furacões

Nós não tememos a noite que cai

Nós nos erguemos com o Sol Triplo

"Pelo Sol Triplo!", gritou Caparocti. As tropas do Império do Sol ecoaram suas palavras, e os cavaleiros de morcego Oltec soltaram um assobio feroz que enviou arrepios pelo pescoço de Wayta.

Um grito terrível ecoou da Legião. Alguns dos morcegos guinaram descontroladamente ou corcovearam, quase derrubando seus cavaleiros. A montaria de Wayta gritou de volta e mergulhou, o estômago dela subindo à garganta enquanto lutava para recuperar o controle.

As abominações vampíricas voaram em direção à força Oltec.

Enormes asas de morcego mantinham essas criaturas estranhas no ar. Olhos miúdos encaravam de rostos pálidos e magros com narizes achatados e orelhas enormes. Alguns ainda usavam seus elmos, outros suas armaduras de placas, enquanto outros devem ter sido Oltec outrora, dados seus ponchos rasgados e quipus. Gritaram novamente quando a vanguarda dos cavaleiros os alcançou, lanças e magia rosa brilhante colidindo com espadas e ondas doentias de vermelho.

Um da Legião do Crepúsculo investiu contra Wayta, brandindo sua espada. Ela sacou a sua, acionando a pedra mágica que a estendia em uma lança. Ela esperou, aguardando seu tempo, o foco estreitando-se para absorver velocidade e distância. O vampiro-morcego estava quase ao alcance de ataque quando ela incitou sua montaria a um mergulho raso, golpeando para cima. Sua lâmina abriu um corte profundo na asa de seu inimigo e, com um grito, ele girou em direção à terra.

Perto dali, Huatli perseguia um par de morcegos comedores de cósmio, enquanto um das Mil Luas lutava contra uma criatura com uma lança alta de aparência familiar. Wayta moveu-se para flanquear, mas outro vampiro avançou sobre ela. Ela inclinou seu morcego para evitar a espada dele, e então por pouco não foi atingida por outro ataque vindo de seu lado cego. Com um grunhido irritado, ela puxou sua montaria para cima para observar a batalha do alto. Os redemoinhos do recife de cósmio flutuavam ao seu redor, fluxos de cristais pequenos como gotas de chuva. Teria sido lindo, se o sangue de seus aliados e inimigos não estivesse se juntando à nuvem.

Assim sempre seria, pensou ela sombriamente. Sangue no céu, sangue na pedra, sangue nos rios e na espuma do mar.

Um brilho dourado chamou sua atenção, cintilando na luz fragmentada do sol. A porta na base da montanha, aquela pela qual haviam passado para entrar nesta nova terra. Alguém voou para fora dela — outro vampiro-morcego? Não, uma sereia? Uma que ela tinha quase certeza de reconhecer.

Uma torrente de escuridão esverdeada jorrou pelo portal atrás dele. Criaturas fúngicas, como as que ela e os outros guerreiros do Império do Sol haviam combatido na cidade deserta perto do rio subterrâneo. Centenas delas, talvez milhares.

Todas se preparando para enxamear a guarnição.

"Sempre chove quando está molhado", resmungou Wayta.

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Malcolm

O ar livre não era o bálsamo que Malcolm esperava, apesar de sua doçura relativa após tanto tempo chapinhando em cavernas estagnadas. Seus inimigos perseguiam seus calcanhares, lançando bombas de esporos e lançando cordas de fungos para prender as pessoas ao chão. Pior, por mais intrigante que aquela nova terra pudesse ser, inclinando-se para cima para cercar o céu, parecia haver outra batalha já em andamento.

Malcolm colocou mais distância entre si e a massa fervilhante de cogumelos sencientes, tentando manter um olho em Calças. As três lâminas do goblin giravam e cortavam como um ceifador ceifando um campo, mas ele seria dominado se reforços não se manifestassem logo.

Quanto mais Malcolm voava em direção ao estranho sol sombreado no centro daquele lugar, mais as correntes de ar mudavam — não, desaceleravam, como se alguma força mágica as tornasse sonolentas. Suas penas estufaram ligeiramente, o peso de seus membros diminuindo quase imperceptivelmente, e ainda assim ele percebeu. Era incrível. Atraía-o como uma mariposa para a chama, ou um peixe para o anzol.

No recife flutuante de metal infundido com cósmio, pessoas montadas em morcegos guerreavam com — pessoas-morcego? Usando armadura da Legião do Crepúsculo? Ele piscou em confusão. Alguns dos cavaleiros eram do Império do Sol, se sua armadura e as luzes que carregavam servissem de indicação, mas como haviam encontrado aquele lugar? E por quê?

Uma delas chamou sua atenção: um rosto familiar de High and Dry, ou melhor, uma arma e um tapa-olho reconhecíveis. Ela se afastara do centro da luta e agora olhava em sua direção. Malcolm correu em direção a ela, e ela fez o mesmo, cada um combatendo o vampiro ocasional com asas de morcego até que os dois se encontrassem no meio.

"Wayta", disse Malcolm, aliviado. "O que está acontecendo aqui?"

"Deixe-me explicar", disse Wayta, então fez uma pausa. "Não, há muita coisa. Deixe-me resumir. Os vampiros se transformaram em monstros morcegos e o deus deles aprisionou o sol. E você?"

"Um cogumelo gigante está infectando as pessoas e transformando-as em seus fantoches para poder dominar o plano."

Wayta bufou. "Ele terá que entrar na fila. Você acha que ele poderia infectar um deus?"

"Melhor não descobrir", disse Malcolm, suas penas arrepiando-se de inquietação.

"Siga-me", disse Wayta. "Devemos avisar a regente, se ela ainda não souber."

Ela o conduziu para cima — não, para baixo — até um aglomerado de humanos vestidos com trajes desconhecidos, bem como uma vampira e dois estranhos. De fora do mundo, como Vraska e Jace foram, se ele tivesse que adivinhar. E aqueles phyrexianos malditos.

Um daqueles forasteiros correu imediatamente, um loxodonte com óculos na cabeça. "Wayta!", exclamou ele ofegante. "Tudo bem lá em cima? O que está acontecendo? Quem é seu amigo?"

Wayta sorriu. "Quint, este é Malcolm Lee. Tudo está uma bagunça, e há uma horda daqueles cogumelos ambulantes jorrando pela porta dourada."

Quint pareceu refletir sobre isso. "Quanto é uma horda?"

"Quantos cogumelos formam uma floresta?", respondeu Malcolm.

"Cogumelos?", perguntou o jovem de orelhas pontudas. "Eles são venenosos?"

Malcolm riu sombriamente. "Muito pior. Eles são ambiciosos."

A mulher vampira suspirou. "Que os santos nos protejam da ambição."

Alguém mais se aproximou, uma mulher usando um adereço de cabeça elaborado e apoiando-se em um cajado. "Este é realmente um tempo de conflito", disse ela. "Eu sou a Regente Akal, e parece que você nos trouxe mais problemas."

"Não de propósito", disse Malcolm. "Vim para resolver o mistério do que aconteceu com meu povo e, infelizmente, encontrei a resposta. Ela disse que vocês o chamam de Micotirano."

A Regente Akal franziu os lábios rugosos. "Minha irmã estava mobilizando as Mil Luas para montar uma defesa, mas entre isso e Aclazotz, nossas forças estarão dispersas." Ela gesticulou para um soldado que estava por perto, que correu e saudou. "Envie outra convocação urgente através das torres para quaisquer jardineiros disponíveis."

Malcolm suspirou de alívio. Isso não acabara, mas ele e Calças não estavam mais sozinhos em sua luta.

Calças. Oh não.

"Wayta", disse Malcolm. "Você pode me ajudar a dar carona a alguém?"

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Vito

Esta batalha seria imortalizada nas novas escrituras de Aclazotz pelo resto dos tempos.

Vito esquivou-se de uma onda de magia de uma cavaleira de morcego Oltec, então a trespassou pelo abdômen com sua lança. Apenas o arreio impediu que ela caísse para a morte enquanto desabava sobre a sela. O cheiro de seu sangue adoçou o ar, e Vito gritou em triunfo.

Ao seu redor, fluxos de pó rosa cintilante escureceram conforme os sacrifícios convertiam o poder do recife, curvando-o à vontade de Aclazotz. Em breve, o deus terminaria o que começara, e a luz traiçoeira deste mundo interior seria extinta.

Seus soldados perseguiam seus inimigos implacavelmente, fazendo manobras pelo céu, golpeando humanos e morcegos por igual. Clavileño inicialmente formara fileiras, mas logo a luta transformou-se em um combate generalizado frenético. Espada combatia lança, dentes e garras rasgavam feitiços, e as criaturas transformadas alternadamente banqueteavam-se e carregavam humanos de volta para Aclazotz. A que Vito atingira sucumbiu a esse mesmo destino quando um vampiro corpulento em um poncho rasgado estraçalhou seu arreio e a arrancou de sua montaria. O grito dela desapareceu na escuridão, e Vito passou para seu próximo oponente.

Clavileño passou voando, trocando golpes de espada com um guerreiro robusto do Império do Sol empunhando um cajado com uma lâmina em cada extremidade. A arma arrancou o elmo de Clavileño, e o vampiro mal se esquivou de um segundo golpe que teria aberto sua garganta. Em vez disso, cortou sua orelha ao meio. Ou Clavileño não sentiu dor, ou isso não o incomodou, porque ele renovou seu ataque com maior ferocidade.

Antes que Vito pudesse intervir, outro guerreiro desceu sobre ele, armado com um escudo e uma espada larga e longa. Deste ele se lembrava das apresentações entre os Arautos do Rio: Inti, senescal do sol. Quão apropriado para ele encontrar seu fim aqui, enquanto Aclazotz apagava a luz deste sol.

"Pelo poder e glória de Aclazotz!", rosnou Vito, lançando-se contra o intruso.

O escudo de Inti afastou a lança de Vito, sua espada golpeando em direção ao pescoço de Vito. Vito planou para trás, o golpe assobiando inofensivamente pelo ar vazio. Ele golpeou novamente com sua lança, e novamente seu ataque foi desviado. Eles circularam um ao outro no ar, sol e sombra, fogo e fumaça. O senescal moveu seu escudo para expor a luz em seu cinto, cegando temporariamente Vito, que recuou com um sibilo.

"Não gosta do poder do Sol Triplo, sugador de sangue?", provocou Inti, aproveitando sua vantagem temporária ao desferir uma enxurrada de golpes. Ele não percebeu Clavileño planando silenciosamente em sua direção.

Vito mostrou suas presas recém-alongadas. "Meu deus me concedeu algo maior que o seu, fracote."

"O que é?", perguntou Inti.

"O poder de voar." Vito cravou sua lança em um único e poderoso golpe — direto no crânio da montaria de Inti. O morcego estremeceu e ficou inerte, então começou a cair, com Inti ainda preso à sela.

O guerreiro lutou para soltar as travas que o prendiam à montaria e, ao fazê-lo, deixou-se vulnerável. Clavileño circulou atrás dele e agarrou a cabeça de Inti em uma garra enorme.

"Glória a Aclazotz", disse Vito. Clavileño quebrou o pescoço de Inti e ambos os corpos, humano e morcego, caíram na escuridão.

"Inti!" Um grito de perto. A guerreira-poeta em sua própria montaria, mergulhando em direção ao seu camarada caído.

Vito a seguiu. Ela também seria um excelente sacrifício.

Episódio 6

Huatli

Inti está morto.

A batalha rugia no céu, guerreiros do Império do Sol e Oltecs perseguindo os distorcidos soldados da Legião do Crepúsculo através dos detritos revoltos do recife de cósmio. No chão, Huatli embalava o corpo quebrado de seu primo, ajoelhada no solo salpicado de sangue de uma terra distante de casa.

Ela havia falhado em protegê-lo. A morte era a companheira constante de um guerreiro, mas ninguém caía ansiosamente em seu abraço. O que ela diria à sua família? Cada palavra de conforto que ela já oferecera aos entes queridos de um camarada perdido transformava-se em areia em sua boca.

Uma rajada de vento e o bater de asas sinalizaram a chegada de seu inimigo. Vito carregava a mesma lança que empunhara quando ela o encontrou na cidade subterrânea dos Arautos do Rio, mas sua forma estava corrompida, uma combinação vil de homem e morcego.

"Aclazotz ficará satisfeito quando eu entregar você a ele", disse Vito, sua voz mais rouca, as presas mais longas. "A vitória dele está próxima."

Huatli levantou-se, preparando sua espada e seu escudo de bordas afiadas. Tilonalli, castigue meus inimigos, ela orou silenciosamente.

Vito a circulou, sua lança apontada para o coração de Huatli. "Quando retornarmos a Torrezon, serei tornado um santo. Trarei ao meu povo o evangelho puro do sangue, imaculado por nossa rainha fraca e pela falsa Santa Elenda. Os fiéis se reformarão para aceitar os verdadeiros ritos de Aclazotz ou serão expurgados."

Esse conhecimento agradaria Caparocti, se ele ainda vivesse; seria mais fácil invadir Torrezon se os vampiros já estivessem se matando uns aos outros. Neste momento, porém, Huatli mal se importava.

Vito estocou. Huatli golpeou a ponta de sua lança para baixo enquanto se esquivava para o lado. Ele golpeou repetidamente, enquanto ela dançava fora de seu alcance.

"Juntos, Vona e eu governaremos ao lado de nosso mestre", ele continuou. "Habitaremos em sua casa por toda a eternidade, enquanto os fiéis que o serviram em seu confinamento governarão aqui. Uma aliança de sangue e poder."

Ele nunca pararia de falar? Huatli vigiava por uma abertura. Ela precisava virar esta luta a seu favor.

"Eu deveria deixar você viver", disse Vito, arreganhando os dentes. "Quem melhor para tornar minhas palavras canônicas do que a poeta de meu inimigo caído? Quem melhor para levar o conto de minha vitória ao império que em breve não será nada além de uma memória?"

Huatli estendeu seus sentidos, alcançando com sua magia a terra ao seu redor, procurando. Chamando. Ouvindo seu chamado ser respondido.

"Onde estão seus belos discursos, Guerreira-Poeta?" Vito provocou. "O retorno de Aclazotz travou sua língua? Ou foi a morte de seu precioso senescal?"

Huatli caiu de joelhos, esticando sua magia até se sentir como uma camada de borracha fina como papel. Os sons ao seu redor desapareceram. Ela chamou as montanhas e florestas, os campos e vales. Mais vozes responderam, até que sua cabeça girou com o esforço de conter todas elas.

"Você deseja se lançar à minha mercê?" perguntou Vito. Ele golpeou novamente, a ponta de sua lança escorregando na armadura de seu braço. A dor galvanizou sua vontade.

Huatli levantou-se, balançando sob o ataque das multidões que convocava. Vito tentou derrubá-la, mas ela dançou para trás, anos de treinamento tornando-a ágil apesar da magia dividindo seu foco.

Vito saltou no ar, usando a altura e a distância a seu favor. Huatli não conseguia alcançá-lo, não conseguia atingi-lo, podia apenas continuar a afastar os golpes dele com seu escudo. Seus músculos já doíam pelo esforço. Logo ela se cansaria. Logo ela cairia.

Ainda não. Não até que Inti fosse vingado. O chão tremeu sob suas botas.

"Abandone suas esperanças tolas", disse Vito, pairando sobre ela como uma sombra sinistra. "Aclazotz ressurgiu, e seu reinado eterno é inevitável."

Ele estocou sua lança contra Huatli. Ela a prendeu na fresta de seu escudo, torcendo a arma para fora da mão dele.

"Apenas a morte é inevitável", disse Huatli. "Mesmo para você."

Um grito rasgou o ar. Vito virou-se para encontrar sua origem. Um dinossauro voador investiu contra ele, enviando-o cambaleando para o chão. De outra direção, Pantlaza correu para a luz emitida pela armadura de Huatli, atacando Vito com as enormes e afiadas garras de seus pés. Elas abriram um par de longos cortes em sua pele cinzenta, que sangrava um icor tão negro quanto seu coração imundo.

"Você ousa?" gritou Vito.

Mais dinossauros apareceram por terra e céu, fervilhando sobre o vampiro com dentes e garras. Cada vez que ele subia ao ar, era forçado de volta para baixo. No chão, ele era flanqueado e fustigado de todos os lados.

Huatli pegou la lança, uma arma soberba empunhada por uma mão perversa. Ela merecia um fim apropriado.

Vito arremessou um dinossauro longe, deixando uma brecha na parede que o cercava. Com um rugido, Huatli avançou, todo o poder de sua fúria e tristeza enchendo seu braço de força. A lança deslizou através da armadura de placas do vampiro, perfurando seu coração vil e prendendo-o ao chão.

Arte de: Marta Nael

Vito paralisou em choque e, esperava Huatli, em dor. Ele desabou de joelhos, mãos monstruosas tentando inutilmente puxar a lança. Seu próprio sangue tornava a haste escorregadia demais para segurar.

"Aclazotz", ele sussurrou, "por que me abandonaste?"

Huatli ficou sobre ele em silêncio enquanto ele caía de lado, o sangue empoçando sob ele na terra escura. A luz vermelha morreu em seus olhos monstruosos.

O império estava livre de um inimigo perigoso. E ainda assim, Huatli sentia-se vazia. A morte do vampiro não traria seu primo de volta à vida.

Os dinossauros se agruparam ao redor dela como haviam cercado Vito. Em vez de atacar, eles a acariciaram com seus focinhos, roçaram sua pele com suas penas, confortaram-na. Pantlaza trinou para Huatli, cantando como um pai para um filho ferido.

"Obrigada", Huatli murmurou, tocando a luz do Sol Triplo onde ela brilhava em sua armadura. Mas a batalha não havia acabado. Mais vampiros restavam, e Aclazotz ainda escurecia esta terra.

Com um comando mental, Huatli enviou os dinossauros voadores em direção ao recife de cósmio, e los outros em direção à intendente e seus outros aliados. Ela montou seu próprio morcego e voou para longe dos corpos de família e inimigo, prometendo a Inti que retornaria quando cada vampiro no Núcleo fosse erradicado.

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Malcolm

O exército do Micotirano espalhou-se pela terra intocada como... bem, como uma infecção fúngica virulenta, que era basicamente o que era. Malcolm sentia-se culpado por trazer este problema para um lugar que parecia idílico, tirando os vampiros e a escuridão e o retorno de um mal antigo.

Certo, não, tudo estava ruim.

Enquanto ouvia Quint conferenciar com um espírito chamado Abuelo — um Eco, ele se autodenominava — Malcolm pensou em Vraska e em tudo o que ela lhe contara sobre outros planos e cidades e mares. Ele sentia falta dela. Ela morrera na invasão, ou assim ele ouvira. Ele não queria acreditar nisso sobre sua ex-capitã, que sempre parecera tão poderosa, quase invencível, mas a guerra tinha o hábito desagradável de arrancar as belas ilusões das pessoas e substituí-las por verdades feias. Wayta era um exemplo vivo disso, uma criança forçada a crescer mais rápido que uma erva daninha magicada pelos Arautos. Ela estava por perto, enquanto Marujo comia vorazmente algumas frutas locais. Malcolm deveria fazer o mesmo, mas seu estômago se contraía de preocupação.

"Não saberemos a menos que tentemos", disse Quint, erguendo um quipu. Abuelo assentiu, sua expressão determinada.

"O que eles estão fazendo?", perguntou Malcolm a Wayta.

Ela deu de ombros. "Magia."

Quint colocou o quipu no chão e traçou sigilos azuis cintilantes acima dele. A magia espalhou-se para o quipu, o azul mudando para rosa conforme os cristais amarrados nas cordas da vestimenta se iluminavam. Abuelo paralisou como se prendesse a respiração.

Arte de: Zoltan Boros

Uma bolha de luz azul-pavão formou-se sobre a vestimenta, que subiu para pairar na altura do ombro de Malcolm. A luz esticou-se e revolveu-se como uma tempestade em miniatura, então, de um piscar de olhos para o outro, tornou-se a figura de uma mulher. O quipu pendia de seu pescoço, sobre seu poncho. Lábios enrugados abriram-se em um sorriso enquanto ela olhava para Abuelo.

"Aí está você!", exclamou ela. "Achei que aquele titã tivesse pegado você."

Abuelo riu. "Pegou."

"Oh, suponho que sim." Ela olhou ao redor. "O que aconteceu com os outros Komon?"

"Eu não sei", disse Abuelo. "Mas deixe-me apresentá-la aos nossos novos amigos. Pessoal, esta é Abuela."

Abuela cheirou o ar. "O Micotirano se aproxima. Devemos reunir os outros Ecos."

Marujo engoliu o que quer que estivesse mastigando. "MAIS FANTASMAS?", perguntou ele, desanimado.

"Melhor do que dinossauros incrustados de cogumelos", murmurou Malcolm.

Luzes surgiram em uma colina próxima. Malcolm subiu ao ar para batedoria, avistando pessoas cujos ponchos e quipus sugeriam que eram Oltecs. Eles carregavam cajados com pontas de cristais rosa, e alguns estavam acompanhados por criaturas peludas de pescoço longo que ele nunca vira antes. Seus rostos eram marcados por tatuagens, algumas brilhando levemente na escuridão do sol oculto.

Malcolm retornou aos seus aliados e encontrou Abuela batendo suas mãos fantasmagóricas de excitação.

"Os jardineiros chegaram!", exclamou ela.

Abuelo assentiu. "Temos sorte de terem vindo tão rápido."

"O que eles podem fazer?", perguntou Malcolm.

A intendente respondeu, sua voz cheia de propósito. "Desde o início da Era do Silêncio, eles vêm desenvolvendo práticas para combater este inimigo. Esperávamos nunca precisar deles, mas queríamos estar preparados."

Um dos jardineiros aproximou-se da intendente, saudando-a e curvando a cabeça educadamente. "Tan Jolom envia suas saudações, e alguns de seus colegas Ecos."

Vários jardineiros produziram objetos diferentes — um colar, um cocar, uma pequena máscara de cristal, uma lâmina serrilhada e mais. Espíritos surgiram, ancorados aos itens. Alguns eram menos sólidos, alguns menos humanos, mas todos se curvaram diante da intendente e aguardaram novas ordens.

Steward Akal examinou o grupo. "Nossos antigos inimigos retornaram. Enquanto nossas Mil Luas lutam para salvar Chimil, vocês devem preservar a terra para o retorno delas."

"Ojer Kaslem nos ajudará", respondeu o jardineiro. "Assim como Ojer Axonil, com seu fogo e tempestades, e os outros deuses."

A única vampira ali por perto — Amalia, esse era o nome dela — deu um passo à frente, segurando a perna da calça nervosamente. "Eu talvez possa ajudar", disse ela. "Posso mudar a terra com meu mapa."

Steward Akal apontou. "Coordene com os jardineiros. Devemos todos trabalhar juntos." Kellan, a quem Malcolm só vira ao lado dela, apertou o ombro de Amalia em apoio e ofereceu-lhe um sorriso com covinhas.

"Que os deuses nos guiem", disse a Intendente Akal. "Salvem Chimil e salvem o Núcleo!" Um rugido de aprovação respondeu, e os membros do exército recém-formado partiram.

Malcolm voou em direção à massa de fungos, que finalmente parara de fervilhar pela porta dourada. Seu brilho verde sinistro os tornava um alvo fácil na escuridão, distintos dos feixes de branco, rosa ou vermelho-sangue emanando de outras fontes. No centro do grupo, duas enormes criaturas com cabeça de cogumelo seguravam o Micotirano no alto em sua teia fibrosa.

Malcolm estremeceu e examinou a terra, então voltou-se para encontrar os outros.

"O Micotirano não está longe. Ele está indo..." Que direções cardeais faziam sentido aqui? O sol não se movia. "Por aqui", disse ele finalmente, apontando.

O jardineiro virou-se para Amalia, que tirou um mapa e uma pena de um estojo pendurado em suas costas. Ela mordeu o dedo para abri-lo, molhou-o em sua lata de cinzas e espalhou cuidadosamente a mistura de sangue no papel. Malcolm espiou o mapa. Partes dele estavam preenchidas, mas outras estavam em branco. Conforme a solução se espalhava, as partes vazias do mapa desapareciam, substituídas por uma representação detalhada do terreno. Mostrava até a massa do exército de cogumelos como uma mancha escura.

"Poderíamos usar esse tipo de magia na coalizão", disse ele a Amalia. "Se você algum dia quiser pular fora, por assim dizer."

Amalia deu-lhe um sorriso fraco, quase envergonhado.

"Espere até ver o resto", disse Kellan, cutucando-a com o quadril.

Amalia perguntou ao jardineiro: "Onde você quer a fissura?"

O jardineiro correu o dedo por uma seção específica do mapa. "Ali. Faça o mais profundo que puder. Nós faremos o resto."

Amalia assentiu e baixou a pena para o papel. Ela esperou, respirou fundo e então passou a ponta pelo mapa.

O chão rugiu e tremeu. Malcolm tropeçou. Quando ele olhou para o mapa novamente, uma fenda profunda jazia no caminho do exército, cercando-os de modo que a retirada seria difícil.

Kellan segurou o cotovelo de Amalia enquanto ela vacilava. "Você é incrível nisso", disse ele.

As bochechas de Amalia escureceram — ela estava corando? Vampiros não coram. Que passarinho precioso.

Malcolm voou de volta em direção ao Micotirano e suas tropas. Os primeiros pequenos batedores cogumelos encontraram a trincheira, profunda e íngreme demais para escalarem, larga demais para saltarem. Mais criaturas chegaram, dezenas, centenas, e para seu horror elas começaram a se atirar do penhasco.

Não, eles seguravam uns aos outros, enxertados, formando uma corrente fúngica espessa. Uma das criaturas voadoras mergulhou no espaço e agarrou o último cogumelo, carregando-o para o lado oposto. Mais deles se amontoaram, e logo uma ponte espessa atravessava a fenda.

Lá se vai esse plano, pensou Malcolm.

Antes que pudesse se aproximar mais do Micotirano, Malcolm sentiu mais do que viu algo acima dele. Um morcego incrustado de fungos desceu em mergulho, errando-o por pouco. Mais criaturas do tipo enchiam os céus, seus movimentos desajeitados e rígidos comparados aos dele, mas eles poderiam sobrecarregá-lo com números absolutos.

"Hoje não, cogumelo fedorento", disse ele, e recuou.

Abaixo dele, os Ecos formaram uma vanguarda fantasmagórica que alcançou os cogumelos antes de todos os outros. Malcolm pousou ao lado de Marujo e Quint e gesticulou para eles.

"O que eles estão fazendo?", perguntou Malcolm.

Quint baixou seus óculos. "Observe."

Um Eco com um rosto como um crânio nu flutuou até um dos cogumelos ambulantes menores, que parou como se estivesse confuso. Silencialmente, o Eco deslizou para dentro da criatura e desapareceu.

A princípio, nada aconteceu. Então o cogumelo estremeceu e sacudiu, veias de azul-pavão brilhante rasgando sua pele. Ele dissolveu-se em fumaça azul como se consumido por fogo invisível.

O Eco reformou-se e derivou para o próximo inimigo. Outros Ecos fizeram o mesmo e, um por um, os soldados do exército fúngico se dissiparam.

"Eles se transformam em uma doença", explicou Quint. "Isso só afeta os micoides — é como chamam os cogumelos."

"Impressionante", disse Malcolm. "Mas há tantos deles."

"A contrainfecção é apenas uma de nossas ferramentas", disse um jardineiro. "Aqui está outra."

Os jardineiros dividiram-se em grupos de três e ficaram ombro a ombro, erguendo seus cajados. Anéis finos de luz rosa emanavam de cristais incrustados na madeira, ondulando para fora em ondas. Com um grito, os jardineiros baixaram suas armas, e a magia cortou o ar, em direção aos micoides.

Arte de: Manuel Castañón

Cada fungo que a luz tocava explodia em chamas. Dezenas de criaturas caíram contorcendo-se no chão, depois ficaram imóveis, desintegrando-se em cinzas.

Ainda assim, mais vinham. A luta degenerou em uma briga generalizada, com alguns micoides empunhando lanças ou lâminas, e outros lançando feitiços que sufocavam os Oltecs com esporos fétidos. Kellan ficou perto de Amalia, repelindo graciosamente os inimigos com um par de lâminas mágicas. Um pergaminho desenrolado pairava na frente de Quint como um escudo — e funcionava tão bem quanto um, o papel magicamente rígido estilhaçando e desviando flechas e lanças que chegavam. Quint empunhava outro pergaminho como um chicote, sigilos enviando fitas de energia dourada chicoteando para envolver os inimigos e cortá-los como navalhas. Os micoides avançavam apesar de seus ferimentos, deixando pilhas de fungos em decomposição em seu rastro.

Os titãs permaneceram no lado distante da fenda, pesados demais para cruzar a ponte de cogumelos. O Micotirano pendia entre eles, olhos verdes malévolos brilhando para seus inimigos.

Malcolm pegou Marujo encarando o soberano fúngico com a mesma expressão astuta que usava quando estava calculando quão profundos eram os bolsos de um alvo. Ele finalmente arreganhou os dentes em um sorriso selvagem e apontou.

"GRANDE CABUM!", exclamou Marujo.

"Você acha que isso pode matar o Micotirano?", perguntou Malcolm incredulamente.

Marujo assentiu e sorriu. De sua mochila, ele retirou a arma que adquirira em Seco e Alto como pagamento de uma dívida. O tubo de metal tinha cerca do comprimento de um antebraço, com um padrão elaborado de videira gravado na superfície, uma folha saliente como gatilho e pétalas de flores moldadas na extremidade. Malcolm ficara surpreso quando o dono anterior concordou em entregar a coisa. Uma vez que a vira em ação, porém, ele concluíra que preferiria continuar com os canhões, muito obrigado. Era mais destrutiva e pouco confiável do que valia a pena.

Aquelas qualidades provavelmente lhes serviriam bem agora.

Malcolm pegou Marujo e saltou no ar, circulando a partir da direção que decidira chamar de sul. "Provavelmente teremos uma chance", disse Malcolm. "Não erre."

Marujo olhou para ele com indignação.

Malcolm não discutiu. Definitivamente atingiria algo. Ele só não queria que fosse ele.

Um dos titãs que seguravam o Micotirano girou sua cabeça enrugada de cogumelo para observar Malcolm e Marujo voarem mais perto. Com um rugido, ele agarrou um micoide próximo e o arremessou; a criatura menor debatia seus membros tentando atingir Malcolm ou Marujo na passagem com sua lança.

Malcolm desceu e ela passou voando sobre ele. Outro micoide seguiu, depois outro, e ele desejou estar de volta a Seco e Alto contando a história deste dia inacreditável para os amigos enquanto bebia.

"Cogumelos", ele diria. "Cogumelos inteligentes, transformados em projéteis. Tentando me esfaquear. Não, sério. Juro pela minha canção."

Assumindo que ele sobrevivesse, o que esperava fervorosamente que acontecesse.

"A qualquer momento agora, Marujo", disse Malcolm, em tom tenso.

Marujo apontou o tubo para o Micotirano.

Um dinossauro coberto de fungos mergulhou. Malcolm esquivou-se e Marujo atrapalhou-se com o artefato, que girou e rodopiou entre suas mãos. Ele chicoteou sua cauda para frente e o pegou antes que pudesse despencar no chão. A extremidade floral, infelizmente, agora encarava Malcolm no rosto.

"Cuidado onde você aponta essa coisa!", gritou Malcolm. "Acerte logo o maldito Micotirano!"

"VOE MELHOR!", retrucou Marujo. Ele passou o tubo para os pés, depois para as mãos, segurando o artefato de modo que ambos os lados estivessem à distância do braço.

Malcolm disse: "Avise-me antes de você—"

FOOOOOM!

Fumaça e faíscas saíram da parte de trás do tubo. Da frente, uma enorme bola de fogo derretido espirrou, espessa como piche e igualmente pegajosa. A força da magia da arma enviou Malcolm e Marujo voando para trás, e Malcolm quase deixou cair seu passageiro goblin antes de se endireitar.

Tudo no caminho da bola de fogo foi nivelado. O Micotirano teve apenas um momento para ver sua morte surgindo antes que o projétil rasgasse o titã mais próximo, atingindo-o em cheio no corpo. Ele caiu de sua teia para o chão, preso sob o projétil ardente, que respingou chamas em todas as direções.

Cada criatura fúngica ao redor gritou em uníssono, algumas desabando como marionetes cujas cordas haviam sido cortadas. Outras atingidas pelo fogo pegajoso debateram os braços, correndo ou rolando no chão. Algumas se lançaram na fissura, transformando o espaço sombrio em um poço de chamas bruxuleantes.

Logo foram acompanhados pela ponte quando os jardineiros romperam as fileiras de frente, seus próprios fogos mágicos purificando a área. Ecos continuaram a transformar cogumelos, a fumaça inofensiva combinando-se com sua contraparte acre. A terra outrora fértil jazia nua, queimada, repleta de montes de cinzas e dos corpos dos caídos.

Mas eles estavam vencendo e, com sorte, isso significava que o Centro também estaria seguro.

Malcolm quase se deu um tapa por ousar ter esperança novamente. Como esse impulso ainda não tinha sido arrancado dele?

Como em resposta, uma tempestade de energia sombria irrompeu das montanhas distantes. Raios de relâmpagos vermelhos brilharam, iluminando rochas arrancadas em um deslizamento de terra que levantou nuvens de sujeira. O chão tremeu, fazendo as pessoas tropeçarem ou derrubando-as completamente. Gritos de preocupação cruzaram o campo de batalha e, lá no alto, no recife de cósmio, morcegos guincharam como unhas arrastadas em metal. As penas de Malcolm estremeceram involuntariamente.

Conforme a poeira baixava, o invólucro ao redor do sol se abriu lentamente, quase imperceptivelmente. A maior parte da terra permaneceu envolta em sombra, mas feixes de luz brilharam conforme o estranho amanhecer surgia.

Os Oltecs vibraram, e até Quint, Amalia e Kellan se juntaram à celebração. Malcolm pousou ali perto, finalmente largando Marujo e massageando as dores musculares em seus braços. Uma pessoa, ele notou, não estava celebrando.

Wayta olhava para as montanhas, apertando seu único olho visível. "O que é aquilo?", perguntou ela.

Pilares de um grande templo surgiram da face escarpada da montanha. Um brilho vermelho-sangue emanava de dentro, e Amalia tropeçou, segurando a cabeça e fazendo uma careta de dor.

"Aclazotz", disse Amalia. "Aquele é o templo dele. Precisamos ir até lá para detê-lo!"

O que ele poderia fazer de pior do que cobrir o sol?, Malcolm se perguntou.

Anim Pakal assobiou, então se voltou para os guerreiros reunidos. "Jardineiros, por favor continuem a eliminar as forças do Micotirano. Não deixem viva nem uma única espora. Minhas Luas, venham. Vamos erradicar a doença dos comedores de cósmio e acabar com eles também."

Amalia seguiu atrás dela, acompanhada por Kel com suas espadas mágicas. Abuelo e Abuela esvoaçavam com os outros Ecos, transformando alegremente cogumelos em névoa. Quint passou um lenço em seus óculos com sua tromba, depois o guardou em uma bolsa em seu cinto.

"Este vai ser um artigo incrível", disse Quint.

Wayta fez um som abafado, então começou a rir tanto que lágrimas escaparam de seu olho. Malcolm nunca vira seu comportamento estoico tão completamente alterado; ela parecia mais jovem, mais feliz. O pobre Quint parecia confuso, mas também abriu um sorriso.

Marujo inclinou seu chapéu para trás com a cauda e suspirou feliz. "GRANDE CABUM."

Foi mais como um grande foom, pensou Malcolm, mas ele não queria estragar o momento. Ele tinha a sensação de que seria estragado por outra coisa logo o suficiente.

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Amalia

A trilha para o templo de Aclazotz estava repleta de comedores de cósmio, vivos e mortos. As Mil Luas lutavam impiedosamente contra qualquer um que encontrassem, com a ajuda de Amalia e Kellan. A fumaça acre dos fogos fúngicos misturava-se com as nuvens de poeira do deslizamento de terra, forçando Amalia a apertar os olhos e piscar para afastar a areia. Dinossauros vagavam pelo terreno, suas penas, garras e dentes cobertos de sangue, como se patrulhassem — ou caçassem.

"Atrás de você!", gritou Amalia.

Kellan girou enquanto se abaixava, arrastando uma de suas lâminas brilhantes pelo joelho de uma vampira. A outra ele angulou para cima, abrindo sua inimiga da virilha à clavícula. A outra perna dela cedeu e, unindo suas espadas como tesouras, Kellan decepou sua cabeça.

Amalia empalideceu e desviou o olhar. "Você é surpreendentemente bom nisso, Kel", murmurou ela.

"Esses caras não são tão durões", disse Kellan. "Você já se atracou com um ganso gigante?"

"O que é um ganso?", perguntou Amalia.

"É como um dinossauro com rancor."

Eles continuaram, subindo inexoravelmente em direção ao templo. Os guerreiros carregavam tochas e cristais brilhantes, enquanto as velas flutuantes de Amalia permaneciam presas ao seu cinto, oscilando loucamente. A escuridão agitava-se acima, uma sombra mais escura que a noite como uma mancha no ar, mas os flashes vermelhos haviam parado. Amalia temia o que encontrariam.

Um morcego-vampiro mergulhou em direção a Kellan, que mal se esquivou da estocada da lança da criatura. Ela ainda usava a armadura da Legião do Crepúsculo, para o horror de Amalia. O que Vito fizera com seu povo? O que ela diria à Rainha Miralda se algum dia escapasse deste lugar?

Arte de: Antonio José Manzanedo

Ela tinha que continuar. Para dar testemunho. Para levar as histórias de volta para casa.

Um assobio subiu e desceu mais à frente, respondido por um par de notas correspondentes.

"Encontramos a entrada, Milésima Lua", disse um dos batedores.

Anim Pakal inclinou a cabeça, então gesticulou para que Amalia se aproximasse. "Venha", disse ela. "Talvez você possa nos contar algo sobre o seu deus."

Amalia estremeceu com o lembrete de sua conexão com Aclazotz e lançou um olhar suplicante para Kellan. Ele lhe deu um sorriso com covinhas."Estou com você", disse ele.

Uma porta de pedra surgiu, rachada ao meio pelo terremoto, deixando um buraco denteado para o templo além. Amalia subiu em uma antecâmara cujo teto havia desabado, depois se abaixou sob pilares parcialmente desmoronados que pareciam como se o próprio deus os tivesse empurrado para o lado em sua fúria.

Lá dentro, fileiras de assentos levavam a um palco com um fosso em uma extremidade e uma caverna gradeada na outra. Pedaços de correntes incrustadas de gemas jaziam espalhados como se tivessem sido explodidos por uma força massiva. Tudo estava quebrado, coberto de detritos e poeira que pairava no ar. O cheiro de sangue inundava os sentidos de Amalia até ela querer gritar. Tanta morte. Para quê? Para transformar Vito e Clavileño e os outros em monstros?

"Aclazotz se foi", disse Anim. "Assim como o resto dos devoradores de cósmio e a Legião de Crepúsculo, presumindo que algum deles tenha sobrevivido à batalha."

Um guerreiro limpou a garganta. "Um dos devoradores foi apreendido para interrogatório."

Mais três das Mil Luas arrastaram seu prisioneiro. Seu poncho e khipu estavam manchados de sangue na frente, assim como seu queixo, e ele cuspiu desafiadoramente em Anim. Ela limpou o fluido de tom avermelhado e cruzou os braços.

"Onde está Aclazotz?", perguntou Anim.

"Ele está livre", disse o devorador de cósmio. "Ele reúne seus filhos e logo encerrará a Quinta Era e iniciará uma nova era de sangue. Todos os que se juntarem a ele banquetearão com os fracos pela eternidade, e todos os que se opuserem a ele serão consumidos."

"Não", sussurrou Amalia horrorizada.

O olhar do devorador voltou-se para ela. "Você", disse ele venenosamente. "Traidora. Nós a vimos fugir quando foi chamada. E agora você se alinha com os inimigos do seu deus? Você e todos da sua espécie serão purificados em fogo e sangue, e seus nomes serão esquecidos."

Amalia só conseguia olhar para ele mudamente, os laços outrora fortes de sua fé quebrando como as correntes que sujavam o chão.

"Onde está Aclazotz?", repetiu Anim, agarrando o queixo do homem. He avançou contra ela, e ela recuou.

"Ele está além do seu alcance", respondeu o devorador. "Mas você não estará além do dele por muito tempo."

Amalia tropeçou para fora do templo, de volta ao ar livre, o riso do devorador perseguindo-a como um cão de ataque. Ela parou além da porta, abraçando a si mesma e tremendo.

Ela não deveria ter saído de casa. Não deveria ter ido nesta jornada maldita. Bartolomé morreu para proteger a ela e Kellan, mas seu sacrifício foi em vão. O cisma nunca se curaria. Pior, parecia que Vito estivera certo o tempo todo. O que Aclazotz faria com a Rainha Miralda? Com Santa Elenda? Com sua família? Ele queria transformar todos os vampiros em sua própria imagem?

Uma mão tocou seu braço, assustando-a. Amalia olhou para Kellan, seus olhos escuros gentis.

"Sinto muito", murmurou Amalia. "Fui criada para acreditar que meu deus era distante, mas benevolente. Que ele nos encarregou de uma missão sagrada para servir e transmitir seu dom. Agora descubro que ele é… ele é…"

"Não o que você esperava?", perguntou Kellan.

Amalia assentiu. "Sinto como se estivesse vivendo uma mentira."

"Eu talvez entenda isso mais do que qualquer outra pessoa aqui." Kellan ofereceu a ela um sorriso triste. "Você ainda tem uma escolha, no entanto. Não está presa a um destino que outra pessoa planejou para você."

"O que posso fazer? Voltar para Torrezon e alertar a Rainha Miralda de tudo isso? Como posso escolher uma mera mulher em vez do meu próprio deus?" Amalia olhou para o templo, a porta, quebrada como sua fé.

Kellan pareceu considerar aquela. "Se você não gosta do que seu deus está fazendo, talvez devesse encontrar outro?"

"Outro deus?", Amalia riu amargamente. "Você faz parecer fácil."

"Provavelmente é complicado", disse Kellan. "Talvez Quint possa ajudar. Ele é inteligente, e todos aqueles professores na universidade de que ele fala são provavelmente ainda mais inteligentes. Você poderia falar com eles."

Outros planos. Outros deuses. Outros vampiros? Era quase mais do que Amalia podia imaginar. Mas então, ela nunca esperara encontrar um mundo inteiro abaixo do seu, dentro dele, como uma semente em um abacate, uma pérola em uma ostra. Ela encontrara algo dentro de si mesma também — não uma pérola, talvez, ainda não, mas um grão de algo que poderia se tornar mais duro e forte.

"Você me falará sobre seus deuses?", ela perguntou a Kellan.

"Não temos desses de onde eu venho", disse Kellan. "Mas posso falar sobre os feéricos. A próxima melhor coisa, eu acho." Juntos, eles retornaram ao caminho, afastando-se das ruínas e voltando em direção ao amanhecer crescente.

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Wayta

A segunda delegação do Império do Sol chegou a Oteclan uma semana após a batalha, encontrando Chimil restaurada à sua glória anterior, mesmo enquanto as piras dos mortos queimavam. Os Arautos do Rio recuaram para seu oceano subterrâneo, a Coalizão de Bronze retornou à superfície com a vampira remanescente e seu companheiro, e os Oltecas começaram a limpar a bagunça que todos haviam feito em seu lar.

Wayta coçou o olho distraidamente sob o tapa-olho enquanto a Comissária Akal saudava os recém-chegados, com Anim Pakal logo atrás dela. Alguns dos chamados diplomatas eram reconhecíveis até para ela — muitos deles guerreiros, alguns de patente superior a outros. Todos leais ao imperador.

Huatli lutava para esconder uma expressão carrancuda.

Seguiram-se discursos, palavras bonitas por enquanto; haveria tempo para negociações mais tarde. Longas mesas cobertas de comida os convidavam a banquetear, reunindo as pessoas que ela viera a conhecer e respeitar. Ela ficou perto de Quint e de alguns dos soldados que haviam sobrevivido aos ataques de vampiros e micoides, celebrando silenciosamente. Lembrando-se dos caídos.

Caparocti sentou-se à mão esquerda da Comissária Akal, tendo sido nomeado a voz do imperador nos procedimentos. Wayta estava longe demais para ouvir a discussão, mas a comissária parecia séria, preocupada, enquanto sua irmã ao outro cotovelo gesticulava amplamente antes de apontar uma fatia de fruta para o céu. Huatli, ao lado de Anim, sentou-se rigidamente e empurrou seu prato para frente, sua comida intocada. Atrás de sua cadeira, Pantlaza esperava atentamente por sobras.

Quint cutucou Wayta suavemente com o cotovelo, que quase derramou seu suco. "Sabe", disse ele, "eu tenho um feitiço de escuta". Quando ela não respondeu, ele acrescentou: "Se você não usar, eu usarei."

Wayta hesitou, depois assentiu. Não era como se a conversa pudesse ser privada em um lugar tão público.

Tirando um pergaminho de sua mochila, Quint limpou a garganta. Ele desenrolou o pergaminho e começou a lê-lo calmamente, as palavras individualmente nítidas e claras, mas de alguma forma desaparecendo e se misturando para que Wayta não conseguisse entendê-las.

"Funcionou?", ela perguntou.

A voz de Huatli soou de repente como se estivesse bem ao lado de seu ouvido. "Certamente já perdemos o suficiente. Não podemos reconstruir e lamentar em vez de buscar novas batalhas?"

"Aclazotz ameaça toda a superfície", retrucou Caparocti. "Você viu o que ele fez com os vampiros aqui. Quer enfrentar um exército daqueles em Ixalan?"

"Podemos lutar contra Aclazotz sem declarar guerra contra toda a Legião de Crepúsculo", disse Huatli. "Se agirmos rápido, com uma força menor, seremos capazes de detê-lo antes que ele reúna mais aliados para —"

"Você vai lutar contra um deus com uma força pequena?", perguntou Caparocti incredulamente. "O que você vai fazer, entediá-lo com poesia?"

Wayta franziu a testa. Aquilo foi desnecessário.

"Você esquece que sou uma guerreira, além de poeta", disse Huatli friamente.

"E, no entanto, seu título foi roubado para você por seu primo Inti, em vez de concedido pelo falecido imperador."

Huatli levantou-se, colocando as mãos espalmadas sobre a mesa. "Mantenha o nome de Inti fora da sua boca. Ele era um homem melhor do que você jamais poderia sonhar em se tornar, nem mesmo se vivesse tanto quanto os próprios vampiros amaldiçoados pelo sol. Você certamente compartilha a sede de sangue deles." Ela começou a se afastar, Pantlaza seguindo-a, então parou para encarar Caparocti, olhos escuros brilhando com ameaça. "Não me procure novamente, Campeão, porque você me encontrará."

O silêncio seguiu sua partida, embora Caparocti parecesse mais satisfeito do que envergonhado ou intimidado. Wayta teve vontade de ordenar que um dinossauro se aliviasse sobre a cabeça dele.

Anim inclinou-se para mais perto de sua irmã. "O que quer que decidamos, não podemos permanecer aqui e ignorar o que está acontecendo na superfície. Not anymore."

A Comissária Akal pressionou os lábios. "Especialmente não se Aclazotz estiver reunindo forças lá. E se algum remanescente do Micotirano tiver se espalhado, devemos continuar nosso trabalho para expurgá-los, como os jardineiros cuidam das plantações."

"Você nos fornecerá guerreiros?", perguntou Caparocti. "Ecos? Cósmio?"

"Coordenaremos uma resposta apropriada", respondeu a Comissária Akal.

"As Mil Luas estão prontas para ajudar", disse Anim.

"Você está pronta para ver a superfície por si mesma", disse a Comissária Akal secamente. "Faremos o que deve ser feito."

E o que seria isso? Wayta se perguntou. Tantas pessoas tinham definições diferentes de "deve" e estavam ansiosas para aplicá-las. Devemos derrotar este inimigo. Devemos segurar este túnel. Devemos quebrar esta linha. Todo deve era uma promessa feita, tantas delas pagas com sangue.

Wayta deu um tapinha no ombro de Quint. "Obrigada por me deixar ouvir isso."

"O que você pretende fazer?", perguntou Quint.

"O que devo." Wayta empertigou os ombros e seguiu Huatli, que estava à beira de um lago, uma brisa fresca soltando fios de cabelo de sua trança. A espada do senescal pendia baixa em seu quadril, um cristal de cósmio fixado no pomo.

Huatli olhou para Wayta, depois de volta para a água. Elas ficaram em silêncio por alguns minutos, as ondas batendo na margem, Pantlaza perseguindo insetos que esvoaçavam de flor em flor.

"Eu quis ser uma guerreira-poeta uma vez", disse Wayta. "Quando eu era muito mais jovem. Antes de Orazca ser encontrada e reivindicada."

"Como aquele tempo parece simples agora", murmurou Huatli. "A pedra não sente cada gota de chuva, mas ainda assim é desgastada." Ela sorriu fracamente para Wayta. "Talvez um destino ainda mais importante a aguarde."

Wayta deu de ombros. "Nem todo mundo tem que ser um herói lendário. Uma vela não é tão brilhante quanto o Sol Tríplice, mas ainda ilumina um ambiente."

"Verdade." A mão de Huatli segurou o punho da espada de seu primo. "Ser a guerreira-poeta significa que fui destinada a liderar. Eu caçaria Aclazotz feliz eu mesma, mas uma invasão de Alta Torrezon? É demais. Como posso encontrar as palavras que acenderão chamas nos corações do nosso povo quando não posso me comprometer com esta causa?"

Wayta cutucou um pedregulho com sua bota, chutando-o para a água. "Uma mulher sábia uma vez me disse: é mais importante que a poesia seja honesta do que boa. Talvez você precise encontrar uma missão em que acredite, que também sirva ao império?"

"Talvez precise." Huatli mergulhou em pensamentos. Então, ela desamarrou a espada de seu cinto e a ofereceu a Wayta.

"A lâmina do senescal?", perguntou Wayta, perplexa. "Você quer que eu fique com ela? Por quê?"

"Acho que Inti gostaria", respondeu Huatli. "Você pode perguntar a ele se quiser. Ele é um Eco agora. O espírito dele está aqui, na gema." Ela tocou o cristal de cósmio no pomo.

Wayta hesitou, depois alcançou o punho. "Estou honrada mais do que posso dizer. Eu o manterei seguro."

"Espero que ele mantenha você segura também", disse Huatli, um lampejo de divertimento iluminando seu rosto. "Você ainda não está morta. Fique forte, irmãzinha." Ela deu um passo para longe de Wayta, depois outro, caminhando ao longo da margem do lago em direção ao ainda saltitante Pantlaza.

"O que você fará agora?", gritou Wayta para ela.

Huatli sorriu. "Recebi um convite para Otepec da irmã do imperador. Foi cuidadosamente redigido, mas acho que não sou a única que não está ansiosa para acender uma nova guerra enquanto as brasas da última ainda estão quentes."

Wayta não tinha noção do que Caztaca Huicintli faria. Se alguém pudesse persuadir seu irmão a não invadir Torrezon, seria ela. E se ele não pudesse ser persuadido? Ela estremeceu ao pensar no que poderia acontecer.

Talvez a Legião de Crepúsculo não fosse a única a enfrentar uma guerra civil em breve.

Arte por: Tyler Jacobson

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Malcolm

Subir de volta para fora das cavernas fora quase pior do que entrar. Na descida, Malcolm esperava encontrar sobreviventes de qualquer destino que tivesse atingido a Cidade Baixa. Na subida, ele sabia melhor. O mistério estava resolvido, mas a cidade subterrânea permanecia vazia, e ele não tinha ideia de quando, se é que algum dia, novos moradores se mudariam para continuar o trabalho dos antigos.

Ele e Breeches chegaram à Baía do Raio Solar exaustos e imundos da viagem, tendo se despedido de Amalia e Kellan. Sonhos com banhos e camas macias o provocavam; ele faria seu relatório para Vance, as famílias dos perdidos teriam que ser notificadas, e então ele desapareceria no fundo de uma caneca de cerveja até ter lavado o gosto do fracasso de sua boca.

Quando você aprenderá, Malcolm disse a si mesmo amargamente, parando no meio de uma rua para olhar para o céu carregado de tempestade.

A Baía do Raio Solar estava tão deserta quanto a Cidade Baixa, com os mesmos sinais do trabalho do Micotirano: prédios queimados e paredes chamuscadas por magia, itens descartados, comida estragada. Cogumelos brotavam de fendas aleatórias, agrupados em cantos escuros, sacudiam seus esporos no ar e brilhavam com a horrível cor verde que Malcolm sabia que veria em seus pesadelos para sempre.

Nas docas, nem um único navio esperava. Ele esperava que isso significasse que suas tripulações haviam escapado para a segurança antes de serem infectadas, mas temia o pior. Tudo o que bastaria seria um pirata, um clandestino, e o problema continuaria a se espalhar.

"Precisamos chegar a Em Seco", disse Malcolm a Breeches. "Temos que avisá-los ou descobrir se é tarde demais."

"Barco grande? Barco pequeno?", perguntou Breeches.

"Qualquer barco que flutue", respondeu Malcolm. "Vamos, talvez encontremos algo na enseada mais adiante na costa."

Se não, ele faria — o quê? Continuaria indo, ele supunha. Imploraria por um barco no próximo porto que alcançasse. Voaria para uma vila do Império do Sol. Vagaria de volta para Orazca e fingiria que o plano não estava desmoronando novamente. Mas ele não pararia, não agora, talvez nunca. Se parasse, o fungo o alcançaria.

O céu se abriu, derramando cortinas de chuva morna sobre a cidade em ruínas. Malcolm inclinou o rosto para cima, deixando a água lavar suas penas, perguntando-se se algum dia se sentiria verdadeiramente limpo novamente.

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Amalia

Mesmo para os padrões de Ixalan, a ilha onde Amalia e Kellan se encontravam era luxuriante, a selva como uma parede espessa quase até a linha da costa. Areia macia se deslocava sob as botas de Amalia enquanto ela saía da embarcação que os trouxera do navio mercante para a terra.

"Você tem certeza de que este é o lugar certo?", perguntou Amalia.

"Principalmente um sentimento", disse Kellan. "Minha sorte ainda não me falhou. Not quando realmente contou, pelo menos."

"Saberemos em breve", disse ela. "De qualquer forma, sua busca continuará."

"Continuará", concordou Kel. "Quem seria eu se desistisse agora?"

Quem, de fato? Amalia se perguntou. Seu próprio desejo de explorar a trouxera a este lugar, mas ela ainda nutria preocupações, dúvidas. Pensou que as tinha expurgado no mar, mas só conseguira ignorá-las por um tempo.

E agora, seu tempo estava quase acabando.

Eles encontraram um caminho de terra que serpenteava pela selva. O sol salpicava o chão enquanto galhos e trepadeiras cravejadas de flores formavam um teto sombrio.

Usaram uma árvore caída maciça para cruzar um desfiladeiro, uma cachoeira ao lado transformando o ar em uma névoa de arco-íris. Do outro lado, no centro de um campo coberto de grama alta, encontraram o que procuravam.

Um círculo estranho coruscava e girava com luzes. Era mais alto que um humano e tão largo quanto, e flutuava acima do solo sem se deslocar ou se mover, como se fosse uma pintura fixada a uma parede.

Kel sussurrou: "É isso. Um Caminho de Agouros."

"Tem certeza?", perguntou Amalia. "Para onde ele vai?"

"Não tenho ideia", disse Kel. "O último me trouxe para cá, mas este pode não ser tão benevolente."

"Você acha que isso poderia levar a algum lugar pior do que uma caverna cheia de goblins e povo-jaguar furiosos?"

Kel deu de ombros. "Eu gostaria que não, mas se desejos crescessem em campos, todos seríamos fazendeiros."

Eles olharam para o portal giratório em silêncio enquanto o sol cozinhava suas cabeças.

Amalia olhou para Kel, apenas para encontrá-lo olhando para ela. "O quê?", ela perguntou.

"Você tem certeza de que quer vir comigo?", ele perguntou calmamente. "Este é o seu mundo. Sua família está aqui, seus amigos, tudo o que você já conheceu. Você está realmente pronta para deixar tudo para trás?"

A pergunta que Amalia vinha ignorando agora surgia, imensa e inevitável. Ela prometera cuidar de Kel, sim, mas certamente seu dever já fora cumprido há muito tempo. Ele era um homem adulto e não precisava de um guardião. Sua busca era dele, e ela não tinha necessidade de assumir a responsabilidade de acompanhá-lo.

Mas ela saíra de casa para explorar, para encontrar novos lugares, para aprender coisas novas. Ela queria ajudar seu povo, sim, e por isso enviara notícias para sua família e para a Rainha Miralda através dos membros restantes da Companhia da Baía da Rainha sobre a tempestade que se aproximava que Aclazotz poderia trazer. No entanto, ela sentia-se ansiosa para evitar a discórdia entre seu deus — ex-deus? — e seus discípulos recalcitrantes. Seu evangelho de sangue e subjugação a repelia, e ela preferiria partir a vê-lo se concretizar.

"Estou pronta", disse Amalia firmemente, satisfeita por descobrir que era verdade. "Quando você estiver."

Kellan pegou a mão dela, sua pele agradavelmente quente. Ela podia sentir o pulso dele através do polegar enquanto acelerava levemente.

"Só para você saber", disse ele, "isso pode levar a qualquer lugar. O próximo lugar pode não ser melhor do que este."

"O que poderia ser pior?"

Kel deu de ombros e presenteou-a com um sorriso com covinhas. "Ganso gigante?"

Amalia riu, seu coração mais leve do que estivera por semanas. Sem mais uma palavra, eles saltaram pelo Caminho de Agouros, e tudo mudou.

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Peões

Saheeli estava na areia branca de alguma praia solitária da costa norte de Ixalan. Ela se abraçou e contemplou simplesmente caminhar mar adentro. Um azul cintilante até o horizonte sem nuvens. Em outra vida, ela poderia ter atravessado aquela distância com um pensamento. Ela havia viajado um pouco, mas, exceto por breves momentos com Huatli, suas aventuras pelo Multiverso foram sempre impulsionadas por uma missão: Salvar o plano. Salvar cada plano. Quão longe ela poderia ir agora?

Saheeli balançou os calcanhares para frente e para trás, afundando um pouco na areia a cada lavagem suave das ondas na praia. Era um dia quente, e a água em torno de seus tornozelos estava fria. Salvar os planos, ela pensou. Havia tantos deles. Tantos para ver, tanta maravilha — terror, sim, mas maravilha também. Era tudo muito maior do que ela. E agora havia apenas um plano, um oceano, uma terra desconhecida além do horizonte. Do infinito ao miseravelmente finito; o portal giratório, a fenda no Multiverso — um Caminho do Augúrio — que ela seguiu até aqui havia se fechado atrás dela. Tolice correr o risco, talvez. Um raro momento de agir antes de pensar.

Ela observou pequenas amêijoas se contorcerem na areia ao redor de seus pés. Criaturas cegas e reativas, lançadas e tombadas por um grande oceano para acabarem aqui com ela. Saheeli baixou-se, mergulhou as mãos na areia e pegou duas mãos cheias. Ela lavou a maior parte da areia, usando os dedos como uma peneira até que a areia fosse removida e apenas as amêijoas permanecessem.

"Olá", disse Saheeli para as amêijoas. Ela observou suas línguas brancas sondando as dobras de suas palmas, procurando uma saída.

"Aonde vocês pensam que vão?" sussurrou Saheeli.

As amêijoas a ignoraram e continuaram a procurar. Eventualmente, elas pararam, aceitando seu destino. Saheeli ajoelhou-se, a água fria encharcando suas calças dobradas, e baixou suavemente as mãos de volta para a água. A onda seguinte levou as amêijoas, lançando-as de volta à areia onde elas se enterraram e desapareceram, todos os vestígios delas lavados com o recuo da água.

Ela tentou. Nada. Ela mergulhou uma mão na água e na areia para evitar cair — um breve e tonto balanço, consequência de tatear e não encontrar nada.

O riso de Huatli a chamou de volta ao presente. Ela se virou para ver Huatli e Pantlaza — seu novo companheiro quetzacama, um dos mais promissores de uma nova ninhada de raptores — correndo pela rebentação rasa, espirrando água e esquivando-se um do outro. Huatli segurava uma espada de madeira que usava para direcionar Pantlaza — nominalmente, isso era treinamento, prática de combate de curta distância de chamado e resposta, mas para Saheeli parecia indistinguível de brincadeira. A alegria no rosto de Huatli, os saltos e gorjeios ansiosos de Pantlaza, o estalido de suas mandíbulas mordendo o ar com excitação e a energia sem limites da juventude.

Saheeli sorriu. Ela se levantou, limpando a água de seus braços e pernas. Ela acenou para Huatli, que veio trotando pela rebentação, com Pantlaza logo atrás.

"Você e ele parecem uma boa combinação", disse Saheeli, preparando-se enquanto Huatli lançava os braços ao redor dela.

"Ele é lindo", riu a guerreira-poeta, sem fôlego, cheirando a suor, protetor solar e oceano. "E eu estou embriagada de sol e exausta. Preciso me refrescar — de volta à margem ou para dentro da água?"

"Para a margem", disse Saheeli. Ela beijou Huatli, então a empurrou à frente. Ela seguiu Huatli pela areia quente até a sombra da selva à beira-mar, onde se deitaram sobre uma manta larga. Huatli vasculhou sua mochila e tirou um frasco de água, do qual bebeu e então ofereceu a Saheeli.

"Certo", disse Huatli, observando Saheeli beber. "O que você não está me contando?"

Saheeli sorriu novamente, suave. "É tão bonito aqui."

"E você parece tão triste com isso", disse Huatli. Ela apertou os olhos e olhou para o oceano, onde as ondas brilhavam e quebravam. "Você tentou caminhar novamente?"

"Sim", sussurrou Saheeli. "Não senti nada."

"Pior", disse Huatli. Ela passou um dedo pelo cabelo de Saheeli, girando-o lentamente. "Você sente um buraco. Uma cavidade. Dor, como um membro perdido que foi queimado pelo sol."

Saheeli assentiu.

"Com minha centelha, eu me sentia inteira", disse Huatli. "Uma parte de mim revelada. Liberdade. Agora que ela se foi", Huatli colocou a mão em concha diante do peito, como se estivesse segurando o coração. Ela apertou aquela mão em um punho, seus nós dos dedos estalando, então sacudiu a mão — dissipando novamente o que já havia sido dissipado.

"Desculpe, H, eu não queria te deixar triste comigo", disse Saheeli. "Não gosto de ficar triste na praia. O dia está bom demais hoje."

Huatli deu de ombros. "Está bom todos os dias", disse ela.

Saheeli bufou. Ela deu um peteleco no braço de Huatli. "Não seja engraçada, eu estou realmente triste com isso, e me sinto boba por estar triste com isso. Por um tempo fomos abençoadas pelo infinito; acho que nunca considerei que poderíamos perder essa bênção."

"Tudo bem ficar triste", disse Huatli. "É como você disse — perdemos um presente. Perdemos o Multiverso. Todas as suas histórias e todas as suas maravilhas." Ela se sentou. "O que você acha que aconteceu?"

Saheeli sorriu. Huatli a conhecia bem — é claro que ela já tinha pensado sobre isso.

"Existe uma regra", disse Saheeli. "Uma lei da realidade que afirma que seus elementos fundamentais — mana, éter, essas coisas — não podem ser criados ou destruídos. Apenas mudados", Saheeli imitou a maneira como Huatli tinha colocado a mão em concha com a sua, então a moveu para fora, longe de seu peito. "Movimento é mudança."

"Então você acha que nossas centelhas \"mudaram\"?"

"Certo. Nossas centelhas foram movidas. Não destruídas", Saheeli deixou a mão cair de volta no colo. "Você não pode destruir os elementos fundamentais da realidade. Vida e morte, ser e inexistência. É tudo o mesmo substrato, apenas a expressão muda."

"E a localização."

"E a localização", concordou Saheeli.

"Onde?"

Saheeli deu de ombros. "Em algum lugar. Eu não sei."

"Se foram levadas, podemos pegá-las de volta."

"Talvez sim, talvez não."

"Alguém pode", ofereceu Huatli. Saheeli sorriu, olhou para longe. "Enquanto isso", disse Huatli, "temos Ixalan. E tudo isso." Huatli apontou para o horizonte. "O que você acha que tem lá?"

"Eu não sei", disse Saheeli. Ela olhou de volta para Huatli, que estava sorrindo. "O quê?"

"Eu também não sei", disse Huatli. "Os piratas da Coalizão de Bronze podem saber, mas eu não. Oficialmente, o Império do Sol nunca navegou para o norte." Ela se levantou, ofereceu a mão a Saheeli e a puxou para cima também. "Podemos ir juntas, pelo caminho lento, e descobrir. Explorar este mundo que é novo para você e para mim também."

Saheeli gostaria disso, pensou ela. O caminho lento, com Huatli. Ela se aproximou. "Ainda estou triste", disse Saheeli, sussurrando, seus lábios roçando os de Huatli.

"Eu também", respondeu Huatli. "Mas estamos aqui juntas. E podemos ir para lá juntas."

Saheeli sorriu. Ela gostaria muito disso.

Arte de: Kieran Yanner

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Dias depois, Huatli e Saheeli estavam entre o conselho consultivo reunido na sala do trono temporária da cidadela em Orazca. O imperador-menino, Apatzec Intli IV, tinha viajado para cá com uma grande comitiva como parte de sua turnê pós-invasão e pós-coroação pelas terras sob seu domínio. Sua chegada a Orazca foi motivo de muita celebração — o Imperador do Império do Sol, mais uma vez na Cidade de Ouro, o lugar de lendas e potenciais. O povo cantou e vibrou durante toda a sua chegada; embora o trabalho de reparar a cidade das feridas que sofreu durante a invasão continuasse, progredia com vigor. Esta não era a reconstrução solene de uma cidade que havia sido perdida; esta era a retomada triunfante dos negócios como de costume.

Intli IV agarrava um quetzacama de malha brilhante e estofado, chupava o polegar e lutava para permanecer acordado. Ele vestia cores escuras e metais foscos, ainda em luto após a morte de seu pai no final da guerra. Este mundo, como o imperador-menino, era novo e rico em possibilidades — e sobrecarregado pelas aspirações da velha guarda que sobreviveu. O conselho consultivo tinha acabado de almoçar, e o retiro da tarde do imperador estava se aproximando. Em meio ao ruído suave dos atendentes limpando o almoço do conselho, o sussurro de conversas privadas e o rugido distante das ruas repovoadas de Orazca lá embaixo, o sono acenava.

Era uma tarde úmida, alternando entre sol dourado e chuva torrencial enquanto as nuvens do dia marchavam sobre a cidade. Saheeli suspirou, olhou para o grande panorama da dourada Orazca e da verde Ixalan além, espalhando-se até o horizonte nebuloso. Ela tomou um gole de sua bebida doce e gelada de hibisco e tamborilou as unhas no vidro fino.

Lar. Por enquanto, ou até o fim de seu tempo? Saheeli saboreou o delicado sabor do hibisco, depois mastigou um cubo de gelo, triturando-o. Ela olhou para o conselho e o imperador-menino, sabendo que deveria estar prestando mais atenção, mas lutando contra uma exaustão profunda. Ela tomou outro gole de sua bebida, tentando afastar a fadiga, e forçou-se a repassar o que sabia novamente.

Apatzec Intli IV continuaria o governo de seu pai, mas o imperador anterior não planejou morrer nas mãos de um assassino phyrexiano: o menino ascendeu ao trono na esteira da invasão, ainda uma criança, mal conseguindo assinar seu nome, muito menos entender e influenciar a política de sua corte ou de seu império.

E que política! Logo após a chegada de Saheeli e o subsequente isolamento em Ixalan, Huatli a instruiu no jogo que prendia esta alta corte. De um lado estava Atlacan Huicintli, o tio do imperador-menino e filho de papel postumamente legitimado do falecido imperador. Para os ingênuos, a função de Atlacan era governar o dia a dia de Pachatupa como mordomo do imperador. Para qualquer pessoa com um mínimo de consciência política, seu desejo pelo trono era evidente como a aurora.

Opondo-se a Atlacan estava Caztaca Huicintli, a sumo sacerdotisa do Sol Tripartido e filha mais velha do falecido imperador. Antes de sua destruição na guerra phyrexiana, Caztaca detinha o domínio sobre Otepec, uma vasta cidade de templos construídos em reverência ao Sol Tripartido. Enquanto o império trabalhava para reconstruir seu domínio, ela residia em Tocatli, a cidadela imperial acima de Pachatupa, conduzindo o curso da fé e ministrando ao jovem imperador como sua tutora principal.

Uma situação volátil. Um império dividido entre tia e tio, ambos tentando influenciar o menino e moldar o futuro da nação de acordo com seus desejos. Qualquer história que levasse a este momento seria subvertida enquanto esses gigantes lutavam pelo comando, correndo contra o tempo para ganhar o coração e a mente do imperador-menino antes que ele crescesse o suficiente para entender que era apenas uma ferramenta dourada para a ambição deles.

Isto era paz. Uma bebida doce, uma refeição de carne temperada e cítricos, e tédio. Saheeli ouvia apenas metade enquanto os poderosos do Império do Sol discutiam o curso das coisas que viriam — traduzido para ela em um sussurro suave por Huatli, que se sentava ao seu lado. Era estranho, este momento entediante: Saheeli tinha certeza de que deveria sentir algo mais do que tédio ao participar da luta pelo poder que se desenrolava diante dela sobre o leme do estado mais poderoso de Ixalan, mas desde o terror de queimar os nervos da guerra phyrexiana e a perda de sua centelha, essa luta parecia tão pequena.

"Querida", sussurrou Huatli, inclinando-se para interromper o momento de reflexão de Saheeli. "Eles querem saber quão avançados estão seus autômatos. Seus mecanoquetzacama."

Arte de: Cynthia Sheppard

"Mecano—" Saheeli bufou, reprimindo um riso. Os olhos de Huatli se arregalaram, e Saheeli lembrou-se que o resto do conselho e o imperador estavam lá com eles. Ela transformou seu riso em uma tosse de pigarro, ganhando um momento para se recompor. "Os mecanoquetzacama, sim", disse ela, usando a palavra do imperador — na realidade, a palavra de Atlacan — para seus quetzacama de filigrana. "A produção está lenta no momento, mas —"

Atlacan falou, interrompendo-a.

"Por favor, levante-se quando se dirigir ao imperador", traduziu Huatli, lançando um olhar severo para Atlacan.

Saheeli percebeu que Huatli omitiu o pior do que Atlacan disse — ela entendia o suficiente de Itzocan — Imperial Alto e Baixo — para captar o essencial. Ela obedeceu, no entanto, levantando-se e alisando a frente de sua túnica. Huatli levantou-se com ela, pois seria a intérprete. Saheeli cruzou as mãos à sua frente e falou, calma e lentamente, enquanto Huatli traduzia o que ela ainda não tinha vocabulário para articular.

"Produzimos cerca de uma dúzia dos meus quetzacama de filigrana diariamente", disse Saheeli. "Minha primeira coorte de engenheiros já é experiente o suficiente para ensinar seus próprios alunos, o que alguns deles já começaram a fazer."

"O imperador deseja saber por que a produção está lenta", traduziu Huatli. "Nós lhe demos todos os lingotes de que você precisa. Por que não temos um —" Huatli franziu a testa para as palavras de Atlacan. "Por que não temos a quantidade total de nossos trabalhadores?" Ela terminou, ainda com a testa franzida para Atlacan, que se inclinou no ouvido do imperador, preparando-se para falar a resposta de Saheeli ao menino.

"Temos um gargalo de talentos", disse Saheeli. "É verdade que não nos faltam recursos, e por isso sou eternamente grata. Sua graça e generosidade não conhecem limites terrenos." Saheeli fez uma reverência ao imperador-menino. "Mas o fardo sobre mim e meus engenheiros para ensinar e construir é grande demais para superar. Embora nossos armazéns estejam cheios, temos apenas um punhado de pessoas experientes o suficiente para montar as peças que nossos artesãos criam."

"Então você não pode entregar o que foi prometido?" perguntou Atlacan.

"Não, Lorde Comissário", disse Saheeli. "Podemos entregar o que o imperador pediu, apenas levará mais tempo para cumprir. Em nossa taxa atual de produção, prevejo um atraso de seis a oito meses." Saheeli sorriu em meio aos murmúrios surpresos que se seguiram à tradução de Huatli. Ela deixou a consternação passar e continuou.

"Tenho toda a intenção de terminar este projeto conforme planejado", disse Saheeli, aumentando a voz para ser ouvida acima do crescente ruído de conversas laterais, sussurros e resmungos. "Mandei pedir ajuda às faculdades de Strixhaven e ao Consulado em Ghirapur. Ambos os planos abrigam cientistas e engenheiros consumados que trariam prestígio ao império." Ela os estava perdendo, pensou ela. Um apelo ao coração, então. "Como Huatli", disse Saheeli, "perdi minha habilidade de caminhar pelos planos do Multiverso. Ixalan é meu lar agora, e o povo do Império do Sol é meu povo agora."

"E o imperador é seu suserano", traduziu Huatli, sua voz suave no eco que se esvaía do brado de Atlacan. "Cuja palavra é a palavra de Kinjalli, o comando de Tilonalli e a vontade de Ixalli. Você terá os mecanoquetzacama do imperador concluídos no tempo prometido originalmente, ou haverá consequências — consequências que qualquer servo do Império do Sol esperaria, em vez da leniência dada aos nossos hóspedes." Huatli ouviu o resto dos gritos de Atlacan, uma das mãos deslizando para a base das costas de Saheeli. "Ele não disse mais nada que precise de tradução", sussurrou ela, balançando a cabeça.

Atlacan terminou, recompôs-se e então acenou com a mão em um gesto de dispensa. Saheeli entendeu aquilo. Ela assentiu. Huatli falou por elas, pedindo sua partida e perdão, abençoando o jovem imperador e prometendo glória ao império e a garantia de que o projeto seria concluído como prometido.

"Poeta", chamou Atlacan, detendo-as.

Huatli segurou o braço de Saheeli e o apertou — um conforto. Firme.

"Ouvimos contos e boatos de câmaras antigas muito abaixo desta cidade", disse Atlacan. "Segredos enterrados há muito tempo, recém-descobertos por nossos soldados durante suas patrulhas."

"Que câmaras?" perguntou Huatli. "Eu estive sobre, acima e abaixo de Orazca. Tais câmaras não existem."

"Talvez você tenha estado", disse Atlacan. "Mas você não mergulhou fundo o suficiente para descobrir o que os próprios soldados do imperador encontraram."

Huatli manteve o rosto composto, mas Saheeli podia ver a veia pulsando perto de sua têmpora. "Eu pediria algum tempo para equipar e preparar minha companhia."

Atlacan inclinou-se para o imperador-menino, ignorando Huatli para sussurrar para a criança. O Imperador Intli IV ouviu, sorriu e assentiu. "Uma aventura", disse ele, sua voz alta e brilhante.

"O imperador abençoa sua campanha", disse Atlacan. "Vocês estão dispensadas. Vão e reúnam suas coisas."

"Minha companhia —"

"Sua companhia permanecerá em Pachatupa", disse Atlacan. "Levaria muito tempo para marchá-los até aqui. Em vez disso, você acompanhará Caparocti Nascido do Sol e seus lanceiros nesta jornada e servirá como os olhos do império. Eles foram instruídos a esperá-la e aguardar sua presença antes de partirem."

"Como desejar", disse Huatli.

"Como o imperador ordena", corrigiu Atlacan.

Huatli nada disse. Ela curvou-se e então conduziu Saheeli para fora da sala do trono.

"O que foi aquilo?" perguntou Saheeli.

"Ordens, só isso", disse Huatli. Ela levou um dedo aos lábios, silenciando-a. "Precisamos ir a algum lugar privado. Siga-me."

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As ruas de Orazca estavam lotadas e barulhentas, quentes e ricas com o cheiro de carnes grelhadas, especiarias e indústria de beira de estrada. Mascates e vendedores gritavam seus apelos enquanto compradores pechinchavam em grupos. Crianças riam e perseguiam pequenos quetzacama, enquanto feras maiores bufavam e urravam, conduzidas por seus manejadores, puxando carruagens de mercadorias para a cidade vindas das terras em recuperação fora das muralhas. O império, tão perto da morte durante a invasão, estava vivo agora, embora ferido: quetzacamas transportavam cargas de alvenaria arruinada e detritos contaminados para longe da cidade, para lixões distantes. Mesmo que o óleo tivesse se tornado inerte, os líderes da cidade não arriscariam a exposição. O fato de o óleo se tornar inerte foi tão súbito quanto sua chegada, sem garantias de que permaneceria inofensivo.

Huatli guiava Saheeli pelas ruas movimentadas. Era um festival hoje — pipas voavam sobre a cidade e crianças passavam por entre as multidões de celebrantes felizes. Dezenas de milhares de pessoas lotavam Orazca — cidadãos do império que vieram para cá depois que o fim da invasão deixou seus estados de origem devastados e inóspitos. Saheeli e Huatli estavam anônimas na multidão, sua conversa protegida pelo som da cidade e seu povo.

"H, o que está acontecendo?"

"Eu não sei", disse Huatli. "Preciso fazer alguns arranjos antes de partir. Venha comigo." Ela puxou Saheeli através da multidão, navegando ambas pelas ruas apinhadas. "Esta paz é uma ilusão. As peças estão se movendo mais rápido do que eu pensava."

"E que peças nós somos?"

"Peões, meu amor", disse Huatli. "Mas peões que sabem que estão sendo jogados. Aqui." Huatli puxou Saheeli para um grupo de barracas fora da avenida principal, onde vendedores estavam ocupados moendo masa e cantando canções de trabalho. Tinha um cheiro rico de terra e dos cigarros que as mulheres fumavam. Nenhuma delas olhou para cima de seu trabalho — outras pessoas entravam vindas da rua principal de vez em quando para comprar mercadorias, então Huatli e Saheeli entrando na praça não foram notadas.

Huatli verificou se não tinham sido seguidas.

"Atlacan quer retomar a guerra de seu pai", disse ela, satisfeita por estarem sozinhas. "Ele quer punir Torrezon." Ela se pressionou contra Saheeli, abraçando-a, agindo como se estivessem roubando um momento íntimo nas sombras entre as barracas. "Ele já está construindo uma segunda Frota da Alvorada na Baía da Rainha, maior e mais poderosa que a primeira."

"Outra guerra", gemeu Saheeli. "O povo não vai suportar", disse ela. "Eles não podem — ainda há destroços phyrexianos nas ruas e nas selvas. O império ainda está se reconstruindo."

"Não importa", disse Huatli, agarrando os braços de Saheeli. "Os estandartes se erguerão, os sacerdotes os abençoarão e o povo será convencido", sussurrou ela. "Atlacan fará o imperador me ordenar que escreva uma oração e, se eu não o fizer, ele fará com que uma seja escrita para eu proferir — uma recitação para abrir a campanha, para invocar os Anciãos."

"Você não pode—"

"Eu não posso', disse Huatli, balançando a cabeça. 'Eu sou a guerreira-poeta. Eu sirvo ao império.' Ela cerrou a mandíbula e deu um passo atrás de Saheeli. 'Sem minha centelha, não posso escapar das consequências da resistência. Devo desempenhar meu papel. Ele não pode saber que eu me oponho a ele, ainda não."

"O que podemos fazer?"

"Existem outros jogadores."

"Caztaca?"

"Ela detém o coração e a mente do imperador. Atlacan comanda o seu instinto, mas Caztaca pode torná-lo mais bondoso, para não ser o filho de seu pai ou o instrumento de seu tio." Huatli assentiu enquanto falava, como se estivesse trabalhando para convencer a si mesma enquanto expunha a escolha que fez. "O futuro do império deve estar com ela."

"O que você precisa que eu faça?" perguntou Saheeli.

"Eu não sei quanto tempo ficarei fora", disse Huatli. Ela adotou sua voz de comando, notou Saheeli. Um registro mais grave, para se proteger. "Havia uma reunião planejada. Preciso que você compareça a ela."

"Só isso?"

"Só isso."

"Isso não pode ser tudo. Eu deveria ir com você —"

"Não, meu amor", disse Huatli. "Você mandou pedir ajuda através dos portais, certo?"

"Caminhos do Augúrio, sim", disse Saheeli. "Eu menti sobre Ghirapur. O último Caminho do Augúrio que apareceu abriu-se apenas para Arcavios; enviei imediatamente um pedido de ajuda e eles disseram que enviariam um estudante de história. Um Planeswalker", Saheeli franziu a testa. "Quintorius Kand."

"Um Planeswalker?" perguntou Huatli.

"Evidentemente. O mensageiro me enviou o dossiê dele e temos nos correspondido intermitentemente — o caminho para Arcavios aparece com certa regularidade", disse Saheeli. "Devo dizer a eles para não se incomodarem?"

"Não", disse Huatli. "Talvez eu ainda consiga encontrar uma utilidade para ele." Ela cruzou os braços, um dedo batendo no bíceps. Ela olhou para o lado, para baixo. Pensando. Saheeli estendeu a mão para Huatli, chamando sua atenção de volta. "O que eu preciso saber sobre essa reunião?"

"A reunião é para planejar como depor Atlacan, desarmar a guarda do imperador e levar Caztaca ao poder ao lado do imperador", disse Huatli de uma só vez. Ela voltou, observando Saheeli com um olhar de grande determinação.

Saheeli expirou. Passou a mão pelo cabelo. "Você está planejando um golpe."

"Sim", disse Huatli. "Estamos."

"Preciso me sentar", disse Saheeli. No canto da pracinha havia um círculo de mesas e cadeiras para vendedores, compradores e transeuntes sentarem, comerem e descansarem. Saheeli conduziu Huatli a uma mesa vazia e sentou-se. Huatli sinalizou para um vendedor que passava e pediu bebidas geladas e mangas frescas temperadas.

Outra revolução. O coração de Saheeli doeu, lembrando-se dos anos da revolta de Kaladesh. "Este é meu lar agora", disse ela, "mas não é minha terra. O que eu digo nessa reunião sem você lá?"

As mangas e bebidas chegaram. As duas mulheres comeram e beberam em silêncio por alguns minutos, e então Huatli falou.

"Este é um império de muitos sonhos diferentes. Muitos futuros possíveis diferentes." Ela estendeu a mão sobre a mesa e a colocou no peito de Saheeli, sobre o coração dela, e então tocou a outra mão no seu próprio. "Seus sonhos e futuros. Os meus também. Isso deve acontecer agora, ou o povo sofrerá outra guerra." Huatli manteve seus olhos âmbar quentes fixos nos de Saheeli, ignorando a comida e a bebida. "Eu te amo. Somos uma da outra. Nesta reunião, você fala com a minha voz", disse Huatli. "Minha ajudante, Chitlati — farei com que ela te encontre depois que eu partir. Ela será sua intérprete se você precisar. Enquanto isso, avisarei às partes certas que você atua como minha procuradora. Eles entrarão em contato quando for a hora, e você irá com eles."

"Você ficará segura durante essa expedição estúpida", disse Saheeli. Uma ordem, não um pedido. "Não cabe a você liderar, não importa o que Atlacan ou o imperador digam. Você será uma poeta e uma escriba, não uma heroína."

"Claro", concordou Huatli. "O que quer que espere abaixo desta cidade, eu descobrirei por último."

"Bom."

"Estávamos prontos para agir", disse Huatli. "Só precisávamos de um empurrão — é este."

Saheeli colocou a mão sobre a de Huatli e a apertou. Ela entendeu.

Huatli virou a mão e apertou de volta.

Elas compartilharam o resto das mangas geladas e bebidas doces em silêncio, as duas perdidas no som e no clamor de Orazca, nenhuma querendo ser a primeira a soltar.

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Os aliados de Huatli contataram Saheeli apenas alguns dias depois, logo após a expedição da guerreira-poeta descer para as cavernas abaixo de Orazca. O pequeno grupo de conspiradores tirou Saheeli secretamente da cidade dourada para a costa, onde ela embarcou em um navio para a Baía da Rainha. Lá, na calada da noite, entre os cascos brutos da nova Frota da Alvorada, Saheeli embarcou em outro navio, que se afastou de Ixalan em direção ao oceano aberto.

A jornada da Baía da Rainha através do oceano oriental levou quase uma semana. Saheeli passou o tempo todo agarrada ao seu beliche no porão, doente devido a um oceano agitado que a tripulação da Coalizão de Bronze garantiu ser suave e calmo. Seu primeiro dia a bordo do Gunwhale tinha sido emocionante — apesar de suas reservas — mas logo o enjoo marítimo a dominou e a mandou para baixo.

Um constante subir e descer, girando sem horizonte. Náuseas e tonturas, rangidos, batidas, tosses e vômitos. Saheeli passou vários dias miseráveis tremendo em seu beliche, doente e sem dormir, vagando entre o meio-sono e a meia-vigília. Naquela vida horrível pela metade, ela sonhava com o lar e com a distância entre aqui e lá. Ela clamou por Huatli. Ela buscou profundamente dentro de si e tentou caminhar pelos planos para longe deste lugar — Ixalan, o oceano ondulante, o navio que era um leito de enfermidade — e lembrou que não podia mais fazer aquilo. Ela soluçou. Dormiu por algumas horas abençoadas, apenas para acordar sedenta, com a cabeça rodando.

Saheeli emergiu de seus aposentos em um meio-dia tão cinzento e pálido quanto ela, finalmente capaz de caminhar, com o estômago assentado pela resolução daquela discussão entre equilíbrio e movimento. Sua náusea havia passado e ela estava faminta. O navio estava abençoadamente imóvel, finalmente ancorado em um mar calmo. Ilhas escuras agachavam-se a boreste do navio. Além, nebulosa nas nuvens baixas, estava a borda de um continente, erguendo-se da linha do horizonte.

"Que cheiro é esse?" perguntou Saheeli, aproximando-se de um grupo misto de marinheiros do Império do Sol e da Coalizão de Bronze. A tripulação heterogênea estava reunida em torno de uma grelha de cozinha alimentada a carvão, um marujo da coalizão virando uma prateleira de filés espetados enquanto um soldado do Império do Sol pincelava a carne sibilante com um molho rico e escuro.

"Ela caminha!" disse um dos marinheiros da coalizão, chamando a atenção dos outros para Saheeli. "Compañeros, abram espaço."

O grupo se mexeu para fazer o que o marinheiro pediu, abrindo espaço para Saheeli se espremer ao redor da grelha. Ela usava um cobertor sobre os ombros. Era uma hora fria e úmida da manhã, e o calor emitido pela grelha era bem-vindo.

"Beba."

"Obrigada, Chitlati", disse Saheeli, aceitando a caneca de água que a assessora de Huatli lhe ofereceu.

"Com fome?" perguntou Chitlati. "Eles pegaram um thunnini dourado esta manhã. Aparentemente, mal precisa cozinhar antes de comer."

"Sim", disse um dos marujos da coalizão. "Fresco é melhor. Um selado rápido com sal e pimenta é tudo o que você precisa. Presente do próprio oceano — tenro como manteiga." Ele ergueu um espeto de peixe cozido, observando o molho pingando que os marinheiros do Império do Sol haviam pincelado.

O estômago de Saheeli roncou com o cheiro rico. O pirata ofereceu a ela o espeto e ela o pegou, mordendo um cubo de thunnini selado. Pimenta, sal, limão picante e o sabor rico e limpo do próprio peixe.

"Esta é a melhor refeição que já comi", disse Saheeli entre uma segunda mordida. "Achei que nunca mais comeria nada além de caldo", riu ela.

"Você ficou derrubada por mais tempo do que qualquer um", disse Chitlati. "Trabalho impressionante."

Saheeli deixou aquilo passar sem comentários. "Onde estamos, afinal?"

"Quase nos Sens", disse Chitlati. "Espero que esteja pronta." Ela olhou ao redor de Saheeli ao som de um grupo se aproximando da outra extremidade do navio. "A Sumo Sacerdotisa se aproxima — ela tem perguntado por você."

Saheeli se virou, comendo outra mordida de thunnini, para ver um pequeno grupo de sacerdotes e administradores agasalhados contra o frio e a umidade se aproximando deles. No centro, caminhando com um propósito não afetado pelo balanço do navio, estava uma mulher severa em trajes finos, embora discretos, do Império do Sol.

"Não pela minha saúde?" disse Saheeli para Chitlati, que mal conseguiu conter o riso. Em vez disso, ela se ajoelhou e curvou-se profundamente, sinalizando para Saheeli segui-la — ela era súdita do império agora, não mais uma convidada.

"Sua santidade", disse Chitlati, curvando-se.

A Sumo Sacerdotisa Caztaca Huicintli, filha mais velha do falecido imperador e tia amada do novo imperador, acenou com a mão, dispensando Chitlati e os marinheiros curvados. "Saheeli Rai", disse ela. "Fico feliz que esteja bem. Por favor", disse ela, tirando a mão de suas vestes para fazer um leve gesto. "Caminhe comigo. Temos muito a discutir."

Saheeli fez o que lhe foi pedido, levantando-se para caminhar ao lado da Sumo Sacerdotisa. Caztaca era alta, tornada ainda mais imponente pelo largo elmo de ofício que usava. Ela estava flanqueada por uma comitiva de canchatans — guardas do templo escolhidos por sua fé, lealdade e proeza — que estavam similarmente vestidos e adicionalmente blindados.

"Huatli a preparou antes de partir?" perguntou Caztaca. Ela caminhava como um deslize, não afetada pelas vestes pesadas que usava ou pelo balanço do navio, sua voz sempre um murmúrio baixo — a fala de quem pensava em versos, capítulos, liturgia. Como Huatli, pensou Saheeli, Caztaca sabia que a fala poderia ser uma arma ou um bálsamo.

"Sim", disse Saheeli. "Ela me contou sobre a... visão que você e outros têm para o curso do Império do Sol."

"E você?" perguntou Caztaca. Em nenhum momento ela olhou para Saheeli — seus olhos estavam no horizonte, longe, com seus pensamentos. "Qual é a sua visão para o curso do nosso império?"

"Compartilho do sonho de Huatli", disse Saheeli. "Paz acima de tudo."

"Admirável", disse Caztaca. "Tenho algumas perguntas antes de prosseguirmos. Seus quetzacama. Você os construiu e os entregou aos engenheiros do imperador. Eles são leais a eles ou a você?"

"Eles são máquinas", disse Saheeli. "São leais a quem quer que detenha seus códigos de comando."

"E os códigos?"

"Mantidos pelos engenheiros imperiais, mas existem chaves mestras — chaves físicas, em minha instalação de produção em Pachatupa." Elas caminhavam lentamente, mas Saheeli já se sentia sem fôlego.

Caztaca sorriu. "Bom", disse ela. "Seu Imperial Alto é bom, a propósito."

"Aprendi com a melhor."

"O que ela te ensinou sobre Torrezon?" Saheeli não conseguiu conter o olhar de surpresa que cruzou seu rosto. Leve, mas evidente. "Eu sei que o Império do Sol e Torrezon já guerrearam antes e continuam sendo grandes inimigos."

"Alta Torrezon," disse Caztaca. "Torrezon é o continente. Alta Torrezon é a terra dos vampiros. Não somos inimigos de Torrezon — nem de Alta Torrezon, na verdade — mas da igreja e da Legião do Crepúsculo."

"Eu presumi que essas fossem distinções sem diferença."

"Nunca confunda o mapa com a terra", disse a Sacerdotisa Ápice. Elas chegaram à cabine do capitão, esperaram que um atendente abrisse a porta e entraram. Os aposentos eram quentes e iluminados por pedras solares, repletos não apenas com as vestes e tecidos da Sacerdotisa Ápice, mas com uma mesa pesada, sobre a qual estavam esticadas grandes cartas náuticas. Saheeli aproximou-se delas com curiosidade.

"Onde estamos?", perguntou Saheeli, inclinando-se sobre o mapa.

"As Sens. Aqui", disse Caztaca, apontando para um pequeno conjunto de ilhas na costa oeste de Torrezon. "Alta Torrezon se esconde atrás do Deoro", disse ela, apontando para as profundezas do interior de Torrezon, onde uma vasta cordilheira de montanhas surgia atrás de um rio que dividia o continente. "Entre nós e eles estão as Cidades Livres na costa e entre as planícies."

"Mais vampiros?"

"Humanos", disse Caztaca. "Aspirantes. Os fiéis. Comida." Ela fez uma careta. "Tenho um favor a lhe pedir."

"Claro."

"Tome notas em sua língua", disse Caztaca. "Não posso confiar em nenhum código em minha língua para resistir ao escrutínio, mas você é a única alma em toda Ixalan que pode ler e escrever sua escrita."

"Eu posso fazer isso", disse Saheeli.

"Bom. Junte suas coisas. Partiremos antes que a hora termine."

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Saheeli estava em uma praia escura e fria na costa leste de Sen Gael, a ilha principal das Sens, e olhava para o oceano cinzento em direção a Torrezon. O continente dos vampiros espreitava atrás de uma frente de chuva e nuvens baixas, pontilhado por cordões de luzes costeiras, faróis e barcos de pesca despachados das Cidades Livres. Esta era uma costa fria, longe do verde exuberante e quente de Ixalan. Saheeli estremeceu, apertando sua capa de chuva em volta de si. Quanto antes terminasse com isso, melhor.

Um único navio da coalizão, gêmeo daquele em que Saheeli chegara, estava ancorado a cem jardas da praia. Uma lancha solitária batia contra as ondas, com um grupo de figuras encapuzadas a bordo, curvadas contra o spray castigado pelo vento.

Eles estavam aqui.

Saheeli virou-se e caminhou de volta para o farol onde Caztaca e o restante do grupo do Império do Sol esperavam, cruzando a curta distância lentamente, considerando seus passos enquanto refletia sobre o que Caztaca lhe dissera nos últimos dois dias: A guerra cria alianças estranhas. A morte muda equações. O desespero força a ação quando, de outra forma, poderia ter havido paz.

Caztaca contou a Saheeli sobre espiões mercenários da Coalizão de Bronze, com a lealdade garantida por pesos de ouro, que retornaram das Cidades Livres para sussurrar aos seus sacerdotes. As notícias que trouxeram provocaram medo, mas também ação: o fervor do dia do juízo final se espalhou por Alta Torrezon como uma praga de medo ansioso. Em vez de ratos, essa pestilência se espalhou pelos lábios de cultos fanáticos, cuja retórica enviou fraturas profundas pelos alicerces da Igreja do Crepúsculo. Uma figura sombria surgindo do descontentamento turbulento, e uma rainha em busca de aliados.

Enquanto isso, a febre da guerra assolava Pachatupa e o Império do Sol. Um povo cambaleante, ferido, um punho do estado empunhando uma espada faminta para morder a carne. O filho de um imperador preterido e uma criança no trono que ainda não conseguia entender a gravidade do papel que desempenharia.

Uma rainha no leste e uma sacerdotisa no oeste com ambições gêmeas. Um império ascendente que ainda poderia ser capturado, e um reino suspenso acima de um abismo precipitado que ainda poderia ser puxado da beira. Alianças estranhas, de fato. Diante de um inimigo irracional, o adversário com quem se pode argumentar pode ficar ao seu lado — não como amigo, mas como colaborador.

Saheeli lembrou-se da história de Huatli sobre a batalha em Orazca durante a guerra Phyrexiana: vampiros e humanos lutando juntos contra os Phyrexianos. Sen Gael não era Orazca. O inimigo que Caztaca e seus colaboradores momentâneos enfrentavam não eram os Phyrexianos. Esta reunião não seria um campo de batalha, mas decidiria o destino das nações da mesma forma.

Saheeli apressou-se pelo resto do caminho subindo a trilha para o farol e entrou na pequena cabine em sua base sem bater. As Sens eram as ilhas natais dos orcs, que haviam sido terrivelmente reduzidos por Alta Torrezon; o campo estava silencioso. Não havia mais ninguém ali além deles.

O interior da cabine do farol era quente e cheirava a café, tinta e mar. Uma mesa grande fora arrastada para o centro da sala, ao redor da qual Caztaca e seus conselheiros estavam sentados. Quando Saheeli entrou, Caztaca olhou para cima, registrou quem era e então moveu os olhos para o assento vazio ao seu lado: o posto de Saheeli para a noite.

Saheeli abriu caminho pela sala, navegando pelas conversas tensas e murmuradas. Os canchatan mantinham as mãos perto de seus cintos, nas alças vazias onde costumavam usar seus macuahuitls, os dedos roçando furtivamente as silhuetas rígidas sob suas roupas onde guardavam facas escondidas.

"A confiança", disse Caztaca a Saheeli enquanto ela se acomodava, "será forjada esta noite por uma traição compartilhada. Você entende?"

Saheeli assentiu. "Meus primos e eu roubamos uma folha de soan papdi da vitrine de uma doceria uma vez. Juramos nunca contar a ninguém." Ela rabiscou alguns traços de tinta no bloco de notas, preparando sua caneta. "Nossa amizade só cresceu a partir dali."

"Uma recordação comovente", murmurou Caztaca.

"Tudo isso para dizer: eu entendo."

Uma batida rápida na porta, seguida pelo assobio crescente do vento e da chuva quando um canchatan entrou.

"Eles estão aqui, vossa graça", disse o soldado, limpando a água dos ombros. Ela fez uma breve reverência ao se dirigir a Caztaca. "Elenda está com eles."

Caztaca levantou os olhos de suas notas com surpresa — contida, mas evidente. "Você tem certeza?"

"Eu vi uma luz não natural emanando de uma figura em seu grupo", disse o canchatan. "Não era luz de tocha ou pedra solar. Era tênue, uma coroa de contas que parecia flutuar atrás da parte de trás da cabeça da figura." Ela disse, com os olhos arregalados. "Ouvi dizer que apenas os Veneráveis são agraciados com essa luz."

"De fato", disse Caztaca, um sorriso cruzando seu rosto. "Obrigada. Seque-se, isso é tudo."

Saheeli lembrou-se do pouco que Huatli lhe contara sobre Elenda. A primeira vampira, as primeiras batalhas sem nome contra a Legião. A corrida para Orazca, o Sol Imortal, e a punição de Elenda ao seu próprio povo.

Aqui estão as peças usinadas pelo torno da história, encaixando-se em seus lugares.

Uma batida na porta. Silêncio na cabine do farol.

"Entre", disse Caztaca.

A porta se abriu. Quatro figuras sombrias entraram, baixando-se para passar seus elmos pontiagudos sob o batente da porta. Seus passos eram pesados, as botas batendo no chão de tábuas, o tilintar suave e o farfalhar da armadura sob suas capas de tecido encerado. Um por um, ao entrarem, retiraram suas espadas embainhadas e as encostaram na parede ao lado da porta.

Saheeli examinou os rostos sombrios dos homens que entraram. Pele pálida, olhos cinzentos iluminados por dentro com uma suave luz prateada. Uma austeridade tão severa que irradiava deles como um frio terrível. Eles observaram o grupo de soldados e dignitários do Império do Sol, seus rostos neutros, mãos descansando — como faziam os canchatan — perto das alças vazias em seus cintos onde suas armas costumavam ficar. Satisfeito, um dos soldados deu um passo para fora. Um momento depois, Santa Elenda entrou.

A Venerável afastou o capuz ao entrar na cabine, revelando o rosto e um diadema suave e constantemente brilhante que coroava sua cabeça. Um halo, the sign of canonization, of veneration — uma investidura divina nesta única pessoa. Embora a pele de Elenda fosse tão cinzenta quanto a de seus companheiros, faltava-lhe o aspecto austero: suas bochechas estavam coradas, como se o frio e o vento tivessem rachado seu rosto — ou, melhor dizendo, como se ela tivesse acabado de se alimentar. A Venerável observou o grupo do Império do Sol, seus olhos brilhando em um ouro suave e quente. Ela sorriu, e Saheeli pôde ver as pontas de suas presas surgindo logo abaixo de seus lábios.

"Elenda", disse Caztaca, levantando-se. "Por favor, sente-se. E diga aos seus soldados que podem relaxar. Somos todos colaboradores aqui."

"Colaboradores", disse Santa Elenda. "Colaboradores", ela repetiu, como se provasse a palavra. "Prefiro amigos."

"É isso que somos?", perguntou Caztaca.

"É o que precisamos ser", respondeu Elenda. Ela tirou a capa e acomodou-se em sua cadeira. "Depois desta noite, os únicos amigos que teremos serão as pessoas nesta sala. Nosso lar se tornará um ninho de víboras com dentes de cinza. Confiança ou respeito — precisamos ser amigos."

"Amigos, então", disse Caztaca. "Então aqui estamos. Vamos começar."

Elenda inclinou-se para frente, ouvindo.

Saheeli molhou a ponta de sua caneta.

"Nosso imperador nos levará à guerra", disse Caztaca. "Ele é uma criança. Meu irmão Atlacan anseia pelo trono, mas nunca poderá tê-lo, então, em vez disso, ele se infiltrou na mente do imperador. Ele sussurra sonhos de conquista para o garoto, que exige navios e regimentos como se estivesse empilhando seu prato de jantar com sobremesas doces. Nosso povo não aguenta outra guerra, não importa o quanto se preparem. Nem o seu."

Elenda ergueu uma sobrancelha. "Você acha?"

"Eu sei", disse Caztaca. "Sua igreja e sua rainha. 'Um ninho de víboras com dentes de cinza'. Estou errada?"

Elenda sorriu. "Você não está errada", disse ela. "Seu irmão sussurrante e seu imperador complacente estão à altura dos zelotes em meu domínio. O Pontífice Fein luta para manter a Igreja do Crepúsculo unida. O chamado para o renascimento é... forte. Você está ciente de que há uma segunda expedição para Orazca em andamento?"

"Estou ciente", disse Caztaca. "Presumi que fossem seus."

Saheeli levantou os olhos de suas notas, contendo-se apenas momentos antes de deixar escapar que definitivamente não estava ciente de outra expedição da Legião para Orazca.

"Não é nossa", disse Elenda, balançando a cabeça. "Ixalan não interessa mais à coroa, não desde a partida do Sol Imortal. Este grupo é liderado por Vito Quijano de Pasamonte, um dos hierofantes do Antífice", disse Elenda. "Não autorizado pela igreja. A Companhia da Baía da Rainha: um dos empreendimentos da rainha, agora infestada por fanáticos escatológicos retrógrados e sanguinários que acham que podem trazer a Era de Sangue ao devolver Aclazotz para Alta Torrezon."

"Eles podem?"

"Sim, a menos que sejam impedidos."

A mão de Saheeli doía. Ela segurava a caneta com força suficiente para deixar os nós dos dedos brancos enquanto transcrevia. Elenda falava com uma leveza na voz que soava pouco séria para Saheeli. Ela falava de um cisma que ameaçava a igreja que a canonizara, de uma fervura lenta de fervor apocalíptico que, contido ou não, só poderia terminar com Alta Torrezon se despedaçando. Ela falava de Huatli em perigo: Sua voz deveria tremer. Ela deveria estar implorando por ajuda.

"Huatli os deterá", disse Caztaca. "Independentemente do que meu irmão espere que eles realizem em Orazca, os soldados do Império do Sol sabem o que fazer quando encontrarem a Legião em nossa terra."

Huatli, na escuridão. Saheeli olhou além da mesa para os soldados da Legião que estavam atrás de Elenda. Homens robustos, cada um com mais de um metro e oitenta de altura, todos revestidos de ferro em espessas armaduras de placas de ouro polido. Gravuras de rosas, espinhos e figuras humanas ajoelhadas, com os braços erguidos como se estivessem escorando as placas que protegiam as formas desses carrascos.

"Se Aclazotz puser uma única garra em Torrezon, o reino se despedaçará", disse Elenda, repetindo-se. O rosto de Elenda perdeu o brilho. Por um momento, o viço que preenchia suas bochechas vacilou. "Não posso deixar que isso aconteça", sussurrou ela. "E você não pode deixar seu irmão levar seu imperador à guerra."

Apesar de sua raiva, Saheeli sentiu-se atraída por Elenda. Divindade, ela deduziu. É claro. A proximidade com o divino — qualquer divino — era difícil de resistir. Ela entendia esse magnetismo, algum princípio fundamental do Multiverso que ela, um ser mortal, sentia como algo a mais . Saheeli resistiu a esse desejo de seguir, transformando-o em uma análise dos pequenos detalhes da mortalidade de Elenda que persistiam: o fio grisalho em seus longos cabelos escuros. O suave salpico de sardas sobre a ponte do nariz.

Os olhos de Elenda brilharam frios como aço.

"Há mais alguém aqui", disse ela. Ela virou-se em seu assento para encarar a porta exatamente quando ela se abriu com estrondo.

Uma figura robusta preencheu o batente da porta, as mãos agarrando cada lado como se estivesse se segurando contra o vento uivante que rugia com eles. Atrás deles estava um bando de orcs e humanos portando cutelos, cheios de cicatrizes e remendos, com uma mistura heterogênea de armaduras e roupas para protegê-los dos elementos.

Uma confusão. Os guardas leais de Elenda e os canchatan de Caztaca gritando, levantando-se da mesa, movendo-se entre este novo grupo e seus soberanos. Os recém-chegados ficaram entre eles e suas espadas, mas todos sacaram adagas, cacetetes, estiletes e outras armas de mão ocultas, brandindo-as. A própria Saheeli levantou-se e recorreu à sua própria magia, transformando a ponta de metal de sua caneta em uma lâmina afiada como navalha.

"Silêncio!", berrou a intrusa. Uma voz de mulher, acostumada a comandar, a precisar ser ouvida acima do uivo do vento e dos gritos furiosos. "Abaixem as armas, todos vocês!" A mulher entrou na cabine seguindo a ponta firme de seu cutelo de lâmina reta. Ela era mais velha, enrugada e queimada pelo sol, mas portava-se com uma força de carvalho. Vestia roupas de marinheiro — um pesado casaco de lã, um chapéu bicórnio que ela retirou da cabeça e botas resistentes manchadas de sal.

Caztaca deu um comando rápido aos seus canchatan, que mantiveram suas armas ocultas firmes e não recuaram. A própria Sacerdotisa Ápice empunhava uma pequena faca, pronta para lutar.

"Façam o que ela diz", disse Elenda, levantando-se. Ela colocou a mão no ombro do guarda mais próximo e gesticulou para que baixassem as armas. "Almirante Brass", disse Elenda, dirigindo-se à mulher que acabara de entrar. "Você não era esperada."

"Vocês vieram aqui no meu navio, para barganhar sobre nações na minha ilha", o Almirante Beckett Brass sorriu por cima de sua espada para Elenda. "Companheira, você precisa ajustar suas expectativas quanto ao papel do mensageiro quando a carga é tão boa."

"O que você quer?", interveio Caztaca. "Ouro? Informação? Já pagamos seus mercenários. Nossa dívida está quitada."

Brass lançou um olhar para Caztaca, seu cutelo inabalável. Atrás dela, seus marinheiros riram.

"Silêncio", retorquiu Brass. Uma mecha de cabelo louro pálido caiu sobre seu rosto. Com a mão livre, ela a colocou para trás, limpando a chuva e o suor da testa. Ela olhou entre Elenda e Caztaca, avaliando as duas mulheres.

Saheeli desenrolou sua agulha de filigrana, moldando-a de volta em uma simples caneta. Nesta sala estavam três das pessoas mais poderosas de Ixalan. A Venerável Elenda, a santa viva da Igreja do Crepúsculo. Caztaca Huicintli, Sacerdotisa Ápice do Império do Sol. O Almirante Beckett Brass, líder da Coalizão de Bronze. Ela tentou se lembrar do que Huatli lhe contara sobre a Coalizão de Bronze e o Almirante Brass, mas viu-se perdida além de piratas, caçadores de ouro e algo relacionado a magias roubadas.

"Você e os seus pagaram suas dívidas comigo", disse Brass. "But I'm no merchant or banker."

Caztaca olhou para Elenda, que mantinha seu rosto beatífico, neutro.

"Nós ouviremos", disse Caztaca, falando com Brass sem olhar para ela. "Você", disse ela para Saheeli, "escreva."

"Registre isto bem", disse Brass para Saheeli enquanto embainhava sua espada. "Eu terei uma nação", continuou a Almirante. "Uma terra de povo livre, o oceano aberto e cada ilha entre aqui", ela apontou para o chão sob seus pés. "E lá", disse ela, apontando para o oeste em direção à distante Ixalan. "Há um grande jogo sendo jogado aqui. Vocês duas estão preparadas para apostar tronos e coroas como moedas. Regicídio e fratricídio estão na mesa e as mãos dos jogadores quase todas dadas." Brass moveu a ponta da espada entre as outras duas mulheres enquanto falava. "Bem, senhoras, eu também estou aqui, e sou aquela com o punho cheio de aço cortante." Os olhos de Brass brilhavam como fragmentos de céu, penetrantes, límpidos. "Mais uma mão a dar: minha coalizão exige reconhecimento como um jogador deste jogo em termos de igualdade."

"E se recusarmos?", perguntou Elenda.

"Então matarei as duas aqui e o fedor da fumaça dos canhões sufocará Torrezon e Ixalan", disse Brass. "Seu povo nunca mais tocará o oceano sem que um navio da coalizão apareça no horizonte. Os mares serão um cemitério e a terra uma prisão."

Silêncio, exceto pelo som da caneta remodelada de Saheeli arranhando o final do ditado do Almirante Brass.

Brass ergueu o cutelo novamente e então o cravou no chão de tábuas da cabine, onde ficou profundamente preso. "Uma resposta", exigiu ela. "O que será? Um estado ou os canhões?"

"Uma mensageira audaciosa", murmurou Caztaca. Ela cruzou os braços.

"Essa é a sua resposta?"

"Um momento", disse Caztaca. "Estou pensando."

"Esta pirata está nos mantendo reféns", disse Elenda, com um tom perplexo na voz. "O que há para pensar?"

"A oferta dela não é sem mérito", disse Caztaca.

"Você será nossa aliada, Almirante?", perguntou Elenda.

"Governadora", corrigiu Brass. "E empenharei minhas frotas àqueles que se empenharem em nossa causa."

"Isso não é um sim", disse Elenda.

"Vocês não tomaram sua decisão", rebateu Brass.

"Vocês deveriam dizer sim", disse Saheeli, manifestando-se.

Outro silêncio caiu sobre a sala.

"Perdão?", perguntou Elenda, virando-se para Saheeli.

"Aceitem a exigência dela", disse Saheeli. Ela já enfrentara coisas piores que Elenda, mas o olhar da Venerável ainda era inquietante, hipnotizante. Um vislumbre do divino, um furo no véu entre o mortal e o imortal. Não era de sua própria fé, mas era impressionante mesmo assim. Saheeli limpou a garganta e continuou. "Vocês duas precisam de aliados. Ambas estão trabalhando contra um relógio que trabalha contra vocês, sem saber quanto tempo resta." Saheeli disse. "Como disse a Governadora Brass — este é o jogo. Nações estão em jogo. Acertem-se agora e garantam os mares", disse Saheeli. "Faz sentido."

"Quanto de nossa história você conhece?", perguntou Caztaca. "Huatli lhe contou algo sobre o rastro de destruição da coalizão subindo e descendo nossa costa antes da guerra Phyrexiana?"

"Eu só sei um pouco", admitiu Saheeli. "A corrida para Orazca, principalmente."

"Eles saquearam nossas frotas de pesca e pilharam nossos templos", disse Caztaca. "Eles mataram milhares de nossos cidadãos e saquearam centenas de nossos artefatos para suas aventuras." Caztaca falava com firmeza, mas sem raiva. "A guerra nos forçou a ficarmos unidos. Esses laços só cresceram, mas como uma cicatriz. A ferida ainda dói."

"O que Brass pede é difícil de aceitar", concordou Elenda. "Uma nação de piratas e náufragos que reivindicam o oceano." Ela suspirou. "Eu não vejo como."

"E um reino de vampiras é mais fácil de admitir?", riu Brass.

"Nós não precisamos implorar por reconhecimento", rebateu Elenda.

"Você implorará por misericórdia", rosnou Brass, alcançando seu cutelo.

"Quantos navios você tem", interrompeu Saheeli. "Almirante Brass. Seus navios?"

O Almirante Brass soltou seu cutelo. "Precisarei de uma garantia antes de prosseguirmos", disse ela, dirigindo-se a Saheeli.

"Caztaca, você não pode deixar que esta escriba—"

"Eu posso", disse Caztaca. Ela fez um gesto curto para Elenda, silenciando-a. A Venerável piscou, surpresa com Caztaca e, Saheeli presumiu, consigo mesma por obedecer. "Uma troca justa de informações?", disse ela, dirigindo-se a Brass.

"Pela minha palavra", assentiu Brass.

Caztaca respirou fundo, concentrando-se. "O imperador está construindo outra frota de dez mil navios", disse ela. "Ele pretende usá-los para invadir Alta Torrezon."

"E quantos ele construiu até agora?", perguntou Brass.

"Pelo menos duzentos", disse Caztaca.

"Isso coincide com o que sabemos", assentiu Brass. "Temos seiscentos navios de guerra abastecidos e prontos para navegar, todos com tripulações veteranas, com reservas em docas secas por todo o mar. A Legião opera apenas oitenta navios de guerra; o restante são mercantes e outros cargueiros. Isso está correto?", perguntou ela, olhando para Elenda.

"O que a faz pensar que eu lhe diria?"

"Porque é a sua vez de jogar", disse Brass. "Minhas peças, suas peças, as peças dela — tudo na mesa. Confiança mútua ou destruição mútua. Estamos discutindo termos, não é, Caztaca?"

"É isso mesmo", concordou Caztaca. "A coalizão já está tecida nesta trama, Elenda: os espiões que contratamos em sua terra, os espiões que você contratou na nossa. Os navios que ambas usamos para vir aqui sem sermos detectadas por nossos inimigos. Esta própria ilha — eles estiveram à mesa conosco o tempo todo. Brass nos oferece uma aliança por enquanto. Se aceitarmos, todos teremos o que queremos", disse Caztaca.

Elenda olhou ao redor da sala, silenciosa por um momento excessivamente longo. Quando falou, sua voz soava cansada, seu orgulho ferido. "Nós lhe escreveremos cartas de marca", disse Elenda para Brass. "Impeçam Vito e seus acólitos de retornarem para Alta Torrezon. Matem-nos em Orazca ou afundem-nos no oceano, eu não me importo. Se puderem fazer isso, farei com que a rainha reconheça as reivindicações da coalizão como legítimas. Gratidão pelo serviço à coroa e à igreja."

Brass sorriu. Ela estendeu a mão para Elenda. Elenda correspondeu e as apertaram, fazendo uma careta.

"E você?", perguntou Brass a Caztaca, estendendo-lhe a mão. "O que você quer que façamos pela nossa nação?"

"Nossa segunda Frota da Alvorada", disse Caztaca. "No fim do verão, após os primeiros furacões anunciarem o fim da construção segura: queimem esses navios em suas docas. Atraiam o exército imperial para a costa, longe da capital. Exponham o imperador e seu sussurrador para mim."

Brass estendeu a mão. "Negócio fechado", disse ela.

"A Sacerdotisa Ápice não aperta as mãos", disse um dos canchatan de Caztaca, dando um passo à frente para se colocar entre Brass e Caztaca. Brass retirou a mão e a manteve erguida, sorrindo, em tom de desculpa.

Caztaca enfiou a mão nas dobras de sua capa e arrancou uma única pena da veste que usava por baixo, oferecendo-a a Brass. "Devolva-me isto quando eu governar em Pachatupa, e eu lhe darei sua nação."

"Só isso?", perguntou Brass, pegando a pena.

"Só isso."

"E depois?", perguntou Brass. "Comércio, alianças, diplomacia? Vocês lidarão conosco em termos de igualdade?"

"Não lhe prometo nada além de um estado para chamar de seu, governadora", disse Caztaca. Seu sorriso era o sorriso de uma ave de rapina. "Uma nação reconhecendo outra em sua fronteira."

Brass considerou isso. Ela passou a pena de volta para um de seus marinheiros, que a guardou em segurança em uma bolsa à prova de intempéries. "Está feito", disse ela.

"Feito", concordou Caztaca.

"Feito", disse Elenda.

"Feito", disse Saheeli, terminando sua transcrição da reunião. Ela colocou o papel na mesa, pousou sua caneta sobre ele e deu um passo para trás. Um a um, as três líderes assinaram, selando seu contrato. Saheeli soprou a tinta para secá-la e então enrolou o papel em um pergaminho apertado.

"Metal", disse Saheeli, olhando para os soldados na sala. "Moedas, na mesa, por favor."

Relutantes, todos os soldados pescaram moedas de seus bolsos e bolsas e deram um passo à frente para lançá-las sobre a mesa. Sob essa chuva de moedas, Saheeli moldou um recipiente fino de cobre, prata e ouro em volta do documento. Ela o embelezou um pouco, gravando um padrão de filigrana em sua face, mas certificou-se de selá-lo contra os elementos. Quando terminou, ela ergueu o cilindro de metal sem emendas, inspecionando seu trabalho.

"Quem leva esse documento?", perguntou Brass.

"Elenda", disse Caztaca. "Considere-o um recibo. Saheeli é a única que pode abrir esse estojo sem destruir o documento dentro dele. Está correto?"

"Certo", disse Saheeli. "Se você cortar ou derreter o estojo, destruirá o papel lá dentro e este acordo será anulado."

"Pode ser que nós queiramos que seja destruído", murmurou Elenda. Ela girou o cilindro nas mãos, com delicadeza, e então o passou para um de seus soldados.

"Destruição mútua se revelado", disse Caztaca, olhando para Elenda. "E uma dívida inalterável e acordada a ser paga", disse ela, dirigindo-se a Brass.

"Bom o bastante para mim", disse Brass, assentindo. Ela puxou seu cutelo do chão de tábuas. "Estou indo", disse ela, deslizando sua espada para a bainha. "Foi um prazer fazer negócios com vocês duas. Os navios em que navegaram até aqui serão reabastecidos, suas tripulações substituídas e, de resto, preparados para suas viagens de volta. Boa sorte a ambas", disse ela ao sair. "E nos vemos no novo mundo."

Brass e sua comitiva deixaram a cabine, indo em direção à tempestade uivante com seus casacos apertados em volta deles, gritos de alegria surgindo para encontrar o vento furioso.

"A nova ordem do mundo decidida em quê, 30 minutos?", disse Elenda. Ela se levantou e gesticulou para seus soldados. "Com sua licença, Vossa Eminência", disse ela a Caztaca. "Tenho uma rainha para informar e uma igreja para manter unida." Elenda, como Brass, parou à porta aberta. "Nos vemos no novo mundo", disse ela, com um toque de sarcasmo nada santo na voz. She flipped up her hood and departed, leaving Saheeli, Caztaca, and the Apex Priestess's canchatan soldiers alone in the lighthouse cabin.

O silêncio seguiu a partida da Venerável. A chuva batia no telhado de telhas. O vento sacudia as janelas protegidas contra tempestades em suas molduras. Caztaca sentou-se em silêncio, franzindo a testa, encarando o buraco onde Brass cravara seu cutelo. Mais adiante, Saheeli supôs, nas entranhas do plano, onde agentes de ambas as nações corriam em missões de soberanos opostos.

Este artifício diplomático era hediondo para Saheeli. Desorganizado. Confuso em custo, eficiência, confiança e vidas humanas. Alianças mudavam, decisões eram tomadas não em fatos, mas em saltos de fé e confiança. Amigos e rivais trocavam de máscaras constantemente. Como em Kaladesh, o poder nunca se estabelecia em equilíbrio, mas estava sempre disponível para quem o pegasse: nenhuma decisão era final se fosse uma decisão tomada por várias pessoas para várias pessoas. Ao mesmo tempo, Saheeli rejeitava a lógica de estabilidade do tirano contida em um único corpo: os objetivos caprichosos e egoístas de um autocrata prometiam uma consistência fatal e condenada. Sem equilíbrio em muitos, sem justiça em um — onde poderia haver paz?

"Saheeli", disse Caztaca finalmente.

"Sim, Vossa Eminência?"

"Huatli me apoiará?"

Saheeli hesitou. Caztaca esperou, e Saheeli estava distintamente ciente de quão vulnerável ela era, sozinha naquela ilha e cercada pelos soldados da Sacerdotisa Ápice.

"Ela me garantiu que apoiaria", disse Saheeli.

"Apesar disso, Huatli me preocupa", disse Caztaca. "Ela é a consciência do império. O coração e a voz do povo, mas ela é a hagiógrafa do império também."

"Ela me contou o quanto admira sua causa", disse Saheeli. "Ela me pediu para falar com a voz dela nesta reunião."

"Falar, escrever, admiração", Caztaca balançou a cabeça. Ela se levantou, gesticulando em direção à porta. Seus soldados entraram em ação, alguns saindo apressados da cabine para irem para o navio, outros se preparando para escoltá-la. "Quando chegar o dia da ação, a única coisa que precisarei são espadas. Muitas pessoas que me admiram agora, que escrevem e falam gentilmente de mim agora, ficarão do lado do imperador." Ela acenou para que Saheeli se aproximasse. "Vamos desfazer a ordem natural. Vamos pedir ao povo que faça mais um esforço para garantir seu futuro. Então, nada de palavras — eu preciso de ação. Preciso de espadas. Preciso da guerreira-poetisa."

E ali estava a sua resposta, percebeu Saheeli. Resolver a paz era uma equação sem fim: um projeto que deve ser sempre revisado enquanto está na prática. Descartar o sonho arrogante de ser quem termina o projeto e encontrar propósito na luta para segurar a caneta com a qual o projeto é desenhado. Começar. Iniciar. Fazer sua jogada; pelo menos assim você será um ator, em vez de um sujeito.

Pegue uma espada, Saheeli, pensou ela consigo mesma. Essa é a resposta.

"É natural seguir o próprio imperador para a guerra", continuou Caztaca, sua voz um áspero e feroz arranhão. "É natural odiar aqueles que estão do outro lado do oceano, embora a luz de Tilonalli brilhe sobre eles também", disse Caztaca. "Eu pretendo fazer a coisa não natural."

"Huatli e eu estaremos com você", repetiu Saheeli, lembrando-se de sua amada no mercado, o mesmo tom feroz na voz que Caztaca tinha, o mesmo medo, a mesma esperança.

Caztaca fixou seu olhar em Saheeli. As duas mulheres tinham aproximadamente a mesma altura, mas naquele momento a Sacerdotisa Ápice erguia-se como uma pira, estendendo-se em direção ao céu cinzento, a história e os dias vindouros personificados.

Caztaca estendeu a mão para Saheeli. Saheeli estendeu a sua. As duas mulheres apertaram as mãos e então saíram para o vendaval uivante, escoltadas pelos guardas do templo.

Saheeli seguiu Caztaca em direção à margem, descendo da cabine solitária e atravessando a areia escura de Sen Gael. A lancha balançava nas águas rasas, mantida no lugar por piratas da Coalizão de Bronze e um par de canchatan de Caztaca, que estavam com a água até os joelhos no quebra-mar. Chitlati já estava sentada dentro da lancha, esperando por elas. A rebentação fria subia pela praia, ondulando e rolando em volta de seus tornozelos. O calafrio era agudo, clarificador. Uma chuva amarga caía do tumulto acima, o oceano rolava e apitos distantes de contramestre trilaram.

Este era o mundo dela, pensou Saheeli. Dela e de Huatli. Ela sussurrou uma breve oração, uma escritura antiga memorizada há muito tempo e decorada, mas que agora, mesmo que apenas pelo momento em que foi proferida, era genuína. Ela estendeu a mão para o canchatan que lhe oferecia apoio, saiu da água para a lancha que balançava, sentou-se ao lado de Chitlati e apertou suas roupas de chuva em volta de si enquanto os outros soldados entravam.

Com a ajuda dos marinheiros da coalizão, eles empurraram a lancha da areia, soltaram os remos e remaram contra a ondulação crescente em direção ao navio distante que os levaria de volta para Ixalan, onde a próxima rodada do grande jogo logo começaria.